O tratamento contra o câncer de mama pode provocar mudanças na vida sexual das mulheres que permanecem mesmo depois do encerramento da quimioterapia, da radioterapia ou de outros procedimentos. Diminuição do desejo, ressecamento vaginal, dor durante as relações e dificuldades com a autoestima estão entre os efeitos que podem comprometer a intimidade e exigir acompanhamento especializado.
Um estudo brasileiro publicado em 2026 na revista científica Scientific Reports identificou disfunção sexual em 79,8% das participantes sexualmente ativas avaliadas durante o tratamento hormonal contra a doença. O resultado reforça a importância de incluir a saúde sexual entre os cuidados oferecidos às pacientes, inclusive após as etapas mais intensas do tratamento.
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Pesquisa revela impactos do câncer de mama na vida sexual
O levantamento reuniu 774 mulheres com histórico de câncer de mama sem metástase, que recebiam terapia endócrina para reduzir a ação dos hormônios relacionados ao crescimento de determinados tumores.
Entre as participantes, 346 relataram ter mantido relações sexuais nas quatro semanas anteriores à avaliação. Desse grupo, 276 apresentaram algum grau de disfunção sexual, o equivalente a 79,8%.

Os pesquisadores analisaram aspectos como desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor durante as relações.
O estudo também identificou uma associação entre o uso de inibidores da aromatase, medicamentos que reduzem a produção de estrogênio, e uma frequência maior de dificuldades sexuais em comparação com pacientes que utilizavam tamoxifeno.
Os resultados se referem ao grupo específico de mulheres avaliadas e não significam que oito em cada dez pacientes com câncer de mama terão problemas sexuais.
Por que o tratamento pode diminuir o desejo sexual?
As alterações estão relacionadas a fatores físicos, hormonais e emocionais que podem ocorrer durante o enfrentamento da doença.
A quimioterapia pode comprometer temporária ou permanentemente a atividade dos ovários, reduzindo a produção de hormônios importantes para o funcionamento do organismo.
Já a terapia hormonal, utilizada em determinados tipos de câncer de mama, pode bloquear os efeitos do estrogênio ou diminuir sua produção. Dependendo da idade e do tratamento, algumas pacientes apresentam sintomas semelhantes aos da menopausa.
Entre as manifestações possíveis estão ondas de calor, suor noturno, alterações do sono, cansaço, mudanças de humor, secura vaginal e redução da lubrificação.
Esses sintomas podem dificultar a excitação e tornar as relações sexuais desconfortáveis ou dolorosas.
A ginecologista Sandra Cristina Poerner Scalco, integrante da Comissão Nacional Especializada em Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), explica que as alterações hormonais podem ocorrer ao mesmo tempo que mudanças na percepção do próprio corpo, ampliando os impactos sobre a sexualidade.
Cirurgias e reconstrução mamária também podem afetar a intimidade
Além dos efeitos hormonais, as intervenções cirúrgicas podem modificar a relação da mulher com o próprio corpo.
A mastectomia, procedimento de retirada total ou parcial da mama, pode provocar mudanças na aparência e na sensibilidade da região. Mesmo quando há reconstrução mamária, a paciente pode perceber diferenças em relação ao período anterior à cirurgia.
Em algumas situações, ocorre redução ou perda da sensibilidade dos mamilos, o que pode interferir na experiência sexual.
A radioterapia também pode causar alterações nos tecidos e desconfortos físicos, dependendo da área tratada e das características individuais.
Outro aspecto importante é a autoestima. Cicatrizes, mudanças na imagem corporal e insegurança em relação à própria aparência podem afetar a maneira como a mulher se sente durante momentos de intimidade.
Essas experiências variam de pessoa para pessoa. Nem todas as pacientes apresentam as mesmas dificuldades, e algumas conseguem retomar a vida sexual sem alterações significativas.
Dor durante as relações pode criar um ciclo de desconforto
Especialistas alertam que o medo de sentir dor pode levar algumas mulheres a evitar o contato sexual.
A redução da excitação e da lubrificação, por sua vez, pode intensificar o desconforto e aumentar a insegurança diante de novas relações.
Esse processo pode envolver tanto aspectos físicos quanto emocionais, tornando importante uma avaliação individualizada para identificar as causas dos sintomas.
A ginecologista Andrea Pires Souto Damin, integrante da Comissão Nacional Especializada em Mastologia da Febrasgo, destaca que algumas dificuldades podem continuar por anos após o tratamento, exigindo acompanhamento para melhorar a qualidade de vida.
Por que tantas mulheres deixam de falar sobre sexualidade?
Durante o tratamento oncológico, grande parte das consultas se concentra no controle da doença, nos efeitos dos medicamentos e na recuperação física.
Nesse contexto, questões relacionadas à vida sexual podem acabar recebendo menos atenção.
A vergonha de abordar o assunto, o receio de julgamento e a ideia de que a sexualidade seria uma preocupação secundária também podem dificultar a conversa entre pacientes e profissionais de saúde.
No entanto, a saúde sexual integra o bem-estar físico e emocional e deve ser considerada no acompanhamento das mulheres que enfrentam o câncer.
Os especialistas defendem que os próprios profissionais abordem o tema durante as consultas, oferecendo um ambiente acolhedor para que dúvidas e dificuldades sejam discutidas sem constrangimento.
É possível recuperar a vida sexual após o câncer de mama?
Existem alternativas para aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida, mas a escolha depende do histórico médico, do tipo de câncer e das dificuldades apresentadas por cada paciente.
Lubrificantes e hidratantes vaginais não hormonais podem ajudar a reduzir o ressecamento e o desconforto durante as relações.
A fisioterapia do assoalho pélvico pode ser indicada em determinadas situações, especialmente quando há dor ou alterações na musculatura da região.
O acompanhamento psicológico e a terapia sexual também podem contribuir para lidar com mudanças na autoestima, insegurança e dificuldades na intimidade.

Em alguns casos, tratamentos adicionais podem ser considerados, mas devem passar por avaliação conjunta com os profissionais responsáveis pelo acompanhamento oncológico.
O uso de medicamentos hormonais, inclusive produtos de aplicação vaginal, exige cuidado especial em pacientes com histórico de câncer de mama sensível aos hormônios.
As pacientes não devem interromper a terapia contra o câncer ou modificar medicamentos por conta própria.
Brasil deve registrar mais de 78 mil novos casos por ano
De acordo com as estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar aproximadamente 78.610 novos casos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028.
Desconsiderando os tumores de pele não melanoma, a doença é o tipo de câncer mais frequente entre as mulheres brasileiras.
Durante o Outubro Rosa, as campanhas de conscientização reforçam a importância da identificação precoce da doença, do acesso aos exames e do tratamento adequado.
Entretanto, a assistência às pacientes também precisa considerar os efeitos que podem permanecer após o controle do câncer.
O acompanhamento médico, o apoio psicológico e a atenção às dificuldades sexuais fazem parte de uma abordagem mais ampla da saúde feminina.
O cuidado precisa continuar após o tratamento
O encerramento das etapas mais intensas do tratamento não significa necessariamente o desaparecimento de todos os efeitos físicos e emocionais.
Por isso, especialistas recomendam que sintomas como dor durante as relações, ressecamento vaginal persistente e redução do desejo sejam comunicados à equipe médica.
A retomada da intimidade não precisa seguir um prazo único. Cada mulher apresenta necessidades, limitações e condições de recuperação diferentes.
Com acompanhamento adequado, é possível encontrar alternativas para aliviar desconfortos, recuperar a confiança e construir uma vida sexual satisfatória após o câncer de mama.