A prisão do ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado, Márcio Canella (União Brasil) selou o distanciamento imediato entre a federação PP-União Brasil e o projeto presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). O rompimento foi deflagrado nos bastidores pela insatisfação das legendas com o silêncio do parlamentar diante da operação da Polícia Federal (PF) e com as tentativas do PL de rifar a candidatura de Canella no Rio de Janeiro para emplacar um nome próprio.
A Operação Unha e Carne e o isolamento político
A deflagração da Operação Unha e Carne pela Polícia Federal desarticulou o planejamento eleitoral da centro-direita no estado fluminense. Márcio Canella foi detido sob a suspeita de integrar um esquema criminoso de lavagem de dinheiro operacionalizado por meio de uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio. Durante a ação policial, os agentes federais encontraram um fuzil no veículo do político.
O fator determinante para a ruptura, no entanto, ocorreu nas esferas de articulação em Brasília. Dirigentes do União Brasil relatam extrema insatisfação com a postura adotada por Flávio Bolsonaro após o escândalo policial vir à tona.
“Lideranças do União esperavam algum tipo de posicionamento em defesa do ex-prefeito, ainda que de forma reservada, mas afirmam que isso não ocorreu”, relatam integrantes da direção partidária sobre o isolamento imposto pelo senador.
O cálculo eleitoral e a disputa pela vaga majoritária
A irritação do União Brasil foi amplificada por movimentações de bastidor arquitetadas por integrantes do PL. A percepção da legenda é de que o partido de Bolsonaro tenta usar a crise criminal para reconfigurar a aliança de forma unilateral e vantajosa.
Os principais pontos de atrito que inviabilizam a manutenção da coligação incluem:
- Pressão por rebaixamento: O PL passou a defender ativamente que Canella abandone a corrida ao Senado Federal e concorra apenas a uma vaga na Câmara dos Deputados, utilizando o revés judicial como justificativa.
- Apropriação da chapa: O objetivo central da manobra seria abrir espaço para que um nome puro do PL assumisse a candidatura majoritária na coligação do Rio de Janeiro.
- Resistência jurídica: O União Brasil sustenta a viabilidade de Canella, apostando que o político pode reverter a prisão provisória a tempo, e interpreta a articulação do PL como uma tentativa deliberada de enfraquecer o aliado.
Distanciamento prévio do Progressistas (PP)
O desgaste deflagrado pela prisão do ex-prefeito apenas consolida uma fratura que já estava em andamento dentro da federação partidária. O Progressistas (PP), sócio do União Brasil na aliança, já mantinha uma relação fragilizada com o núcleo bolsonarista.
A tensão no PP teve início após o presidente nacional da sigla, o senador Ciro Nogueira, tornar-se alvo de investigações da Polícia Federal envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro. Desde a eclosão do inquérito, Nogueira vinha sinalizando aos seus pares o desinteresse em apoiar a pré-candidatura nacional do parlamentar do PL.
Entenda o Caso
A federação PP-União Brasil atuava como uma das principais estruturas de apoio para pavimentar a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O arranjo nacional dependia de acordos regionais pacificados, especialmente no Rio de Janeiro, base eleitoral da família Bolsonaro, onde o União Brasil indicaria Márcio Canella para o Senado.
Com a prisão do ex-prefeito e a ausência de solidariedade política por parte do PL, a confiança mútua foi rompida. Às vésperas das convenções partidárias, o distanciamento obriga a centro-direita a buscar novas composições e ameaça isolar o projeto eleitoral do clã Bolsonaro da rede de apoio do chamado “Centrão”.