As falhas de San Andreas e San Jacinto, no sul da Califórnia, atingiram o maior nível de tensão em mil anos, segundo novo estudo. A pesquisa aponta risco elevado de um megaterremoto que pode atingir milhões de pessoas em áreas densamente povoadas, como Los Angeles, San Bernardino, Riverside e o Vale de Coachella.
Modelo vê sistema “criticamente estressado”
O trabalho, publicado na revista Journal of Geophysical Research: Solid Earth, é liderado pela geofísica Liliane Burkhard, da Universidade de Berna, em parceria com a Universidade do Havaí em Mānoa e o Serviço Geológico dos EUA (USGS). Usando supercomputadores e um modelo 3D de física das rochas, a equipe reconstrói mil anos de história sísmica da região.
Os pesquisadores alimentam o modelo com dados de deslocamento das placas tectônicas do Pacífico e da América do Norte, registros geológicos de sedimentos deslocados e marcas em anéis de crescimento de árvores. A partir daí, simulam como a tensão se acumula e é liberada ao longo do tempo no sistema de falhas.
O resultado é um mapa de energia represada ao longo da falha de San Andreas, com 1.300 quilômetros de extensão, e de seu sistema vizinho, San Jacinto. Em um trecho da San Jacinto, a tensão chega a 3,6 megapascais, o maior valor de toda a reconstrução. Em parte da San Andreas, atinge 2,8 megapascais, também acima dos picos anteriores.
Em nota, os autores classificam o sistema como “criticamente estressado” e escrevem: “O sistema está criticamente estressado. A energia acumulada no Cajon Pass atingiu um limite físico onde uma ruptura em uma das falhas pode facilmente saltar para a outra, desencadeando um efeito cascata catastrófico”.
Cajon Pass vira “portão” para megaterremoto
O foco principal recai sobre o Cajon Pass, corredor montanhoso a menos de 100 quilômetros a nordeste do centro de Los Angeles. É ali que a porção sul da San Andreas e a porção norte da San Jacinto se aproximam e quase se tocam. Historicamente, esse trecho funciona ora como barreira, ora como ponte para rupturas sísmicas.
No terremoto de Fort Tejon, em 1857, de magnitude 7,9, o rompimento na San Andreas parece parar ao chegar ao Cajon Pass. Em 1812, no evento conhecido como terremoto de Wrightwood, com magnitude estimada em cerca de 7,5, evidências geológicas sugerem o contrário: a ruptura teria atravessado a região e envolvido as duas falhas.
Agora, o modelo indica que os níveis de tensão nos dois lados do Cajon Pass estão mais próximos entre si do que em qualquer outro momento dos últimos mil anos. “Nossos modelos indicam que os níveis atuais de tensão em segmentos importantes dos dois lados estão ficando mais semelhantes. Isso pode facilitar a continuação de um rompimento que chegue ao Cajon Pass”, afirma Burkhard.
Na prática, isso significa que uma ruptura iniciada em um dos sistemas teria mais chance de “pular” para o outro, ampliando o comprimento total do rompimento. Segundo o estudo, um cenário desse tipo poderia gerar um terremoto com magnitude superior a 7,5 na escala Richter, afetando uma área muito maior do que um tremor limitado a um único segmento.
Risco elevado, mas sem contagem regressiva
Burkhard insiste que a pesquisa não funciona como previsão com data marcada. “Isso não significa que as falhas precisam se romper imediatamente ou em breve, e não nos dá uma data, um ano ou uma contagem regressiva para o próximo terremoto”, diz a geofísica.
As placas do Pacífico e da América do Norte se deslocam alguns centímetros por ano. Em alguns trechos, a fricção entre as rochas trava o movimento e acumula deformação por décadas ou séculos. Quando a resistência é superada, ocorre o terremoto, liberando parte da energia. O intervalo médio entre grandes tremores no segmento sul da San Andreas fica entre 150 e 200 anos.
O último grande evento na região, o terremoto de Fort Tejon, ocorre em 1857. Desde então, quase 170 anos se passam sem que um rompimento de magnitude semelhante alivie a tensão acumulada. O estudo aponta que essa combinação de atraso histórico e níveis recordes de tensão coloca o sistema em uma condição inédita em um milênio.
Os autores destacam, porém, que mesmo um sistema “criticamente carregado” pode permanecer anos ou décadas sem um grande terremoto. O que o trabalho faz é delimitar o tamanho do problema físico que as autoridades precisam considerar no planejamento.
Impacto direto em milhões de pessoas
A região analisada é uma das mais urbanizadas dos Estados Unidos. Los Angeles, segunda maior cidade do país, San Bernardino, Riverside e o Vale de Coachella concentram milhões de moradores, extensas áreas industriais e redes vitais de infraestrutura.
Oleodutos, gasodutos, linhas de transmissão, redes de água, rodovias interestaduais e ferrovias cruzam ou tangenciam as falhas. Um megaterremoto envolvendo simultaneamente San Andreas e San Jacinto teria potencial para interromper por dias ou semanas o fornecimento de água e energia, bloquear estradas e causar danos sérios a hospitais, escolas e habitações.
Setores como comércio, indústria, logística e turismo no sul da Califórnia sentiriam o impacto em cadeia. A interrupção de rotas de carga que ligam o porto de Los Angeles ao interior dos Estados Unidos, por exemplo, poderia ter reflexos nacionais. A extensão dos danos dependeria de fatores como horário do tremor, profundidade, distância dos centros urbanos e qualidade das construções.
Ao mesmo tempo, o estudo representa um avanço científico relevante. As simulações oferecem um retrato mais detalhado da tensão acumulada e podem ser usadas para aprimorar mapas de risco, normas de construção e estratégias de resposta rápida.
Pressão por preparação e alerta precoce
Os autores defendem que os resultados sejam incorporados com urgência aos planos de contingência da Califórnia. A recomendação é que autoridades locais e estaduais considerem explicitamente a hipótese de um terremoto que envolva tanto a San Andreas quanto a San Jacinto, especialmente na região do Cajon Pass.
Isso implica revisar códigos de obras, reforçar estruturas críticas e acelerar obras de adaptação em pontes, viadutos, adutoras e redes de energia. Também significa ampliar campanhas educativas para que moradores saibam como agir nos segundos decisivos de um tremor forte.
O trabalho destaca a importância de sistemas de alerta precoce como o ShakeAlert, mantido por agências públicas norte-americanas. Esses sistemas usam sensores distribuídos por diversos pontos da costa oeste para detectar o início de um terremoto e enviar avisos automáticos para celulares, rádios e sirenes. O ganho costuma ser de segundos a dezenas de segundos, tempo suficiente para se abrigar, parar trens, desacelerar aviões em aproximação e interromper cirurgias delicadas.
Burkhard resume a mensagem central do estudo: a ciência não aponta quando o próximo grande terremoto vai acontecer, mas mostra que as condições físicas para um evento de grande porte já estão dadas. “Nossos resultados não são um motivo para pânico imediato. São um chamado para preparação séria e de longo prazo”, afirma.
Nos próximos anos, a tendência é que o USGS e universidades ampliem o monitoramento sísmico e a coleta de dados geológicos na região de Cajon Pass, testem novos cenários em supercomputadores e atualizem periodicamente as estimativas de risco. Enquanto isso, a Califórnia convive com um paradoxo: nunca se soube tanto sobre o perigo que corre e, ainda assim, o momento exato do próximo grande abalo continua sendo uma das grandes incógnitas da geofísica moderna.
O estudo prevê quando será o próximo grande terremoto?
Não. O modelo indica que o sistema está em seu maior nível de tensão em mil anos, mas não oferece data, ano ou contagem regressiva para o próximo tremor.
Qual a magnitude esperada em um cenário de rompimento conjunto?
Os pesquisadores trabalham com um cenário de megaterremoto com magnitude potencial superior a 7,5, caso a ruptura envolva simultaneamente trechos de San Andreas e San Jacinto.
Que áreas seriam mais afetadas por um grande terremoto nessa região?
Los Angeles, San Bernardino, Riverside e o Vale de Coachella, além de corredores de infraestrutura como rodovias, redes de água, energia, oleodutos e gasodutos no sul da Califórnia.
O que muda na prática para moradores e autoridades da Califórnia?
A pesquisa reforça a urgência de fortalecer prédios e infraestrutura, revisar planos de emergência, testar simulados e ampliar o uso de sistemas de alerta precoce como o ShakeAlert.