O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-Myung, reage com rara dureza à eliminação precoce da seleção no Mundial de Seleções de 2026 e, desde 28 de junho, cobra uma investigação oficial sobre o fracasso. Ele responsabiliza diretamente o técnico Hong Myung-Bo e questiona a forma como a federação do país escolhe seus treinadores.
Crise política após derrota em Houston
A queda sul-coreana se confirma em 24 de junho, em Houston, nos Estados Unidos, com derrota para a África do Sul na fase de grupos. A seleção fecha sua participação com apenas 3 pontos, em terceiro lugar no Grupo A, após vitória sobre a República Tcheca e derrotas para México e África do Sul, e não avança ao mata-mata.
O resultado, abaixo das expectativas esportivas e políticas, transforma um tropeço de campo em crise de governo. Nas redes sociais, principalmente na plataforma X, Lee afirma sentir “não apenas confusão, mas também perplexidade” com a campanha. A partir desse desconforto público, o fracasso passa a ser tratado como assunto de Estado, com impacto direto sobre a gestão esportiva e o uso de recursos públicos.
Presidente fala em escolha “incompetente”
Lee mira o técnico Hong Myung-Bo e, por tabela, a Federação Sul-Coreana de Futebol (KFA), responsável pela nomeação em 2024. No texto mais duro, o presidente associa o desempenho ruim ao que chama de favoritismo e descuido na escolha do comando da equipe.
“No fim das contas, o ditado ‘a escolha das pessoas é o princípio de todas as coisas’ foi provado mais uma vez. Se se valoriza mais os aliados do que a competência e se seleciona uma pessoa incompetente como comandante, o resultado é óbvio”, escreve Lee. Em outro trecho, ele insiste: “Não estou apenas surpreso com esse resultado inesperado, estou completamente perplexo”.
Hong não é um nome qualquer no futebol asiático. Ex-zagueiro, ídolo nacional e um dos jogadores mais respeitados da história sul-coreana, ele já havia dirigido a seleção em 2013. O retorno ao cargo, em 2024, surge cercado de desconfiança. A imprensa local aponta a falta de transparência no processo de escolha, e o Ministério dos Esportes chega a pedir revisão da decisão da KFA, alegando possível violação de regras internas. A federação mantém o nome, e o desgaste se arrasta até o Mundial.
Dinheiro público no centro do debate
A eliminação em Houston reabre uma discussão antiga na Coreia do Sul: até que ponto o futebol de elite pode justificar o nível de investimento estatal que recebe. Lee faz questão de vincular o mau resultado à responsabilidade sobre o dinheiro do contribuinte.
“Dado que uma grande quantidade de impostos dos cidadãos são investidos na participação no Mundial de Seleções, peço que o ministério cuide meticulosamente da situação exata deste incidente, com uma análise das causas e medidas para prevenção de recorrência e melhorias”, afirma o presidente.
Ele amplia o alvo ao falar em “problemas de organização e gestão” e relaciona o fiasco a falhas estruturais de governança. “O fracasso em se classificar deixou a população desanimada e parece ser resultado de problemas de organização e gestão”, escreve. Em outro trecho, associa o caso à ausência de controle efetivo sobre quem decide: “O fato de uma escolha descuidada que não distingue o público do privado e prioriza o interesse pessoal sobre o interesse público se deve à impossibilidade ou dificuldade de monitorar, fiscalizar e responsabilizar os detentores do poder de nomeação”.
Pressão sobre técnico e federação
Enquanto o presidente cobra mudanças, a pressão popular e midiática se intensifica. Uma petição on-line por alterações no comando da seleção ganha milhares de assinaturas em poucos dias. Programas esportivos apontam erros de escalação, gestão de elenco e preparação física. Nas redes, torcedores pedem a saída de Hong e questionam a credibilidade da KFA.
O clima fica ainda mais tenso quando a emissora pública KBS exibe reportagem sobre o desempenho ruim da equipe e borra o rosto do treinador nas imagens. O gesto, interpretado como censura visual simbólica, expõe o grau de desgaste do técnico e da própria federação. Internamente, dirigentes passam a ser cobrados por conselheiros e patrocinadores sobre o processo de escolha e a ausência de critérios claros de meritocracia.
O Ministério da Cultura, Esportes e Turismo, alvo direto do pedido presidencial, precisa agora abrir uma apuração detalhada. A tarefa envolve examinar a nomeação de Hong em 2024, reconstituir decisões técnicas na preparação para o Mundial e avaliar contratos e fluxos de financiamento à seleção. Esse movimento promete consumir tempo, energia política e recursos administrativos em um governo que tenta equilibrar pauta esportiva, economia e disputas internas.
Reformas à vista no futebol sul-coreano
A crise atual se insere em uma história recente em que o futebol da Coreia do Sul alterna campanhas competitivas em Mundiais com frustrações que geram ondas de autocrítica nacional. A eliminação na fase de grupos, desta vez, ocorre com um presidente que decide não blindar a federação e transforma o episódio em vitrine de sua agenda de combate a privilégios e favoritismo.
Na prática, a sobrevivência de Hong no cargo parece improvável. Mesmo sem anúncio oficial de demissão, a combinação de crítica presidencial, petições populares e cobertura hostil cria um cenário em que sua permanência se torna politicamente custosa. A KFA, por sua vez, entra na linha de fogo e pode ver dirigentes pressionados a renunciar ou a aceitar mudanças profundas em seus estatutos e processos de escolha.
Em médio prazo, especialistas em política esportiva no país já falam em comissões independentes para indicar técnicos, regras mais rígidas de conflito de interesses e maior participação de representantes do governo e da sociedade civil na fiscalização da KFA. O Mundial de 2026, que deveria ser vitrine esportiva, vira, assim, catalisador de uma disputa maior sobre transparência, uso de impostos e a fronteira entre poder político e gestão do futebol.
O próximo passo formal cabe ao Ministério da Cultura, Esportes e Turismo, que deve apresentar um relatório com causas, responsabilidades e propostas de reforma. A forma como o governo vai lidar com as conclusões dessa investigação indicará se o desabafo de Lee Jae-Myung se converte em mudança estrutural ou se a revolta nacional pela eliminação ficará restrita à troca de nomes no comando da seleção antes do próximo Mundial.
Quem governa a Coreia do Sul?
A Coreia do Sul é uma república presidencialista democrática. Em 2026, o chefe de Estado e de governo é o presidente Lee Jae-Myung.
Kim Jong-un é o ditador da Coreia?
Kim Jong-un é o líder autoritário da Coreia do Norte. Ele não governa a Coreia do Sul, que é um país separado, com sistema democrático.
Qual o regime na Coreia do Sul?
A Coreia do Sul adota um regime democrático, com república presidencialista, eleições competitivas, multipartidarismo e imprensa relativamente livre.