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Feito Pipa: o Oscar nunca foi sobre Cinema

Fora das principais apostas para o Globo de Ouro, “Feito Pipa” expõe um problema que vai além da qualidade do cinema brasileiro: a dificuldade de transformar reconhecimento artístico em visibilidade internacional.
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O cinema brasileiro vive um dos momentos mais interessantes de sua história recente. Depois da vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar de 2025 e da indicação de O Agente Secreto em 2026, o país parece finalmente ter conquistado um espaço que durante décadas lhe foi negado nas grandes premiações internacionais. Mas existe uma diferença considerável entre produzir bons filmes e conseguir fazer com que Hollywood preste atenção neles. E Feito Pipa, nosso representante na corrida pelo Oscar de 2027, está descobrindo isso da maneira mais difícil.

Nesta segunda-feira (2), a revista norte-americana Variety divulgou uma atualização de suas previsões para o Globo de Ouro, tradicionalmente acompanhado como um dos indicadores da temporada de premiações. Na relação elaborada pelo jornalista Clayton Davis, Feito Pipa aparece apenas na 16ª posição entre os possíveis concorrentes a Melhor Filme de Língua Não Inglesa. É uma posição pouco animadora para uma produção que chega à disputa carregando prêmios internacionais e a expectativa de manter a presença brasileira no Oscar.

O problema, entretanto, não está necessariamente no filme. Dirigido pelo cearense Allan Deberton, Feito Pipa já conquistou reconhecimento no Festival de Berlim e no Festival de Gramado, além de apresentar uma história profundamente brasileira, mas capaz de dialogar com questões universais. O que falta, ao menos neste momento, é algo que Hollywood costuma valorizar tanto quanto o talento: uma campanha internacional capaz de transformar uma obra em assunto obrigatório entre os votantes.

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O Oscar nunca foi apenas sobre cinema

Existe certa ingenuidade na maneira como costumamos acompanhar a corrida pelo Oscar. A ideia de que os melhores filmes naturalmente encontram seu lugar entre os indicados é bonita, mas ignora uma parte fundamental do funcionamento da indústria cinematográfica americana.

Premiações não acontecem em um laboratório onde obras são avaliadas isoladamente, livres de influências externas. Elas acontecem dentro de um mercado que movimenta milhões de dólares, reúne estúdios poderosos e depende de campanhas publicitárias, sessões especiais, entrevistas, festivais e relacionamentos profissionais.

Não significa que as estatuetas sejam simplesmente compradas ou que os votantes não considerem a qualidade artística. Significa que, antes de um filme ser reconhecido, ele precisa ser visto.

E, para ser visto por quem decide essas premiações, não basta que uma produção tenha conquistado o público em Berlim ou emocionado espectadores no Brasil.

É necessário construir uma presença constante nos Estados Unidos, especialmente em Los Angeles, onde boa parte das articulações da temporada acontece.

Nesse cenário, o cinema independente parte de uma posição muito diferente daquela ocupada por produções distribuídas por empresas como Netflix, Universal e Warner Bros.

O Óscar não premia cinema, mas premia campanha | Foto: Reprodução

Feito Pipa tem qualidade, mas precisa de visibilidade

Feito Pipa acompanha Gugu, um menino criado pela avó Dilma no interior do Ceará. Quando a saúde dela começa a se deteriorar, o garoto tenta esconder a situação para evitar que seja obrigado a morar com o pai.

A história aborda amadurecimento, pertencimento, relações familiares e o medo de perder alguém que representa segurança e afeto.

São temas que ultrapassam fronteiras culturais. Não é preciso conhecer o sertão cearense para compreender o medo de uma criança diante da possibilidade de perder a pessoa que mais ama.

O longa também tem um elemento que considero essencial para qualquer cinema nacional: identidade.

Allan Deberton não parece interessado em transformar o Ceará em uma imitação de Hollywood. Pelo contrário, utiliza as paisagens, os personagens e as experiências do interior nordestino como parte da própria linguagem cinematográfica.

Essa identidade já recebeu reconhecimento. No Festival de Berlim, o filme conquistou o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation Kplus.

No Festival de Gramado, também recebeu quatro Kikitos.

Essas conquistas são importantes, mas não garantem que a produção seja conhecida pelos integrantes da Academia de Hollywood.

E aqui aparece o principal obstáculo enfrentado pelo longa: segundo a reportagem do Notícias da TV, Feito Pipa ainda não conta com uma distribuidora nos Estados Unidos responsável por conduzir uma campanha de divulgação direcionada aos votantes.

É uma desvantagem importante em uma disputa na qual concorrentes contam com estruturas internacionais de promoção.

O desafio de Feito Pipa diante do poder das grandes distribuidoras

Entre os títulos destacados pela Variety está A Bola Preta, produção espanhola que conta com o apoio da Netflix.

A presença de uma distribuidora desse porte não garante indicações, mas oferece vantagens evidentes.

Uma plataforma global consegue organizar exibições, financiar campanhas, ampliar a circulação de entrevistas e manter determinados títulos presentes nas conversas da indústria durante meses.

Enquanto isso, filmes independentes precisam encontrar caminhos alternativos para chegar aos mesmos públicos.

Lázaro Ramos, um dos protagonistas de Feito Pipa, esteve em Los Angeles para divulgar a produção, exibida no domingo (1º) no Festival de Cinema Brasileiro de Los Angeles.

A iniciativa é importante, especialmente pela capacidade de um ator conhecido de atrair atenção para o projeto.

Mas seria injusto esperar que o esforço individual de artistas compensasse sozinho a ausência de uma estrutura internacional de distribuição e divulgação. A questão ultrapassa Feito Pipa.

Se o Brasil deseja transformar sua presença nas premiações em algo recorrente, precisa discutir não apenas como financiar filmes, mas como garantir que eles circulem internacionalmente depois de prontos.

Produzir é um desafio, mas a distribuição é um caminho mais nebuloso.

Feito Pipa é vencedor do Urso de Cristal e do Grande Prêmio do Júri Internacional na seção Generation Kplus do Festival de Berlim. | Foto: Reprodução

O sucesso de Ainda Estou Aqui criou uma expectativa difícil de sustentar

A vitória de Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, representou um marco histórico. Pela primeira vez, o Brasil conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional.

O reconhecimento de Fernanda Torres no Globo de Ouro também ajudou a transformar a produção em um acontecimento cultural que ultrapassou as salas de cinema.

No ano seguinte, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, manteve o país entre os indicados à mesma categoria.

É compreensível que o público brasileiro tenha passado a olhar para cada nova produção escolhida com a expectativa de outra indicação.

Mas existe um risco nessa mudança de perspectiva.

Quando começamos a medir a qualidade do cinema nacional pela quantidade de estatuetas conquistadas em Los Angeles, acabamos aceitando Hollywood como a principal autoridade sobre nossa própria produção cultural.

O cinema brasileiro não começou a ser relevante quando recebeu um Oscar. Tampouco deixará de produzir obras importantes caso Feito Pipa não seja indicado em 2027.

Nossa cinematografia já conquistava reconhecimento internacional muito antes desse momento recente de maior visibilidade.

O prêmio americano pode ampliar mercados, atrair investimentos e apresentar nossos artistas a novos públicos. Mas não deveria funcionar como certificado definitivo de qualidade.

As previsões da Variety realmente significam alguma coisa?

É preciso reconhecer que a posição de Feito Pipa nas previsões da Variety representa um sinal de dificuldade na disputa atual.

Clayton Davis acompanha regularmente a temporada de premiações e possui experiência na análise das campanhas dos estúdios.

Sua lista oferece uma leitura relevante sobre quais produções estão conseguindo atrair atenção neste momento.

Entretanto, ela continua sendo uma previsão editorial, não uma votação oficial ou um levantamento das preferências dos integrantes da Academia.

O Globo de Ouro e o Oscar também possuem corpos votantes e critérios diferentes. Uma produção pode conquistar espaço em uma premiação e ficar de fora de outra.

Por isso, a posição na lista não permite afirmar que Feito Pipa esteja eliminado, assim como suas conquistas em festivais não garantem uma indicação futura.

As nomeações para o Globo de Ouro serão anunciadas em 7 de dezembro, e a cerimônia acontecerá em 10 de janeiro de 2027.

Já o Oscar divulgará seus indicados em 21 de janeiro, com a cerimônia prevista para 14 de março.

Até lá, muita coisa pode mudar na circulação dos filmes e na atenção recebida pelas campanhas. O problema seria tratar uma previsão de novembro como sentença definitiva sobre o futuro de uma obra.

Variety previu a vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro | Foto: Reprodução

O cinema brasileiro precisa de uma estratégia para além das estatuetas

Talvez a discussão mais importante provocada pela situação de Feito Pipa não seja se o filme conseguirá entrar na lista de indicados.

A pergunta deveria ser por que produções brasileiras reconhecidas em festivais internacionais ainda encontram tantas dificuldades para disputar espaço no mercado americano.

Não faltam histórias. Não faltam profissionais talentosos. E os resultados recentes mostram que nossas produções conseguem despertar interesse fora do país.

O que parece faltar é transformar conquistas pontuais em uma estrutura permanente de circulação internacional.

Isso envolve distribuidoras, políticas de incentivo, participação em festivais, formação de redes profissionais e continuidade na divulgação das obras.

Não se trata de exigir que o poder público financie campanhas milionárias em Hollywood ou de imaginar que todo filme brasileiro deva ser produzido pensando no Oscar.

Trata-se de compreender que o investimento em cinema não termina quando as filmagens acabam.

Um país que deseja ampliar a presença de sua cultura no exterior precisa considerar também os caminhos que permitem que suas produções encontrem espectadores.

Feito Pipa não precisa de um Oscar para provar seu valor

A estreia de Feito Pipa nos cinemas brasileiros está marcada para quinta-feira (5).

É curioso perceber que, antes mesmo de boa parte do público nacional ter a oportunidade de assistir ao filme comercialmente, já estamos discutindo se ele conseguirá convencer os votantes de Hollywood.

Talvez essa inversão revele algo sobre a maneira como passamos a consumir nosso próprio cinema.

Nos preocupamos tanto com a possibilidade de reconhecimento internacional que, às vezes, esquecemos de discutir as obras pelo que elas realmente oferecem.

Feito Pipa ainda terá de enfrentar uma campanha internacional competitiva e superar obstáculos de visibilidade para conseguir uma indicação.

Mas seu futuro não deveria ser reduzido ao resultado de uma votação.

O cinema brasileiro conquistou uma oportunidade rara de ampliar sua presença no cenário mundial. Aproveitá-la exige mais do que esperar pela próxima estatueta.

Exige construir condições para que nossos filmes sejam vistos, discutidos e distribuídos, mesmo quando não aparecem entre os favoritos das revistas americanas.

Porque a maior conquista não será fazer o Brasil vencer o Oscar todos os anos. Será chegar ao ponto em que o cinema brasileiro não precise de uma validação de Hollywood para ser reconhecido como grande cinema.

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