CBV afasta fisio e acusa calote de R$ 17,5 mi do GDF

Seleção feminina enfrenta ausência de fisioterapeuta e CBV denuncia dívida milionária do GDF em eventos esportivos.
Redação NC News
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A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) afasta, em junho de 2026, o fisioterapeuta Fernando Fernandes da delegação da seleção feminina que disputa a Liga das Nações na Turquia. No mesmo dia, denuncia publicamente um calote de R$ 17,5 milhões do Governo do Distrito Federal (GDF), relativo à realização de etapas da competição e do Circuito Mundial de Vôlei de Praia em Brasília.

Crise interna às vésperas da viagem

A seleção brasileira de voleibol feminino embarca para a segunda etapa da Liga das Nações, que começa em 17 de junho de 2026, em meio a turbulências fora da quadra. A principal baixa não é de uma jogadora, mas de um integrante da comissão técnica.

Fernando Fernandes, conhecido no meio como Fernandinho, deixa a delegação após denúncias de que teria acumulado dívidas com atletas que passaram pela seleção. Um dos casos envolve um valor de cerca de R$ 200 mil que não teria sido devolvido a uma jogadora.

A decisão é tomada em reunião entre o fisioterapeuta, a comissão técnica e lideranças do elenco. O encontro ocorre já com a logística da viagem definida e o foco voltado para a campanha na Liga das Nações.

Em nota, a CBV evita mencionar as acusações e atribui o corte a motivos privados. “O fisioterapeuta Fernando Fernandes, da seleção feminina, não vai viajar para etapa da Turquia da Liga das Nações para resolver questões pessoais. O profissional continua como parte da comissão técnica. A fisioterapeuta Bruna Melato foi convocada e vai integrar a delegação brasileira na etapa turca da competição”, informa a entidade.

O afastamento muda a rotina de uma equipe acostumada ao trabalho de longo prazo com o mesmo corpo médico. A entrada de Bruna Melato às vésperas da competição exige adaptação rápida das jogadoras na preparação física, nos protocolos de prevenção de lesões e na recuperação pós-jogo.

Fernando Fernandes também atua no Barueri e já trabalhou com nomes fora do vôlei, como a tenista Bia Haddad. Procurado, não responde até a publicação desta reportagem.

Calote de R$ 17,5 milhões em Brasília

Enquanto tenta conter danos no vestiário, a Confederação encara um rombo milionário nas contas. Em nota divulgada em 17 de junho, a CBV acusa o GDF de não repassar R$ 17.500.000,00 prometidos para a realização de três eventos em Brasília entre abril e junho.

O pacote inclui a etapa brasileira da Liga das Nações masculina e feminina, disputada de 3 a 14 de junho de 2026, e a etapa do Circuito Mundial de Vôlei de Praia, sediada na capital entre 29 de abril e 3 de maio de 2026. Segundo a entidade, R$ 11.000.000,00 seriam destinados à Liga das Nações e R$ 5.985.023,73 ao vôlei de praia.

A CBV afirma que as negociações começam em agosto de 2025 e ganham respaldo oficial em 22 de outubro de 2025, com o Ofício nº 870/2025 da Secretaria de Estado de Esporte e Lazer do DF, que ratifica o compromisso financeiro. No caso do vôlei de praia, cita ainda o termo de fomento Nº TF-21-SEL/2026, assinado pela própria Secretaria.

“O evento já aconteceu há mais de 40 dias e a CBV vem sendo cobrada diariamente por fornecedores que prestaram serviços nas competições de vôlei de praia. Com o termo de fomento assinado, a CBV depende dessa verba para o pagamento dos fornecedores”, diz a nota.

O dinheiro, segundo a Confederação, não poderia ser substituído por outras fontes. A entidade relata pressão de empresas nacionais e internacionais responsáveis por montagem de arenas, hospedagem, transporte e serviços de operação, todas contratadas ainda no fim de 2025.

Ofício em cima da hora e versões conflitantes

O ponto de ruptura ocorre em 11 de maio de 2026, quando a Secretaria de Esporte e Lazer envia o Ofício nº 309/2026 informando que não poderá formalizar o apoio financeiro para a etapa da Liga das Nações. A comunicação chega a apenas 23 dias do início dos jogos e 13 dias do início da montagem da estrutura em Brasília.

“Recebemos a comunicação quando toda a operação da competição internacional já se encontrava avançada, incluindo contratos já celebrados e outros em fase final de formalização, obrigações assumidas perante fornecedores nacionais e internacionais, compromissos firmados junto à Federação Internacional de Voleibol (FIVB) e com a Volley World (VW), planejamento logístico consolidado, comercialização de ingressos, reservas de hospedagem, aquisição de passagens aéreas por torcedores e delegações, além de toda a mobilização turística, esportiva e institucional vinculada ao evento”, afirma a CBV.

A Secretaria de Esporte e Lazer do DF apresenta outra leitura. Em resposta pública, a pasta sustenta que não houve contrato formal para a Liga das Nações e que o aviso de impossibilidade de firmar a parceria foi dado com antecedência suficiente, por razões legais e orçamentárias.

“Em razão das medidas de contingenciamento adotadas pelo Governo do Distrito Federal, que determinaram a revisão de despesas em toda a administração pública, não foi possível formalizar o instrumento jurídico necessário para a transferência dos recursos. A CBV foi oficialmente comunicada, antes da realização do evento, sobre a impossibilidade de celebração do termo de fomento, tendo ciência de que não haveria formalização da parceria nem autorização legal para o repasse dos recursos públicos”, afirma a Secretaria.

No caso do Circuito Mundial de Vôlei de Praia, o governo local alega que a responsabilidade pelo repasse caberia à Secretaria de Economia, sem detalhar prazos ou valores executados.

CBV paga a conta para evitar sanções

Com ingressos vendidos, hotéis reservados e delegações estrangeiras com passagens emitidas, a CBV decide bancar a etapa brasileira da Liga das Nações mesmo sem o repasse público prometido. A avaliação interna é de que um cancelamento às vésperas poderia custar caro à imagem do vôlei brasileiro.

A entidade lembra o histórico de parcerias com o GDF em grandes eventos, como a própria Liga das Nações em 2022 e etapas do Circuito Brasileiro e do Circuito Mundial de vôlei de praia em 2024 e 2025, sempre com compromissos cumpridos em moldes semelhantes.

Desta vez, porém, calcula que o impacto financeiro é “severo” e alerta para riscos esportivos. Em nota, a CBV afirma que a não realização da etapa poderia, em “última instância”, até afastar o Brasil dos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028, por descumprimento de obrigações contratuais com a FIVB e a Volley World.

Ao manter os jogos em Brasília, a Confederação tenta preservar a credibilidade junto às federações internacionais, patrocinadores e torcedores. Ao mesmo tempo, acumula dívidas com fornecedores que, passados mais de 40 dias da conclusão do vôlei de praia, seguem sem receber.

O episódio expõe fragilidades na relação entre a Confederação Brasileira de Voleibol e o poder público local em um momento delicado para a modalidade. A seleção brasileira de voleibol feminino, que busca manter protagonismo no cenário internacional, convive com um vestiário sob suspeita e uma entidade pressionada por credores.

Quem perde no curto e no longo prazo

A conta imediata recai sobre a cadeia de serviços que sustenta grandes competições. Empresas de montagem, fornecedores de tecnologia, hotéis, transportadoras e trabalhadores terceirizados aguardam o dinheiro que depende do termo de fomento não executado.

Na quadra, jogadoras e integrantes da seleção feminina de vôlei convivem com a saída repentina de um profissional da confiança de parte do grupo, substituído por uma nova fisioterapeuta em plena competição.

Em Brasília, o GDF tenta se equilibrar entre o discurso de responsabilidade fiscal e as críticas de quebra de compromisso com um dos esportes de maior visibilidade do país, tanto no voleibol feminino quanto no voleibol masculino. O desgaste político atinge também a Secretaria de Esporte e Lazer, responsável pelas tratativas técnicas com a CBV.

No médio prazo, o impasse ameaça futuras parcerias da Confederação com entes públicos e pode encarecer novos acordos, diante da maior exigência de garantias de fornecedores e parceiros. A situação também pressiona a CBV a demonstrar transparência em seus contratos, estatutos e regras internas, em um momento em que o esporte nacional é cobrado por governança mais rígida.

A entidade não descarta buscar a Justiça para tentar receber os R$ 17,5 milhões ou parte deles. Internamente, a prioridade é renegociar prazos com credores e evitar que o abalo financeiro interfira na preparação para compromissos futuros, entre eles o ciclo que leva aos Jogos de 2028.

A seleção brasileira de voleibol feminino inicia a etapa turca sob o peso de duas crises que se cruzam: a moral, com a suspeita sobre um membro da comissão, e a financeira, com a principal organizadora da modalidade no país lutando para pagar a conta de eventos já realizados. A resposta em quadra e nas mesas de negociação vai definir se o episódio ficará restrito a um tropeço de temporada ou se marcará um ponto de inflexão na relação entre esporte de alto rendimento e financiamento público no Brasil.

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