Rondônia passa a ocupar o centro de uma iniciativa internacional que pode transformar a forma como a mineração artesanal é praticada no Brasil.
A Cooperativa Estanífera de Mineradores da Amazônia Legal (CEMAL), sediada em Ariquemes, foi escolhida para integrar o projeto internacional CRAFTing do Estanho, iniciativa coordenada em Rondônia pelo Sistema OCB/RO que reúne pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especialistas brasileiros e internacionais e a organização Alliance for Responsible Mining (ARM).
O objetivo é desenvolver um modelo de mineração de pequena escala baseado em responsabilidade ambiental, governança, segurança dos trabalhadores, rastreabilidade mineral e desenvolvimento social, criando uma metodologia que poderá ser replicada em outras regiões produtoras do Brasil e até em outros países.
A escolha da CEMAL não foi por acaso.
Fundada em 1999, a cooperativa nasceu para oferecer aos pequenos garimpeiros uma alternativa legalizada de trabalho no garimpo de Massangana. Organizados em cooperativa, os mineradores passaram a ter acesso aos direitos minerários necessários para exercer a atividade dentro da legislação brasileira, fortalecendo a produção mineral de pequena escala na região.
Agora, mais de duas décadas depois, a cooperativa se torna objeto de estudo de um dos principais projetos internacionais voltados à mineração artesanal responsável.
Segundo o CEO da CEMAL, Carlos Mena, a iniciativa representa um salto na evolução da cooperativa.
“A OCB, a Unicamp, organizações internacionais e instituições parceiras escolheram a CEMAL como estudo de caso para construir caminhos que tornem a mineração de pequena escala cada vez mais alinhada à responsabilidade social, ambiental e às boas práticas de governança. Para nós, isso representa um salto extraordinário de qualidade.”

Um projeto pioneiro
O diferencial do projeto está na adaptação do CRAFT Code, protocolo internacional criado pela Alliance for Responsible Mining (ARM) para orientar a mineração artesanal responsável.
Até então, a metodologia era aplicada principalmente à mineração de ouro.
Agora, pela primeira vez, pesquisadores trabalham na adaptação desse protocolo para a cadeia produtiva do estanho, principal metal extraído da cassiterita.
O pesquisador e jornalista do projeto, Yama Chiodi, explica que essa é justamente a inovação da iniciativa.
“O código CRAFT foi criado para a mineração artesanal do ouro. Nosso projeto é pioneiro porque será o primeiro piloto voltado ao estanho. Como é organizado em módulos progressivos, ele permite que cooperativas implementem melhorias de forma gradual, tornando a mineração responsável mais viável.”
Por que Rondônia?
A escolha do estado também tem fundamento estratégico.
O Brasil possui uma das maiores reservas de cassiterita do mundo e Rondônia concentra a maior parte dessa produção, tornando-se peça importante para uma cadeia mineral considerada estratégica globalmente.
O estanho é utilizado na fabricação de componentes eletrônicos, soldas industriais, baterias e painéis solares — setores diretamente ligados à transição energética.
Segundo Yama Chiodi, além da relevância mineral do estado, a disposição da CEMAL em aperfeiçoar continuamente seus processos foi determinante para a escolha da cooperativa.
“A CEMAL demonstrou grande interesse em fortalecer práticas responsáveis, conciliando produção, proteção ambiental e segurança dos trabalhadores. O modelo cooperativista favorece exatamente esse tipo de parceria entre ciência e produção.”

Ciência aplicada ao garimpo
Ao longo da pesquisa, especialistas de diferentes áreas — como geologia, geografia, engenharia e ciências sociais — acompanharão toda a cadeia produtiva da cassiterita.
Os estudos incluem rastreabilidade do minério, diagnóstico ambiental, recuperação de áreas mineradas, avaliação das condições de trabalho e desenvolvimento de tecnologias que contribuam para uma mineração mais eficiente e sustentável.
A proposta é que o conhecimento produzido permaneça na região, fortalecendo o cooperativismo mineral mesmo após a conclusão do projeto.

Um modelo para o futuro
Mais do que produzir conhecimento científico, o CRAFTing do Estanho pretende construir um modelo capaz de orientar políticas públicas e servir de referência para outras cooperativas minerais.
Ao colocar uma cooperativa de Ariquemes no centro dessa iniciativa internacional, Rondônia passa a contribuir diretamente para a construção de uma mineração mais transparente, responsável e alinhada às exigências dos mercados globais.
A expectativa dos pesquisadores é que as soluções desenvolvidas dentro da CEMAL ultrapassem os limites da cooperativa e possam fortalecer toda a mineração artesanal brasileira, demonstrando que ciência, inovação e cooperativismo podem caminhar juntos na construção de um desenvolvimento que permanece.
Por: Jemima Quéren Neves de Paula Maurício