Uma decisão estratégica do governo federal promete mexer com o preço dos carros elétricos no Brasil, mas abriu uma verdadeira guerra de bastidores na indústria automotiva nacional. O Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) aprovou, nesta terça-feira (23), a renovação de uma cota que permite a importação de veículos elétricos desmontados e semidemonstados sem o pagamento do Imposto de Importação. O teto para as compras sem taxas foi fixado em US$ 463 milhões por um período de seis meses, valendo a partir de 1º de julho de 2026.
A medida atende diretamente a pedidos de novas montadoras chinesas, como a BYD e a Geely, que estão instalando fábricas no país e importam as peças para finalizar a montagem em solo brasileiro. Por outro lado, a resolução caiu como uma bomba entre as montadoras tradicionais já consolidadas no Brasil. Gigantes como Volkswagen, Stellantis, General Motors (GM) e Toyota acusam a medida de gerar concorrência desleal e ameaçar os empregos locais.
O que mudou nas regras de importação?
Pela nova determinação, os chamados veículos CKD (completamente desmontados) e SKD (semidesmontados) vindos do exterior estarão isentos de taxas aduaneiras até que o limite financeiro de US$ 463 milhões estipulado pelo governo seja atingido. O patamar liberado é idêntico ao que vigorou no país até janeiro deste ano. Para as importações que ultrapassarem essa cota, voltam a ser aplicadas as alíquotas normais de recolhimento: 35% de imposto para os semidesmontados (SKD) e 14% para os totalmente desmontados (CKD).
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços defendeu a medida publicamente. Segundo as autoridades, a iniciativa converge com as metas do governo voltadas à renovação da frota nacional, ao fortalecimento da inovação e à descarbonização do ecossistema automotivo brasileiro. O foco é colocar nas ruas veículos mais sustentáveis que contribuam para a redução das emissões de gás carbônico (CO2). Vale destacar que a importação de carros 100% montados no exterior não terá direito a nenhum tipo de cota ou isenção, seguindo o cronograma de elevação tarifária que atingirá a alíquota cheia de 35% a partir de janeiro de 2027.
Por que o caso gerou ruído e revolta nas montadoras nacionais?
A reação das montadoras tradicionais contra a isenção foi imediata e severa. Em nota oficial, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) lamentou profundamente a decisão e afirmou que a medida é intempestiva e contrária aos interesses dos trabalhadores, das fabricantes nacionais e das empresas brasileiras de autopeças. A associação argumentou que as cotas de transição para esses kits haviam terminado definitivamente em fevereiro de 2026 após longos debates, e que prolongar o benefício agora quebra as regras do jogo e gera forte insegurança jurídica.
Em uma carta conjunta endereçada diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os presidentes da Volkswagen, Stellantis, GM e Toyota uniram forças para pressionar o Planalto. No documento, classificado nos bastidores como um manifesto de sobrevivência da indústria tradicional, os executivos afirmaram que permitir a entrada de peças sem imposto afeta diretamente a demanda por autopeças nacionais e mude a curva de emprego no país.
“Por uma questão de isonomia e busca de competitividade, essa prática deletéria pode disseminar-se em toda a indústria. Seria uma forte involução, que em nada contribuiria para o nível tecnológico de nossa indústria, para a inovação ou para a engenharia nacional. Representaria, na verdade, um legado de desemprego, desequilíbrio da balança comercial e dependência tecnológica”, dizia um dos trechos da carta assinada pelas quatro fabricantes.
O que dizem as fabricantes chinesas e qual a justificativa?
Alvo principal das críticas, a gigante chinesa BYD — que lidera as vendas de carros eletrificados no país e está reconstruindo um polo industrial na Bahia — respondeu aos ataques também por meio de uma carta aberta. A empresa rebateu as acusações sugerindo que a real preocupação das marcas tradicionais não é com o emprego do trabalhador, mas sim com a perda da posição dominante que possuem no mercado brasileiro há décadas, por não conseguirem competir com os preços competitivos e a tecnologia das novas marcas.
“A reação da Anfavea e seus associados, infelizmente, não é novidade. Trata-se do velho roteiro de sempre: diante de qualquer sinal de abertura de mercado ou inovação, surgem as ameaças de demissões em massa, fechamento de fábricas e o fim do mundo como conhecemos”, alfinetou a BYD em comunicado.
A defesa das novas marcas se apoia no argumento de que os benefícios tributários para peças desmontadas cumprem um papel fundamental e legítimo nas fases iniciais de implantação de suas fábricas no Brasil. Segundo os defensores da medida, a isenção temporária garante que os preços dos carros elétricos não sofram aumentos abruptos para o consumidor final das classes C e D enquanto as linhas de montagem nacionais não ficam 100% prontas.
Qual o impacto econômico e o que acontece agora?
O cenário econômico que envolve o debate é bilionário. De acordo com os dados apresentados pelo setor produtivo, a indústria automotiva respondeu aos estímulos de descarbonização anunciando R$ 140 bilhões em investimentos no Brasil até o ano de 2033. Além disso, a produção local vinha dando sinais de forte aceleração: em 2025, os veículos eletrificados montados em solo nacional responderam por 25,9% das vendas do segmento, e o mercado atendido por fábricas locais cresceu 57% no acumulado até maio de 2026.
Com a publicação da nova resolução valendo para o próximo semestre, os próximos passos serão de monitoramento intenso do mercado. As montadoras tradicionais prometem continuar fazendo pressão política em Brasília para evitar novas prorrogações após o término do prazo em dezembro. Do lado do consumidor, a expectativa é de estabilidade ou até leve redução nos preços das versões de entrada dos carros elétricos e híbridos nas concessionárias nas próximas semanas, aproveitando o fôlego financeiro das cotas sem imposto.
Entenda o Contexto
O modelo de importação por kits desmontados (CKD e SKD) historicamente serve como um meio-termo para atrair indústrias estrangeiras, permitindo que elas comecem a operar no país antes de nacionalizarem todos os componentes. O atual embate no Brasil não gira em torno de aceitar ou rejeitar a transição energética para carros elétricos, que já é vista por todos como um caminho sem volta. A grande disputa política e econômica está em definir qual modelo de desenvolvimento o país vai adotar: se continuará abrindo as fronteiras para acelerar o acesso a tecnologias externas baratas ou se fechará o mercado para proteger o parque industrial de fornecedores e montadoras instalado há mais de meio século em solo nacional.