O ex-prefeito de Campo Grande Alcides Bernal, 60, morreu às 0h35 desta segunda-feira 13,, na Santa Casa, após sucessivas complicações cardíacas enquanto cumpre prisão preventiva por homicídio desde 24 de março de 2026.
Internações em sequência e negativa de prisão domiciliar
Bernal chega à Santa Casa pela primeira vez em 30 de junho, depois de passar mal no Presídio Militar de Campo Grande. Os médicos encaminham o ex-prefeito para o setor de cardiologia e iniciam uma série de procedimentos de urgência.
“Ele começou com cateterismo, mas depois foi submetido a uma angioplastia coronariana. E dessa angioplastia, ele foi submetido depois a outra angioplastia, quando foi colocado os stents nele”, relata a defesa, ao descrever as intervenções realizadas no coração do paciente.
Os exames identificam lesões importantes nas artérias coronárias. No retorno ao presídio, o quadro clínico segue instável. A defesa insiste que o ex-prefeito é um paciente cardíaco de alto risco e reforça os pedidos de prisão domiciliar, todos negados pela Justiça.
Um ofício do próprio Presídio Militar informa ao Judiciário que a unidade não dispõe de estrutura adequada para manter um detento com o grau de fragilidade de Bernal. Mesmo assim, ele segue custodiado no local, alternando períodos entre a cela e a internação hospitalar.
No fim de semana anterior à morte, Bernal desmaia novamente no presídio. É levado de volta à Santa Casa, onde recebe atendimento na Unidade de Terapia Intensiva cardiológica. A nova internação ocorre um dia depois da negativa mais recente ao pedido de prisão domiciliar.
Complicações cardíacas e laudos médicos
Na madrugada desta segunda, o ex-prefeito sofre novo infarto e é submetido ao terceiro cateterismo de urgência desde o início da internação. O procedimento confirma o agravamento das lesões coronarianas.
“Durante o procedimento, os médicos constataram trombose nos stents implantados nas artérias do coração e tentaram desobstruir os vasos, mas a intervenção não teve sucesso devido à alta carga de trombos”, registra o laudo médico.
Os relatórios apontam múltiplas paradas cardíacas, episódios de fibrilação ventricular e infartos agudos do miocárdio. A equipe utiliza medicações vasoativas para manter a circulação e adotam todas as manobras de suporte avançado. “Após serem esgotadas todas as medidas de suporte avançado, o óbito foi constatado às 0h35 desta segunda-feira”, informa o documento.
O corpo é liberado para a família e levado ao Cemitério Jardim das Palmeiras, em Campo Grande. O velório começa às 11h e o sepultamento é marcado para as 16h, fechando um percurso de menos de quatro meses entre a prisão preventiva e a morte na UTI.
Crime, disputa por imóvel e trajetória política
Bernal responde por homicídio qualificado pela morte do servidor público e auditor fiscal aposentado Roberto Carlos Mazzini, 61. O crime acontece em uma residência na Rua Antônio Maria Coelho, no Jardim dos Estados, área nobre de Campo Grande.
O imóvel pertence ao ex-prefeito, é levado a leilão judicial e arrematado por Mazzini. No dia do crime, o servidor vai ao local com um chaveiro para tomar posse da casa, conforme decisão judicial. De acordo com as investigações, Bernal aparece armado na residência, atira duas vezes contra a vítima e deixa o local.
Mazzini morre no imóvel. Horas depois, o ex-prefeito se apresenta na delegacia e é autuado em flagrante por homicídio qualificado. Em 24 de março, já como réu, é transferido para o Presídio Militar de Campo Grande, enquanto aguarda julgamento pelo Tribunal do Júri.
Natural de Corumbá, Bernal constrói carreira como advogado, radialista e político. Em 2004, elege-se vereador em Campo Grande e preside a Comissão de Transporte e Trânsito. Quatro anos depois, é reeleito e assume a Comissão de Defesa do Consumidor. Em 2010, chega à Assembleia Legislativa como deputado estadual.
Em 2012, vence a eleição para prefeito da capital sul-mato-grossense. Torna-se o 62º chefe do Executivo municipal, então filiado ao Partido Progressistas (PP). Dois anos depois, enfrenta a mais dura crise política da carreira.
Em março de 2014, a Câmara Municipal aprova sua cassação por supostas irregularidades em contratos emergenciais. “Dos 29 vereadores, 23 votaram a favor da cassação por irregularidades em contratos emergenciais”, registra a própria Casa. O vice, Gilmar Olarte, assume a prefeitura.
Depois de 1 ano e 5 meses fora do cargo, Bernal volta ao comando da prefeitura em agosto de 2015, por decisão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Ele cumpre o restante do mandato, até o fim de 2016. Disputa a reeleição, mas não chega ao segundo turno, ficando de fora por 2.630 votos.
Sistema prisional sob pressão e disputa jurídica
Na reta final da vida pública, Bernal volta ao centro do debate, agora como símbolo das dificuldades do sistema prisional em lidar com presos gravemente enfermos. A morte em custódia, depois de alertas médicos e administrativos, adiciona uma camada de responsabilidade ao Estado.
“Houve uma alerta da defesa ao Poder Judiciário desde o início do processo de que ele possuía doença grave, foi alertado essa semana que ele não poderia retornar ao presídio, fizemos um pedido de domiciliar, fizemos um pedido adendo, de uma questão temporária de ele retornar para casa, isso não aconteceu. Ficou com certeza um sentimento de frustração”, afirma o advogado Ricardo Machado.
A defesa sustenta que a manutenção da prisão preventiva, diante dos laudos que indicavam alto risco de morte, viola o dever do poder público de preservar a integridade física do preso. O questionamento abre espaço para ações judiciais de responsabilização do Estado por omissão ou negligência.
O caso reforça uma discussão mais ampla sobre alternativas à prisão em regime fechado para pacientes com doenças graves, como a prisão domiciliar monitorada. No Presídio Militar, servidores já haviam registrado, em ofício, que a unidade não conseguia garantir o suporte necessário a um detento cardiopata complexo.
Impacto político e debate sobre direitos de presos doentes
A morte de Bernal encerra uma trajetória marcada por ascensão rápida e crises sucessivas na política de Campo Grande. Ao mesmo tempo, expõe um ponto cego do sistema de justiça criminal: o tratamento dado a acusados com condições de saúde críticas, ainda sem condenação definitiva.
No campo político, o desfecho impede que o caso Mazzini chegue a julgamento com sentença sobre a conduta do ex-prefeito. A família da vítima perde a chance de ouvir o veredito do Tribunal do Júri. A cidade, que já assistira à queda e ao retorno de Bernal ao Paço Municipal, vê a história interrompida em uma UTI.
Entidades de direitos humanos e especialistas em execução penal tendem a cobrar investigações sobre as decisões que mantêm o ex-prefeito no regime de prisão preventiva, mesmo após os alertas de médicos e da própria administração do presídio. O Ministério Público e a Corregedoria do sistema prisional devem ser pressionados a apurar se houve falhas na cadeia de decisões.
Nos próximos meses, o caso Bernal deve alimentar propostas de revisão de protocolos para custódia de presos com enfermidades crônicas, em especial problemas cardíacos graves. A discussão promete ultrapassar Campo Grande e chegar a tribunais superiores, em busca de parâmetros mais claros sobre quando o risco à vida do preso deve prevalecer sobre a lógica punitiva da prisão preventiva.