Há 25 anos, em 8 de julho de 2001, o comandante Rolim Adolfo Amaro, presidente da TAM, morre na queda de um helicóptero perto de Pedro Juan Caballero, na fronteira entre Brasil e Paraguai. A gerente comercial da companhia, Patrícia Santos, de 30 anos, também está a bordo e não sobrevive.
A manhã em que o helicóptero parou no ar
O domingo começou como tantos outros na fazenda de 3 mil hectares de Rolim, às margens da BR-463, estrada que liga Ponta Porã a Dourados, em Mato Grosso do Sul. O empresário, então com 59 anos, passa o fim de semana no campo e se prepara para retomar a agenda de negócios.
Por volta de 9h30, ele decola da pista da propriedade em um helicóptero Robson R-44 vermelho, prefixo ZPHRA, rumo ao Paraguai. Ao lado, viaja Patrícia, executiva em ascensão na área comercial da TAM, convocada para a reunião com empresários americanos.
O voo segue em direção a Pedro Juan Caballero. Quando a aeronave sobrevoa o vilarejo de Fortuna Guazú, a 38 quilômetros da cidade paraguaia, algo foge ao controle. Testemunhas relatam uma sequência curta e brutal. “A aeronave parou no ar, emborcou e caiu”, dizem, ainda atônitas, às autoridades locais.
O helicóptero despenca sobre um pasto de uma propriedade rural. Um produtor agrícola de 71 anos vê a cena e aciona a polícia paraguaia. Não há sobreviventes. O que seria mais um deslocamento executivo, facilitado por um modelo de helicóptero comum em voos curtos, termina como uma das tragédias mais emblemáticas da aviação brasileira.
Do sonho regional à segunda maior aérea do país
A notícia da morte de Rolim Amaro corre rápido entre pilotos, mecânicos, executivos e passageiros. Poucos empresários brasileiros se confundem tanto com a marca que criam. No caso da TAM, o nome do comandante se torna quase sinônimo da companhia.
A trajetória começa décadas antes, quando o jovem de família humilde tira o brevê aos 18 anos e se agarra a qualquer oportunidade para ficar perto de aviões. Trabalha como auxiliar de mecânico, entregador de sanduíche, aprendiz em cartório. Estuda até a sétima série e abandona a escola para ajudar nas despesas de casa.
Já piloto, entra na Transporte Aéreos de Marília, uma pequena empresa regional do interior paulista. Em 1972, compra metade das ações. Em 1976, adquire o restante e assume o controle. A partir dali, impõe um estilo que mistura obsessão por operação, marketing intuitivo e presença diária nas bases.
Em poucos anos, a TAM deixa de ser uma empresa de rotas curtas para se tornar protagonista do mercado doméstico. “Amaro revolucionou a TAM, transformando-a na segunda maior companhia aérea do Brasil”, registra O GLOBO. A empresa ultrapassa Vasp e Transbrasil e passa a disputar espaço diretamente com a Varig.
No dia a dia, o comandante cultiva gestos simples que se transformam em marca registrada. O tapete vermelho estendido na porta das aeronaves é exemplo disso. Serve como símbolo de acolhimento ao passageiro e, ao mesmo tempo, reduz o gasto com limpeza. O chão do avião suja menos porque o tapete funciona como capacho. “Ele era conhecido por sua paixão pela aviação e ideias inovadoras de marketing”, define O GLOBO.
Uma liderança interrompida no auge
Às vésperas do acidente, Rolim conduz uma estratégia agressiva de expansão. Defende que o Brasil deve ter apenas duas grandes companhias, financeiramente sólidas. Tenta comprar a Transbrasil durante quase dois anos, por meio de acordos de cooperação e absorção de rotas e funcionários. Na arena internacional, com a Varig, ocupa espaços deixados pela própria Vasp em destinos como Miami, Paris e Frankfurt, um dos maiores aeroportos da Europa.
A trajetória da TAM, porém, não é feita só de conquistas. Em meados dos anos 1990, um Fokker 100 da companhia cai sobre um bairro de São Paulo, segundos após decolar de Congonhas, e mata 99 pessoas. O episódio se torna um dos piores acidentes da aviação brasileira. “Retrocedemos dois anos no nosso marketing”, admite Rolim, numa frase que revela o impacto humano e empresarial da tragédia.
Quando o helicóptero Robson R-44 cai em 2001, o comandante ainda administra as consequências desse trauma e, ao mesmo tempo, prepara a expansão internacional. A morte súbita deixa um vácuo raro: desaparece o fundador que, além de idealizar a empresa, ainda comanda o dia a dia da operação e serve de referência para o quadro de funcionários.
Segurança em helicópteros e impacto no setor aéreo
O acidente reforça, dentro e fora da TAM, a vulnerabilidade dos deslocamentos executivos em helicópteros, sejam modelos simples como o R-44, sejam aeronaves maiores, usadas por governos e grandes corporações. A cena descrita pelas testemunhas — o aparelho que “para no ar, emborca e cai” — ganha peso simbólico em um setor em que qualquer falha técnica ou descuido de manutenção pode ser fatal.
Especialistas voltam a cobrar protocolos mais rígidos para a aviação geral e executiva, com foco em revisão de peças, treinamento e análise de risco nas rotas. A tragédia expõe, para além da comoção, um ponto sensível da indústria aeronáutica: muitos executivos habituam-se a tratar helicópteros quase como carros de uso diário, apesar de dependerem de controles muito mais estritos.
A morte de Rolim também mexeu com a estrutura de comando da TAM. O desafio imediato é garantir a continuidade de projetos traçados por uma liderança carismática e centralizadora. A companhia precisa mostrar ao mercado, a passageiros e a parceiros internacionais que o plano de crescimento se sustenta sem a figura que a ergueu do zero.
No longo prazo, o episódio se consolida como marco na memória da aviação brasileira. Entre pilotos e gestores, seu nome surge sempre que se discute cultura de segurança e responsabilidade de comando. A perda de um líder com forte presença pública ajuda a disseminar, ainda que a duras penas, uma consciência mais ampla sobre a importância de prevenção e transparência em acidentes aéreos.
Memória, legado e perguntas em aberto
Passadas duas décadas e meia, a queda do helicóptero próximo a Pedro Juan Caballero permanece ligada a questões que ainda desafiam o setor. Investigações apontam pane em voo, mas a discussão sobre causas profundas — de manutenção a projeto, de decisão de rota a leitura de condições meteorológicas — alimenta debates técnicos, nem sempre visíveis ao grande público.
Para a TAM, o episódio funciona como divisor de águas. De um lado, a necessidade de preservar e atualizar o legado de um fundador que apostou em proximidade com o passageiro, expansão internacional e marketing criativo. De outro, a obrigação de consolidar uma cultura de segurança que aprenda com acidentes anteriores, do Fokker 100 ao helicóptero em Fortuna Guazú.
Na aviação brasileira, o nome de Rolim Adolfo Amaro segue associado a uma pergunta incômoda e atual: como equilibrar ambição de crescimento, pressão por resultado e a paciência exigida por controles de segurança rigorosos? As respostas, ainda em construção, moldam decisões de empresas, reguladores e fabricantes, em um país onde helicópteros continuam a servir a deslocamentos cotidianos de executivos, autoridades e cidadãos comuns.
O que permanece, 25 anos depois, é a combinação de luto e legado. A morte do comandante interrompe uma liderança em pleno exercício, mas também cristaliza, na história da aviação comercial brasileira, a figura do piloto que sai do interior paulista para comandar uma gigante do setor e que, até o fim, prefere pilotar o próprio destino.