O deputado federal licenciado Josimar Maranhãozinho (PL-MA) volta ao centro de uma operação da Polícia Federal nesta quinta-feira (25/06/2026), suspeito de comandar um esquema de desvio de emendas do orçamento secreto. A Operação Afluente cumpre 18 mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao parlamentar no Maranhão, em Goiás e no Distrito Federal.
As investigações apontam que o grupo do deputado cobra propina de até 25% sobre recursos destinados a prefeituras, sobretudo para áreas como saúde, e usa empresas das quais ele é sócio para movimentar o dinheiro.
Do Maranhão ao centro do orçamento secreto
Josimar Cunha Rodrigues, conhecido como Josimar de Maranhãozinho, constrói sua carreira política a partir de pequenos municípios do interior. Prefeito de Maranhãozinho por dois mandatos, depois deputado estadual e, desde 2019, deputado federal pelo PL, ele consolida um dos maiores currais eleitorais do estado.
O poder de distribuição de verbas federais, especialmente via emendas parlamentares, amplia sua influência sobre prefeitos maranhenses. Aos poucos, o deputado se torna referência em articulação de recursos em Brasília, inclusive por meio das emendas de relator, mecanismo conhecido como orçamento secreto, que movimenta bilhões de reais sem transparência sobre os padrinhos das verbas.
Esse caminho leva Josimar ao núcleo das investigações sobre o uso político das emendas. Em março de 2026, o Supremo Tribunal Federal condena o parlamentar por corrupção passiva, ao entender que ele cobra R$ 1,6 milhão em propina para liberar R$ 6,6 milhões em emendas para a saúde de São José do Ribamar, na região metropolitana de São Luís.
Condenação no STF e papel no esquema
No julgamento de março, o STF acolhe a denúncia da Procuradoria-Geral da República, que descreve Josimar como articulador da destinação de emendas a prefeituras e cobrador direto da propina.
O ministro Cristiano Zanin, relator do caso, afirma no voto que “contra os três parlamentares, há robustas provas orais e documentais, produzidas ao longo da instrução criminal e da instrução processual, indicando que teriam atuado em concertação ilícita para solicitar ao prefeito José Eudes o pagamento de vantagem indevida”.
Além de Josimar, são condenados o deputado Pastor Gil (PL-MA), o suplente Bosco Costa (PL-SE) e outros réus. A PGR sustenta que o grupo controla planilhas de pagamentos, monitora a liberação dos recursos e aciona prefeitos quando o dinheiro das emendas cai na conta das prefeituras.
Com a condenação, Josimar se licencia do mandato na Câmara, mas mantém influência política no PL do Maranhão e segue com estrutura de aliados em cidades estratégicas. O julgamento não interrompe, porém, o fluxo das investigações sobre o uso das emendas do antigo orçamento secreto.
Operação Afluente e a rota do dinheiro
A Operação Afluente, autorizada pelo ministro do STF Flávio Dino, aprofunda essa trilha. A PF mira agora o caminho percorrido pelo dinheiro das emendas até empresas ligadas ao grupo político do deputado.
Em nota, a corporação afirma que a Afluente tem “objetivo de aprofundar investigação que apura a suposta atuação de organização criminosa em crimes de corrupção, de desvio de recursos públicos e de lavagem de dinheiro”.
Os investigadores apontam uma estrutura formada por agentes públicos e empresários, que usa a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) como intermediária. Recursos de emendas são destinados a obras e serviços tocados por empresas contratadas via Codevasf, parte delas ligadas direta ou indiretamente a Josimar e aliados.
Uma dessas empresas tem o deputado como sócio, o que leva a PF a cumprir mandados em endereços ligados a ele. Durante as buscas, policiais apreendem grandes quantias em dinheiro vivo. Até agora, não há confirmação de que parte desses valores pertença ao parlamentar.
A PF diz que “os investigados poderão responder, na medida de suas participações e caso os fatos sejam confirmados no curso das investigações, pelos crimes de corrupção passiva, peculato, corrupção ativa, lavagem de capitais e organização criminosa”.
A Codevasf tenta se afastar do escândalo. Em comunicado, a estatal afirma que “repudia todo e qualquer desvio na administração pública e que provê suporte integral ao trabalho das autoridades policiais e da Justiça”.
Impacto nas cidades e no tabuleiro político
O esquema atinge diretamente a ponta do serviço público. A cobrança de 25% de propina significa, na prática, que a cada R$ 1 milhão enviado a uma prefeitura, R$ 250 mil deixam de virar obra, remédio ou equipamento.
No caso de São José do Ribamar, a acusação que resultou na condenação de março mostra o efeito concreto: de R$ 6,6 milhões destinados à saúde, R$ 1,6 milhão é cobrado como propina. Em cidades com orçamento apertado, esse tipo de corte compromete a compra de ambulâncias, a manutenção de hospitais e a oferta de exames básicos.
A investigação também lança nova luz sobre a lógica do orçamento secreto, julgado inconstitucional pelo STF em dezembro de 2022. Mesmo após a decisão, bilhões de reais seguem sendo pagos como restos a pagar, ainda sob a sombra da falta de transparência na origem das indicações.
No campo político, a ofensiva contra Josimar desgasta o PL no Maranhão, onde ele é um dos principais cabos eleitorais do partido. A sucessão municipal e as articulações para 2026 passam a ocorrer sob pressão crescente por explicações sobre o uso das emendas.
O caso ainda reforça o protagonismo do STF no controle do sistema de emendas e dá a Flávio Dino, recém-chegado à Corte, papel central em investigações que atingem diretamente o grupo bolsonarista, ao qual o PL está ligado.
O que vem a seguir para Maranhãozinho
Os próximos passos dependem do avanço da análise do material apreendido, que inclui planilhas, contratos e registros de pagamentos. Caso os indícios de lavagem de dinheiro e desvio de recursos se confirmem, o deputado pode enfrentar nova ação penal no STF, somando-se à condenação já imposta em março.
A Câmara dos Deputados ainda terá de decidir sobre o futuro político de Josimar, inclusive quanto à perda de mandato, o que tende a acirrar o debate interno no PL e no Congresso sobre a blindagem de parlamentares investigados.
No plano institucional, a Operação Afluente tende a alimentar a discussão sobre uma reforma profunda no sistema de emendas, com mais transparência sobre quem indica, quanto destina e para onde vai cada real. Para as prefeituras que dependem desses recursos, o desfecho do caso dirá se a lógica de troca de favores sobrevive ou se abre espaço para um modelo menos opaco de financiamento de políticas públicas.
Quem é Josimar Maranhãozinho?
Josimar Cunha Rodrigues é político do PL, ex-prefeito de Maranhãozinho, ex-deputado estadual e deputado federal licenciado. Construiu influência distribuindo emendas a prefeituras maranhenses.
Por que ele foi condenado pelo STF em março?
O STF entendeu que ele cobrou R$ 1,6 milhão em propina para liberar R$ 6,6 milhões em emendas da saúde para São José do Ribamar, em esquema com outros parlamentares.
Qual o papel da Codevasf no caso?
Segundo a PF, a Codevasf é usada como intermediária: recebe verbas de emendas e contrata empresas ligadas ao grupo investigado. A estatal nega envolvimento e diz apoiar as investigações.
O que é o chamado orçamento secreto?
É o apelido das emendas de relator, que permitiam distribuir recursos sem identificar os autores das indicações. O STF considerou o modelo inconstitucional em 2022 por falta de transparência.