Quatro espécies de cogumelos até então desconhecidas pela ciência foram identificadas em uma área preservada da Floresta Amazônica, no norte de Mato Grosso. Duas delas chamaram especialmente a atenção dos pesquisadores por apresentarem uma coloração verde intensa, característica considerada incomum entre os fungos do gênero Hygrocybe. A descoberta foi publicada na revista científica Phytotaxa e ainda levanta perguntas sobre as propriedades e possíveis aplicações desses organismos.
Os exemplares foram encontrados nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) Cristalino, entre os municípios de Alta Floresta e Novo Mundo. A pesquisa foi liderada pela bióloga Juli Simon Cardoso, ligada à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Para confirmar que se tratava de espécies inéditas, os cientistas analisaram características físicas, estruturas microscópicas e sequências de DNA dos cogumelos.
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Cogumelos verdes apresentam características surpreendentes
Entre as quatro espécies descritas, a Hygrocybe cristalinoensis se destaca pela coloração verde que se estende da base do pé até o chapéu. O cogumelo também apresenta uma borda esbranquiçada e franjada, característica que ajuda a diferenciá-lo de outros fungos conhecidos.
O nome da espécie faz referência às Reservas Cristalino e ao rio que atravessa a região. O exemplar foi encontrado em 2019, durante uma expedição científica pela chamada Trilha do Francisco.
Outra descoberta é a Hygrocybe viridilacerata, identificada inicialmente em 2018. Também verde, ela possui uma característica particular: conforme amadurece, o centro do chapéu se abre e se rompe, formando uma estrutura semelhante a uma estrela.
A aparência incomum despertou o interesse dos pesquisadores, já que cogumelos desse gênero costumam apresentar cores mais vibrantes, como vermelho, amarelo e laranja.
Outras duas espécies também foram identificadas
Além dos exemplares esverdeados, o estudo descreveu outros dois cogumelos com características próprias.
A Hygrocybe pegleri apresenta um pé alongado, que ultrapassa dez centímetros, e um chapéu com pequenas escamas amarronzadas. O nome foi escolhido em homenagem ao micólogo David N. Pegler, especialista no estudo dos fungos.
Já a Hygrocybe vinaceosquamulosa chama a atenção pelas tonalidades que variam entre o roxo, o vinho e o rosa. A espécie também possui escamas no chapéu e esporos alongados, características importantes para sua identificação científica.
Todos os exemplares pertencem ao mesmo gênero, mas apresentam diferenças suficientes para serem reconhecidos como espécies distintas.
Descoberta começou com fotografias compartilhadas na internet
A pesquisa teve início a partir das observações da parataxonomista alemã Susanne Sourell, que visitava a região do Cristalino anualmente para registrar diferentes espécies de fungos.
Durante suas expedições, ela fotografava cogumelos encontrados na floresta e compartilhava as imagens no grupo Cogumelos do Brasil, no Facebook.
As fotografias despertaram a curiosidade de especialistas, que perceberam características pouco comuns nos exemplares registrados.
A pesquisadora Juli Simon Cardoso, especializada no gênero Hygrocybe, passou a colaborar com Susanne para investigar os cogumelos.
O trabalho envolveu novas análises dos materiais coletados, descrições detalhadas e comparações com espécies já documentadas em outras regiões.
Somente depois dos estudos morfológicos e genéticos foi possível confirmar que os exemplares representavam quatro espécies ainda não descritas oficialmente pela ciência.
Cogumelos podem ser utilizados em medicamentos?
Uma das perguntas que permanecem sem resposta envolve as possíveis propriedades químicas e biológicas dos fungos recém-identificados.
Pesquisadores pretendem aprofundar os estudos para investigar se essas espécies possuem compostos que possam ser utilizados futuramente no desenvolvimento de medicamentos, repelentes ou outras aplicações.
Entretanto, ainda não existem resultados que comprovem essas possibilidades.
Também não há comprovação de que os quatro cogumelos sejam seguros para consumo humano. Por isso, eles não devem ser considerados comestíveis.
A identificação de uma nova espécie representa apenas o início de uma investigação científica que pode levar anos até esclarecer suas características e funções.
Por que a descoberta é importante para a Amazônia?
Além das cores e formas incomuns, os cogumelos reforçam a importância da preservação da região onde foram encontrados.
Duas das quatro espécies, Hygrocybe cristalinoensis e Hygrocybe vinaceosquamulosa, são conhecidas apenas dos locais onde foram registradas. Isso não significa que seja impossível encontrá-las em outras áreas, mas indica que sua distribuição ainda é pouco conhecida.
As Reservas Cristalino estão localizadas em uma região estratégica para a conservação da Amazônia, próxima ao Parque Estadual Cristalino e conectada a outros territórios protegidos.
A preservação dessas áreas é considerada especialmente importante diante das pressões provocadas pelo avanço do desmatamento no sul da floresta.
Os fungos também desempenham funções essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas. Eles participam da decomposição de matéria orgânica, contribuem para a ciclagem de nutrientes e, em diversos casos, estabelecem relações que ajudam as plantas a absorver substâncias do solo.
Apesar dessa importância, estima-se que apenas cerca de 5% das espécies de fungos existentes no planeta tenham sido formalmente descritas pela ciência.
Próximos passos
A descoberta integra o Projeto Fungos do Cristalino, desenvolvido com participação da Fundação Ecológica Cristalino, do Laboratório de Micologia da UFSC e de pesquisadores que estudam a diversidade de fungos amazônicos.
A iniciativa busca ampliar o conhecimento científico sobre os organismos encontrados na região e contribuir para pesquisas nas áreas de biologia, agricultura e saúde.
Os cientistas pretendem continuar investigando as espécies identificadas e suas possíveis propriedades, além de realizar novas expedições para documentar outros fungos ainda desconhecidos.
O trabalho também reforça um desafio para a ciência brasileira: identificar e estudar a biodiversidade da Amazônia antes que a degradação ambiental comprometa espécies que sequer foram descobertas.