Morte em irrigação expõe falhas na Rodovia Santos Dumont

Tragédia revela problemas na sinalização e fiscalização da Rodovia Santos Dumont em Indaiatuba.
Redação NC News
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O motociclista Gabriel Pereira Loureiro, de 24 anos, morreu na madrugada deste sábado, 4, após bater em um caminhão-pipa e ser atropelado na Rodovia Santos Dumont (SP-75), em Indaiatuba. O acidente ocorreu por volta de 0h56, no km 55,2 da pista sul, e envolve um veículo que irrigava o canteiro central.

Acidente em trecho de manutenção noturna

A colisão acontece em um momento em que a rodovia, um dos principais acessos da região de Campinas, recebe serviço de irrigação das áreas verdes. O caminhão-pipa, ligado à empresa Litucera Limpeza e Engenharia Ltda., está parado na faixa 2, no sentido Campinas–Sorocaba, quando a moto de Gabriel atinge a traseira do veículo.

Com o impacto, o jovem perde o controle, cai sobre a pista e é atropelado por um caminhão que segue viagem sem parar. Outros veículos também passam sobre o corpo antes da chegada das equipes de socorro. Gabriel morre no local.

A Polícia Militar Rodoviária interdita a faixa 2 para perícia técnica. O motorista do caminhão-pipa permanece na cena, presta esclarecimentos e se submete ao teste do bafômetro, que dá negativo para ingestão de álcool.

Trabalho informal e ausência de habilitação

Familiares relatam que Gabriel trabalha durante o dia em uma oficina especializada em motocicletas e, à noite, faz entregas por aplicativo para complementar a renda. Segundo a Polícia Militar Rodoviária, ele não possui Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para conduzir moto.

A rotina exaustiva e a informalidade se cruzam com a dinâmica do acidente, que ocorre em um trecho de rodovia estadual que corta área urbana e concentra tráfego intenso de caminhões e motociclistas. O uso profissional da moto, sem licença, amplia o foco das autoridades sobre fiscalização e educação no trânsito.

O boletim de ocorrência registra ainda a suspeita de que Gabriel possa estar usando o celular ao guidão pouco antes da batida. A informação parte de um funcionário da empresa responsável pela irrigação, que presta depoimento à Polícia Militar. A hipótese será verificada pela perícia da Polícia Civil.

Sinalização em disputa

A versão sobre as condições da via e do serviço de manutenção divide relatos. Um funcionário da Litucera afirma às autoridades que o trecho está “devidamente sinalizado” e que o motociclista se aproxima em alta velocidade, aparentemente distraído.

Um motociclista que trafega logo atrás de Gabriel, porém, contesta o relato. Ricardo Reis diz que faltam alertas visíveis antes do caminhão-pipa e atribui a tragédia à forma como a operação é montada na pista.

“Não estava bem sinalizado. Se tivesse cones antes do caminhão, ele teria batido neles e conseguido desviar. Os cones estavam depois. O caminhão também não estava com o pisca-alerta ligado”, afirma.

A Polícia Científica recolhe vestígios e registra a posição de cones, placas móveis e do próprio caminhão-pipa. O laudo deve apontar se a sinalização atende às normas para serviços em rodovias, especialmente em período noturno e em trecho de pouca iluminação.

Empresa e Prefeitura sob pressão

Responsável pela irrigação, a Litucera tenta demonstrar que segue o protocolo. Em nota, a companhia informa que o veículo presta um serviço regular contratado pelo poder público e que aciona o socorro imediatamente após o acidente.

“A Litucera Limpeza e Engenharia Ltda. lamenta a morte de Gabriel e informa que o caminhão realizava uma operação regular de manutenção das áreas verdes do município”, diz o comunicado. A empresa afirma que o veículo utiliza a “sinalização operacional prevista” e que funcionários permanecem no local até o fim do trabalho da polícia e do Samu.

A nota acrescenta que a Litucera busca contato com a família do jovem para oferecer apoio e promete colaborar integralmente com o inquérito policial, entregando documentos e registros da operação.

A Prefeitura de Campinas, que contrata a empresa para serviços de manutenção, também reage. Em nota, a administração municipal diz ter notificado a Litucera para prestar esclarecimentos sobre os protocolos de segurança adotados na irrigação daquela madrugada.

“A Prefeitura de Campinas lamenta a morte do jovem e manifesta solidariedade aos familiares e amigos”, afirma o texto. O município informa que o procedimento padrão para esse tipo de serviço prevê o uso de dispositivos de sinalização de trânsito e garante que acompanha as investigações da Polícia Civil.

Segurança em rodovias sob revisão

O caso reacende o debate sobre segurança em trechos urbanos da Rodovia Santos Dumont, um corredor com alto fluxo de caminhões e motociclistas, usado por quem trabalha em Campinas, Indaiatuba e cidades vizinhas. A rodovia aparece com frequência em buscas como “Rodovia Santos Dumont Campinas” ou “Rodovia Santos Dumont onde fica” justamente por ligar áreas industriais e bairros residenciais.

A morte de Gabriel expõe um ponto sensível: serviços de manutenção noturna, como irrigação de canteiros, operam muito próximos do tráfego em velocidade, muitas vezes com visibilidade reduzida. A combinação de sinalização falha, distração ao volante e veículos pesados aumenta o risco de colisões traseiras, especialmente para motos.

Especialistas em trânsito ouvidos em outros casos semelhantes costumam apontar que motociclistas têm pouco tempo para reagir a um obstáculo parado em faixa de rolamento, sobretudo quando a sinalização começa muito próximo do veículo de serviço. O atropelamento por caminhões e carros que vêm na sequência, como ocorreu com Gabriel, é um desfecho frequente em acidentes desse tipo.

A Polícia Civil instaura inquérito para apurar responsabilidades. A investigação deve analisar laudos, imagens de câmeras, tacógrafo do caminhão-pipa e, se houver, registros de celulares. A conduta do caminhão que primeiro atropela o motociclista e segue viagem também entra na apuração.

O que pode mudar depois da tragédia

No curto prazo, a morte do entregador de 24 anos pressiona concessionárias, prefeituras e empresas terceirizadas a rever rotinas de manutenção em rodovias estaduais. A adoção de reforço de sinalização, maior distância entre cones e veículos, uso de viaturas batedoras e restrição de horário em trechos mais críticos entra no radar.

Setores de fiscalização também passam a ser cobrados quanto ao controle de condutores sem CNH e ao combate ao uso de celular ao guidão, prática proibida e comum entre motociclistas de entrega. Campanhas educativas específicas para quem trabalha sobre duas rodas tendem a ganhar força.

No médio prazo, o inquérito deve orientar eventuais processos civis e criminais e pode resultar em ajustes nas normas estaduais de operação em vias como a Rodovia Santos Dumont, que liga Campinas a outras cidades do interior. A apuração sobre a madrugada de 4 de julho, no km 55,2, vai definir se a tragédia de Gabriel será tratada como um acidente isolado ou como sintoma de um sistema de segurança viária que precisa mudar.

 

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