Às vésperas do duelo das oitavas de final do Mundial de Seleções contra a Noruega, a Costa do Marfim recebe um recado direto de um dos seus principais ídolos. Gervinho, ex-atacante do Arsenal e da seleção marfinense, diz que a maior ameaça para o time africano não é Erling Haaland, mas a própria Costa do Marfim.
Pressão invertida às vésperas de jogo histórico
A seleção marfinense vive um momento inédito. Pela primeira vez, avança à fase eliminatória do Mundial, após terminar em segundo no grupo, atrás da Alemanha. Agora, encara a Noruega, que tem em Haaland um dos atacantes mais temidos do planeta, com 4 gols em apenas dois jogos no torneio.
O peso do favoritismo, porém, recai sobre os europeus, na leitura de Gervinho. Para ele, esse cenário abre espaço para que os jovens marfinenses joguem com mais liberdade, sem a carga de obrigação do outro lado. “Acho que o nível da competição está a subir. É um jogo a eliminar. A vantagem que temos é não entrarmos como favoritos, por isso isso deve permitir aos meus irmãos mais novos jogar mais soltos — não soltos exatamente, mas com menos pressão”, afirma.
O ex-atacante insiste que o time já cumpre um papel histórico apenas por ter avançado de fase. E que isso precisa ser entendido dentro do vestiário. “O que eu diria é que devem desfrutar, porque a este nível já fizeram um bom trabalho. Passar seria um bónus, claro, e esperamos que cheguem muito longe nesta competição. Mas precisam de desfrutar e não colocar demasiada pressão em si próprios. Penso que a pressão vai estar do lado da Noruega.”
“O verdadeiro adversário será a própria Costa do Marfim”
No discurso de Gervinho, Haaland é um problema sério, mas não é o centro de tudo. Questionado se a Costa do Marfim deveria montar um plano específico para parar o camisa 9, ele recusa essa ideia. “Eu diria que não, não creio. Só têm de estar atentos a ele porque é muito habilidoso, mexe-se bem e é letal”, diz.
O ex-jogador lembra que o time nórdico não se resume ao seu principal astro. “Para além do Haaland, acho que há vários jogadores de qualidade que são subestimados mas muito perigosos”, aponta. Em seguida, vira o espelho para o próprio vestiário marfinense: “Mas o verdadeiro adversário da Costa do Marfim será a própria Costa do Marfim.”
Na prática, o alerta desloca o debate de um duelo individual para um confronto de propostas. Em vez de passar 90 minutos obcecada com a marcação ao centroavante norueguês, a seleção africana é convocada a pensar em como impor seu jogo, controlar as emoções e aproveitar as chances que criar.
Yan Diomande assume o protagonismo do ataque
Ao olhar para a frente de ataque da Costa do Marfim, Gervinho enxerga armas suficientes para incomodar a Noruega. Ele cita Ange-Yoan Bonny, Amad Diallo e Nicolas Pepe como jogadores capazes de causar danos à defesa europeia. O entusiasmo maior, porém, se concentra em Yan Diomande.
O ponta vive um Mundial de afirmação. Tornou-se apenas o segundo jogador africano, desde 1966, a completar 10 ou mais dribles e criar 10 ou mais ocasiões de gol em uma única fase de grupos. É um patamar estatístico raríssimo: o último a conseguir esse desempenho, por qualquer seleção, foi Neymar, em 2018.
Gervinho lê esses números como parte de uma curva de crescimento. “Olhando para onde começou e para os diferentes clubes por onde passou, percebe-se que está a evoluir, e isso é positivo”, avalia. Em seguida, entrega o bastão simbólico do ataque. “Neste momento, diria que é ele quem pode acrescentar algo extra, quem pode liderar o ataque da Costa do Marfim.”
O ex-atacante lembra que Diomande ainda está em formação, mas não estará sozinho em campo. “Estamos felizes por ter o Yan connosco. Esperamos que ele assuma este ataque como um líder e ajude esta equipa a crescer. Mas não é só o Yan. É um jovem que ainda está a crescer, mas pode apoiar-se na experiência de Nicolas Pepe e dos outros.”
Mudança de chave tática e mental
A mensagem de Gervinho repercute principalmente no plano psicológico, mas tem consequências táticas claras. Um time que entra em campo para “sobreviver” a Haaland tende a encolher, recuar linhas e aceitar o controle do adversário. A abordagem sugerida por ele é outra: reconhecer o risco de enfrentar um dos maiores finalizadores do futebol atual, mas confiar no próprio repertório ofensivo.
Se conseguir equilibrar esse duplo foco, a Costa do Marfim tende a apresentar uma versão mais solta do meio para a frente, com Diomande autorizado a arriscar dribles e passes em zonas decisivas e com Bonny, Diallo e Pepe explorando os espaços às costas da defesa norueguesa. A chave está na eficácia, como sublinha o ex-atacante: “Se formos eficazes, se criarmos ocasiões, se jogarmos o nosso futebol, também acho que não é só o Haaland que deve preocupar-nos; a Noruega também vai ter de respeitar o nosso nível.”
Ao mesmo tempo, o recado reforça a necessidade de concentração defensiva ampla. Não basta colar marcadores em Haaland se outros nomes, inicialmente subestimados, encontram brechas. A comissão técnica marfinense tende a usar esse discurso para preparar uma equipe equilibrada, que não abdica de atacar, mas entende que um detalhe nos mata-mata decide a continuidade ou a eliminação.
O que pode mudar para o futebol marfinense
O jogo contra a Noruega transcende o placar imediato. Para a Costa do Marfim, cada minuto em campo nas oitavas representa um passo além de qualquer campanha anterior em Mundiais. A possibilidade de superar um favorito europeu, com um dos atacantes mais badalados do planeta, projeta impacto direto na imagem da seleção e no futuro dos seus talentos.
Uma boa atuação, mesmo sem classificação, tende a valorizar peças como Diomande, Bonny, Diallo e reforçar a relevância de veteranos como Pepe no processo de transição. Caso a equipe avance, o feito se converte em marco para o futebol africano e em argumento forte por mais investimento em formação, estrutura e continuidade de trabalho na Costa do Marfim.
O recado de Gervinho, no fundo, resume o ponto de virada que o país vive no Mundial: deixar de se ver como figurante, assumir o próprio talento e aceitar que, a partir daqui, o principal obstáculo pode estar menos na camisa rival e mais na capacidade de lidar com a própria pressão. A resposta começa a ser dada no jogo de mata-mata contra a Noruega, em que o time africano tenta provar que não chegou até aqui por acaso.
Por que o discurso de Gervinho é importante para a Costa do Marfim?
Porque desloca o foco do medo de Haaland para a confiança no próprio time, reduz a pressão interna e incentiva uma postura mais ofensiva e criativa nas oitavas.
Yan Diomande já iguala números de grandes estrelas?
Em termos de impacto na fase de grupos, sim. Ele é o primeiro desde Neymar, em 2018, a somar pelo menos 10 dribles e 10 chances criadas em um Mundial.
A Noruega depende só de Erling Haaland?
Não. Gervinho destaca que há outros jogadores de qualidade, considerados subestimados, que também podem ser muito perigosos se não forem bem marcados.