Uma descoberta arqueológica na Eslováquia está desafiando o conhecimento sobre os costumes de sociedades que viveram há cerca de 7 mil anos. Pesquisadores identificaram os restos mortais de pelo menos 77 pessoas enterradas sem a cabeça em uma vala que cercava um antigo assentamento agrícola. O mais intrigante é que os crânios não foram encontrados, apesar das buscas realizadas no local.
Os esqueletos pertencem a homens, mulheres e adolescentes que viveram durante o período Neolítico, conhecido pela expansão da agricultura e pela formação de comunidades permanentes. Muitos corpos estavam amontoados, alguns sobrepostos em duas ou três camadas, em uma área aproximadamente do tamanho de uma garagem.
Embora a cena possa sugerir um massacre, os pesquisadores consideram outra possibilidade: a retirada das cabeças poderia fazer parte de rituais funerários praticados pelas comunidades da época. A hipótese ganhou força depois que análises identificaram marcas de corte nos ossos e características que indicam a remoção cuidadosa dos crânios.
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Escavações começaram com quatro esqueletos sem cabeça
O mistério começou em 2017, quando arqueólogos encontraram quatro esqueletos humanos sem crânio em um campo de trigo próximo à cidade de Vráble, a cerca de 100 quilômetros da capital Bratislava.
Os corpos estavam em uma vala em formato de V, construída ao redor de uma antiga comunidade agrícola. Enterrar mortos perto das áreas habitadas era uma prática conhecida naquele período, mas a ausência sistemática de cabeças chamou a atenção dos especialistas.
As escavações continuaram nos anos seguintes. A partir de 2022, novas descobertas revelaram uma concentração muito maior de restos humanos. Em junho de 2026, pesquisadores da Universidade de Kiel, na Alemanha, divulgaram a identificação de pelo menos 77 indivíduos sem cabeça perto de uma das entradas do assentamento.
As investigações também revelaram que a vala se estendia por aproximadamente 1,6 quilômetro. Em escavações posteriores, outras dezenas de corpos foram encontrados, incluindo restos mortais de crianças pequenas acompanhados de objetos dispersos.
Até agora, os cientistas não conseguiram localizar os crânios desaparecidos.
Marcas nos ossos indicam que cabeças foram retiradas com cuidado
Um dos detalhes mais importantes da descoberta está nas marcas identificadas nos ossos. As análises apontam que instrumentos cortantes foram utilizados na separação das cabeças.
A presença de vértebras cervicais em determinadas posições e a ausência quase completa de mandíbulas reforçam a hipótese de que os crânios tenham sido removidos de maneira deliberada.
Os pesquisadores investigam se a retirada ocorreu depois da morte, como parte de uma cerimônia funerária, ou se estava associada a episódios de violência.
A arqueóloga Katharina Fuchs, da Universidade de Kiel, está entre os especialistas envolvidos na análise dos restos mortais. Segundo a equipe, o padrão encontrado não corresponde necessariamente ao cenário de uma execução coletiva.
Isso porque a decapitação, em sociedades antigas, nem sempre estava relacionada a punições ou assassinatos. Em determinados contextos, o tratamento dos restos humanos poderia ter significados religiosos, sociais ou ligados ao culto aos antepassados.
Por que os crânios desapareceram?
A pergunta que mais intriga os cientistas é o destino das cabeças. Mesmo depois de uma busca cuidadosa nas camadas superficiais do solo, os arqueólogos encontraram pouquíssimos fragmentos cranianos.
Uma das hipóteses é que os crânios tenham sido retirados para participar de cerimônias realizadas em outros locais. Outra possibilidade é que fossem preservados como parte de práticas de veneração aos mortos.
Os pesquisadores também analisam se a maneira como os corpos foram enterrados tinha alguma relação com a organização territorial da comunidade.
O assentamento de Vráble era dividido em diferentes áreas residenciais. A vala onde os esqueletos foram encontrados delimitava um desses setores, o que levanta a possibilidade de que os enterros servissem para estabelecer vínculos simbólicos entre os moradores, seus antepassados e o território.
Nenhuma dessas interpretações, entretanto, foi confirmada de maneira definitiva.
Descoberta pode mudar entendimento sobre a Idade da Pedra
O sítio arqueológico de Vráble oferece uma oportunidade de compreender como viviam algumas das primeiras comunidades agrícolas da Europa Central.
As pesquisas identificaram vestígios de mais de 300 construções, distribuídas em três conjuntos de moradias. O local foi ocupado aproximadamente entre 5250 e 4940 antes de Cristo.
A dimensão do assentamento mostra que aquelas populações possuíam uma organização social mais complexa do que pequenos grupos isolados de agricultores.
O arqueólogo Martin Furholt, da Universidade de Kiel, coordenador da pesquisa, defende que os sepultamentos não devem ser interpretados automaticamente como evidência de uma crise violenta.
Segundo os resultados iniciais apresentados pela universidade, existem indícios de que essas práticas funerárias estavam relacionadas à construção de vínculos sociais e à organização das comunidades.
A disposição dos corpos e a ausência de objetos funerários tradicionais também podem revelar diferenças entre os rituais praticados naquele assentamento e os costumes de outras populações neolíticas.
O que os cientistas ainda precisam descobrir?
As próximas etapas da investigação deverão aprofundar os estudos dos ossos e das circunstâncias em que os corpos foram depositados na vala.
Análises de DNA antigo e exames bioarqueológicos podem ajudar a identificar relações de parentesco, origem geográfica, alimentação e possíveis sinais de violência entre os indivíduos.
Outro objetivo é esclarecer se os enterramentos ocorreram em um único episódio ou ao longo de diferentes momentos da história do assentamento.
A descoberta também poderá ajudar os pesquisadores a compreender o significado que os habitantes da Idade da Pedra atribuíam à morte, aos antepassados e à preservação de partes do corpo humano.
Por enquanto, o desaparecimento das cabeças permanece sem explicação definitiva. O que já se sabe é que os esqueletos encontrados em Vráble revelam práticas funerárias muito diferentes das atuais e oferecem novas pistas sobre a vida social de comunidades europeias de 7 mil anos atrás.