O clima de tensão interna no Partido Liberal (PL) atingiu um novo patamar nesta semana. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro declarou internamente que não pretende participar da campanha presidencial do enteado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Mais do que isso: o desgaste gerou uma reviravolta nos bastidores, e Michelle agora cogita seriamente desistir de sua própria disputa por uma vaga no Senado Federal nas eleições de 2026.
A possível retirada de Michelle do tabuleiro político representa um golpe duro para as pretensões do partido. Tratada até então como o maior trunfo eleitoral do PL para mobilizar o eleitorado feminino e evangélico, a ex-presidente do PL Mulher era vista como nome certo para conquistar uma cadeira no Senado, possivelmente pelo Distrito Federal.
Senado com “status de presidência”
A crise intrafamiliar ganha proporções gigantescas devido ao peso estratégico que o Congresso Nacional assumiu para o próximo pleito. Lideranças políticas de diversos espectros avaliam que a disputa pelas cadeiras do Senado em 2026, que renovará dois terços da Casa, ganhou “status de disputa presidencial”.
Para o campo conservador, obter a maioria no Senado é o único caminho institucional viável para confrontar o Supremo Tribunal Federal (STF), já que a Casa detém a prerrogativa exclusiva de aprovar novos ministros e analisar eventuais pedidos de impeachment de magistrados.
Direita dividida
A recusa de Michelle em subir no palanque de Flávio Bolsonaro escancara um racha estrutural na direita brasileira. O desentendimento, que teve origem na discordância sobre as alianças políticas e as candidaturas estaduais — especialmente no Ceará —, ameaça desidratar a força do PL nas urnas.
Sem a figura carismática da ex-primeira-dama na linha de frente, estrategistas do partido temem que a militância bolsonarista se desmobilize ou migre o apoio para candidatos de outras legendas de centro-direita. Enquanto a cúpula do partido tenta colocar panos quentes e reverter a decisão de Michelle antes do fim do prazo das convenções partidárias (em agosto), o campo lulista observa a divisão adversária com atenção, buscando consolidar sua própria “frente ampla” na disputa pelo controle do Senado.