Mendonça vê risco de obstrução em retirada de delegados da PF

Ministro do STF alerta para possíveis impactos na investigação de fraudes e casos importantes com retorno de policiais federais cedidos.
Redação NC News
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O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça alerta o governo Lula, este mês, para o risco de obstrução de Justiça se delegados da Polícia Federal cedidos ao tribunal forem retirados. O foco da tensão são especialmente os policiais que atuam em duas investigações sensíveis sob sua relatoria: o caso Master e os desvios bilionários em aposentadorias do INSS.

Pressão sobre PF e STF em ano pré-eleitoral

A ordem do Ministério da Justiça para o retorno de mais de cem policiais federais cedidos a órgãos públicos acende um sinal de alerta em Brasília. Na prática, a medida pode atingir quatro delegados que hoje auxiliam ministros do STF, dois no gabinete de Mendonça, um com Luiz Fux e outro com Alexandre de Moraes, relator de processos que cercam o clã Bolsonaro.

No governo, a justificativa oficial é reforçar o combate ao crime organizado com a recomposição do efetivo da PF. No Supremo e dentro da própria corporação, porém, a leitura é mais desconfiada. A pouco menos de três meses da eleição presidencial de 2026, qualquer movimento sobre a estrutura de investigações sensíveis é visto como potencial interferência política.

Integrantes do tribunal avaliam que mexer na equipe agora pode atrasar relatórios finais, esvaziar inquéritos e fragilizar a independência das apurações. As duas frentes conduzidas por Mendonça atingem parlamentares de diferentes partidos e interessam tanto ao entorno de Lula quanto ao de Flávio Bolsonaro.

Decisão do Ministério da Justiça ainda poupa o Supremo

Mais de 50 órgãos da administração pública já são notificados a devolver policiais cedidos. O STF, porém, não recebe até agora ofício exigindo o retorno dos delegados que atuam na Corte. Essa ausência de comunicação formal mantém os quatro delegados em atividade regular nos gabinetes.

O próprio Mendonça, ex-ministro da Justiça no governo Jair Bolsonaro, movimenta-se nos bastidores e adverte o Planalto sobre o risco jurídico e político de retirar, neste momento, os delegados que tocam casos com impacto direto no debate eleitoral de 2026. A avaliação no entorno do ministro é que, se a mudança atingir sua equipe, haverá argumento para se falar em interferência indevida.

A tensão é alimentada por desconfianças cruzadas. De um lado, setores ligados ao governo veem em Mendonça um magistrado próximo do bolsonarismo. De outro, aliados do ex-presidente acusam o ministro de seletividade, ao mesmo tempo em que o governo Lula é acusado de tentar esvaziar inquéritos que podem alcançar o entorno presidencial.

PF tenta blindar apurações e critica uso político do caso

Em café da manhã com jornalistas em 3 de julho, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, procura conter a leitura de interferência. Ele afirma que a situação dos delegados cedidos ao Supremo ainda está em estudo.

“É uma avaliação que o ministério está fazendo ainda. Por enquanto não há essa definição, até porque há uma necessidade de fazer uma análise da posição estratégica”, diz Rodrigues. Em reservado, porém, um integrante da PF ironiza o argumento do governo de que a volta de mais de cem policiais reforçaria a luta contra o crime organizado. “Esse motivo do governo não é verdadeiro. É como jogar um copo d’água no Rio Tietê e dizer que isso vai melhorar a qualidade de água”, afirma.

O diretor-executivo da PF, William Murad, reage à exploração política do tema. “Esse tipo de abordagem, sim, é para fins eleitoreiros, não condiz com a realidade”, diz. Dentro da corporação, há o temor de que qualquer decisão sobre os delegados do STF seja lida como capitulação a pressões políticas, de um lado ou de outro.

Casos Master e INSS se aproximam da reta final

Enquanto a disputa institucional corre, a PF prepara os relatórios finais dos dois inquéritos sob relatoria de Mendonça. O diretor da área de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção, Dennis Cali, informa que as conclusões sobre as fraudes no INSS ficam prontas ainda em julho. O documento sobre o caso Master, diz ele, vem “muito em breve”.

No inquérito do INSS, a hipótese central é a de descontos associativos não autorizados em aposentadorias, com participação de pessoas dentro do instituto e entidades que cobravam contribuições de sócios sem consentimento. A Operação Sem Desconto já leva à prisão 27 pessoas, e cerca de 40% do material apreendido é analisado até agora.

Em paralelo, o caso Master investiga crimes financeiros ligados ao extinto Banco Master. A PF rejeita proposta de delação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. “Não existe interesse técnico”, afirma Andrei Rodrigues sobre o acordo, avaliado como incapaz de acrescentar fatos relevantes às apurações.

O inquérito ganha peso político ao tocar o entorno de Flávio Bolsonaro. Investigadores apuram pedidos de dinheiro a Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. No Congresso, o deputado Mario Frias destina R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil, ligado à produtora do longa. A destinação de recursos é alvo de inquérito aberto por decisão do ministro Flávio Dino no STF.

Mendonça no centro do conflito político

Mendonça, indicado ao STF em 2021 por Jair Bolsonaro, carrega o peso de ter sido ministro da Justiça e advogado-geral da União antes de chegar ao tribunal. Seu histórico o coloca numa posição ambígua: visto como conservador por setores da direita, enfrenta resistência no PT e em aliados de Lula.

Nas investigações atuais, o ministro atua em linha direta com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, que precisa emitir parecer sobre pedidos de apuração envolvendo Flávio Bolsonaro e outros parlamentares. A palavra final sobre abrir ou não novas frentes de investigação cabe a Mendonça, após manifestação de Gonet e decisão prévia do presidente do STF, Edson Fachin, em pontos de competência.

O movimento do Ministério da Justiça, portanto, atinge um tabuleiro já sensível. A eventual saída dos delegados pode atrasar relatórios, alterar estratégias de investigação e criar espaço para questionamentos jurídicos sobre nulidades e interferências. Ganha o ministério, que reforça o discurso de recomposição de quadros para enfrentar facções e crimes complexos. Perdem o Supremo, que depende do apoio técnico dos delegados, e a própria PF, cuja imagem de autonomia fica sob teste.

O que vem a seguir

Os próximos dias são decisivos. A PF se prepara para remeter ao STF as primeiras conclusões sobre o INSS e o caso Master ainda em julho. O Ministério da Justiça precisa bater o martelo sobre o futuro dos quatro delegados cedidos ao tribunal. No Supremo, cresce a disposição de reagir caso a medida seja vista como tentativa de esvaziar investigações.

No campo político, deputados e senadores ampliam o fogo cruzado. Lindbergh Farias, aliado de Lula, pede investigação contra Flávio Bolsonaro. Bolsonaristas, por sua vez, acusam Mendonça de atuar de forma ambígua em casos que envolvem o ex-presidente e seus aliados. A disputa em torno dos delegados da PF se torna mais um capítulo da guerra de narrativas que antecipa a campanha de 2026.

Se o governo recuar e mantiver os policiais no STF, pode evitar uma crise aberta com o Judiciário, mas será cobrado por não cumprir integralmente a promessa de reforçar o combate ao crime organizado. Se insistir na retirada, arrisca-se a enfrentar ações judiciais, reação pública do Supremo e novo desgaste na relação entre Planalto, PF e tribunal. A forma como essa equação será resolvida tende a influenciar não apenas o desfecho dos casos Master e INSS, mas também a confiança do eleitor na independência do sistema de Justiça.

 

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