O ex-prefeito de Campo Grande Alcides Bernal morreu na madrugada de segunda-feira (13) na Santa Casa da Capital, após nova cirurgia cardíaca, menos de três meses depois de assassinar a tiros o auditor fiscal Roberto Mazzini. O político, que está preso desde 24 de março de 2024, não resiste ao procedimento de emergência e deixa em aberto dúvidas sobre a assistência à saúde no sistema prisional de Mato Grosso do Sul.
Infarto, cirurgias e a negativa de prisão domiciliar
Bernal chega ao hospital pela primeira vez no início de junho, depois de sofrer um infarto enquanto cumpre prisão preventiva no Presídio Militar da Capital. Passa por três procedimentos cirúrgicos para desobstrução de artérias, com implantação de stents, e recebe alta dias depois, retornando à cela.
A defesa protocola pedido de prisão domiciliar com base em laudos médicos que recomendam ao menos 30 dias de repouso em casa. Argumenta que o presídio não tem estrutura para o pós-operatório de um paciente cardíaco de alto risco. O Judiciário, porém, mantém a detenção. A decisão se ancora na avaliação de que a rede pública, com a Santa Casa como referência, consegue garantir o tratamento necessário.
Na sexta-feira (10), o juiz responsável rejeita o pedido. Dois dias depois, o quadro de saúde de Bernal volta a se agravar. No sábado, 11 de junho de 2024, ele sente mal-estar no Presídio Militar e é levado novamente para a UTI da Santa Casa. De acordo com apuração do Jornal Midiamax, “Bernal passou por um procedimento cirúrgico na madrugada desta segunda (13) e não resistiu”.
Crime por disputa de imóvel muda de rumo com a morte do réu
O processo que leva Bernal de volta ao noticiário policial começa em 24 de março de 2024. Naquela tarde, o auditor fiscal Roberto Mazzini vai até um imóvel que pertenceu ao ex-prefeito e que ele arremata em leilão no ano anterior. Chega ao local acompanhado de um chaveiro, para tomar posse legal da casa.
No endereço, a disputa patrimonial se transforma em execução. Mazzini é atingido por pelo menos dois disparos, na região da costela e na parte dorsal. O Corpo de Bombeiros tenta reanimá-lo por cerca de 25 minutos, sem sucesso. O servidor público morre ainda no local.
Horas depois, Bernal se apresenta na Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac) Centro e se entrega. O chaveiro, única testemunha direta da cena, é encaminhado ao Centro Integrado de Polícia Especializada (Cepol). O caso causa choque em Campo Grande, tanto pela brutalidade quanto pela trajetória política do autor confesso, primeiro prefeito da cidade a ser cassado, em 2014.
No fim de junho, já atrás das grades, o ex-prefeito é mandado a júri popular pelo juiz Carlos Alberto Garcete, da 1ª Vara do Tribunal do Júri, que decide manter a prisão preventiva. A expectativa de familiares de Mazzini e de parte da sociedade é ver Bernal sentado diante dos jurados em Campo Grande. A morte do réu, porém, interrompe o curso da ação penal.
Processo extinto, frustração e silêncio político
Com o óbito, a legislação brasileira determina a extinção da punibilidade. Na prática, o processo criminal contra Bernal é arquivado, e o Tribunal do Júri deixa de analisar o caso. Não haverá condenação nem eventual absolvição, o que frustra, sobretudo, familiares da vítima que aguardam uma resposta simbólica da Justiça.
Advogados ouvidos reservadamente veem o desfecho como duplamente traumático. A família Mazzini não assiste ao julgamento do autor do crime, e o ex-prefeito morre sem que o Estado conclua se sua prisão rigorosa, mesmo doente, respeita o limite entre segurança pública e direitos humanos.
No campo político, a reação dominante é o silêncio. Aliados e adversários de Bernal evitam declarações públicas sobre seus últimos meses de vida, marcados por cela, cirurgias e escolta hospitalar. O contraste com a polarização habitual em torno de seu nome, que já domina campanhas e crises na Câmara Municipal, evidencia o desconforto de grupos que um dia disputam sua influência.
Enquanto isso, outros temas seguem acendendo o debate público no país, da violência política às disputas internas do campo bolsonarista. Em Brasília, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, resume o clima de autoridade e confronto ao afirmar, em outro contexto, que “ninguém pode ter dúvida sobre quem manda — Caiado, após carta de Bolsonaro lida por Flávio”. A frase, embora alheia ao caso Bernal, ecoa a discussão sobre até onde vai o poder estatal quando lida com réus doentes e figuras públicas caídas em desgraça.
Saúde prisional e pressão sobre o Judiciário
A sequência de internações de Bernal expõe um problema antigo na segurança pública de Mato Grosso do Sul: a estrutura precária para tratar presos com doenças graves. A Santa Casa vira destino inevitável em situações de emergência, mas a rotina entre presídio, escolta armada e UTI custa caro e gera riscos.
A negativa de prisão domiciliar, diante de três angioplastias e da recomendação de 30 dias de repouso, amplia o escrutínio sobre decisões judiciais em casos semelhantes. A morte do ex-prefeito alimenta questionamentos sobre como juízes avaliam laudos médicos e medem o peso da gravidade clínica contra o risco de fuga ou de novos crimes.
Entidades de direitos humanos e defensores públicos já cobram, em outros processos, critérios mais transparentes para manter ou flexibilizar prisões de réus enfermos. O episódio Bernal tende a ser usado como exemplo em debates legislativos e acadêmicos sobre saúde prisional, tanto em Campo Grande quanto em Brasília.
Para o Judiciário local, resta agora administrar a percepção pública. De um lado, setores que veem na manutenção da prisão um recado de que autoridades não estão acima da lei. De outro, vozes que apontam crueldade e omissão do Estado ao manter sob custódia um paciente cardíaco de alto risco em ambiente sem suporte adequado.
Papel da imprensa e próximos capítulos
O caso Bernal também reforça a centralidade da imprensa local na vigilância de crimes que envolvem figuras públicas. O Jornal Midiamax acompanha cada etapa, da prisão em flagrante às internações sucessivas, e abre canais diretos de denúncia por WhatsApp, no número (67) 99207-4330, com promessa de sigilo.
O interesse do leitor se reflete na audiência das reportagens sobre o ex-prefeito, que figuram entre as mais lidas em plataformas como Campo grande news, Midiamax hoje e Top midiamax. Termos como Midiamax campo grande, Midiamax policial, Midiamax últimas notícias e Midiamax últimas notícias campo grande ms hoje hoje dominam buscas de quem tenta entender o que acontece na cidade.
A morte de Bernal encerra a fase penal do assassinato de Roberto Mazzini, mas não encerra o debate sobre a violência associada a disputas patrimoniais, a responsabilidade de agentes públicos e a capacidade do Estado de tratar com transparência crimes cometidos por autoridades. Também não apaga a dor da família do auditor, que segue com a possibilidade de buscar reparação civil.
Nos próximos meses, a defesa de Bernal pode tentar reconstituir publicamente os bastidores médicos do caso, e o Judiciário terá de explicar, em relatórios e audiências, como monitora presos com quadro clínico delicado. Propostas de melhoria na saúde prisional tendem a ganhar espaço nas campanhas municipais, em um cenário em que a confiança do eleitor em Campo Grande depende cada vez mais da forma como o poder público lida com seus próprios conflitos e tragédias.