PF vê reunião de Pacheco sobre INSS; senador nega

Documento da PF aponta encontro sobre INSS, mas senador Pacheco nega participação e esclarece equívocos.
Redação NC News
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A Polícia Federal afirma que o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSB-MG), se reuniu em 1º de fevereiro de 2023 com o dirigente da Conafer, Carlos Lopes, para tratar da nomeação do presidente do INSS. A indicação de cargos estratégicos no órgão, segundo o relatório, é peça central de um esquema nacional de descontos indevidos em aposentadorias e pensões. Pacheco nega ter participado de qualquer encontro ou discutido indicações para o instituto.

Relatório chega ao STF e mira esquema bilionário

As conclusões fazem parte da primeira investigação da Operação Sem Desconto, que apura uma rede de fraudes contra beneficiários do INSS em todo o país. O relatório é entregue ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, em 10 de julho de 2026, com o indiciamento de 48 pessoas por crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro qualificada e corrupção ativa.

O documento sustenta que o controle de cargos-chave no INSS garante a “boa fluidez do esquema” e a blindagem contra auditorias internas. Na prática, isso permitiria a manutenção de descontos ilegais em benefícios, sem que aposentados e pensionistas consigam barrar a sangria no contracheque.

O caso ganha peso político por envolver o comando do Senado e o processo de nomeação em um dos órgãos mais sensíveis da máquina pública. O INSS administra a renda mensal de milhões de brasileiros e, por isso, qualquer interferência criminosa na cúpula tem impacto direto na vida de quem depende da Previdência.

Como a PF reconstrói o encontro

O relatório aponta o deputado federal mineiro Euclydes Pettersen como articulador da reunião entre Pacheco e Carlos Lopes, presidente da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer). Pettersen, que não está em exercício, já é alvo da Operação Sem Desconto desde novembro de 2025, quando sofre busca e apreensão sob suspeita de receber propina para defender interesses dos fraudadores.

De acordo com mensagens obtidas pela Polícia Federal, Lopes usa o acesso proporcionado por Pettersen, no dia da posse dos parlamentares, para alcançar o gabinete político mais alto do Senado. Em 1º de fevereiro de 2023, ainda no clima da eleição das mesas da Câmara e do Senado, ele relata que “Pacheco” havia sido eleito e que estava “indo encontrar com eles” para discutir quem comandaria o INSS.

No dia seguinte, 2 de fevereiro de 2023, o governo nomeia Glauco André Fonseca Wamburg para a presidência do INSS. Ele permanece no cargo até 11 de julho de 2023, quando é substituído por Alessandro Stefanutto. Para os investigadores, a coincidência entre o encontro descrito nas mensagens e a nomeação reforça a tese de que a cúpula do instituto é alvo direto da organização criminosa.

A PF sustenta que, além da presidência, outros postos estratégicos – como o diretor de benefícios e o procurador-geral do INSS – entram no radar dos fraudadores. O objetivo seria reduzir o risco de auditorias, desarmar mecanismos de controle e permitir que o esquema de descontos indevidos continue gerando receita ilícita em larga escala.

Quem são os investigados e o que diz Pacheco

Carlos Lopes, apontado como um dos líderes do esquema, está foragido desde o ano anterior à entrega do relatório. Ele é indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro em caráter majorado e reiterado, e corrupção ativa qualificada. O irmão dele, Tiago Abraão Lopes, também dirigente da Conafer, figura entre os 48 indiciados.

O deputado Euclydes Pettersen, citado como elo entre o grupo e o Senado, responde no mesmo inquérito. Para a PF, a atuação dele é vital para abrir portas em Brasília, oferecer legitimidade política às demandas dos fraudadores e facilitar o trânsito em gabinetes e órgãos públicos.

Em nota oficial, Rodrigo Pacheco contesta com veemência a versão dos investigadores. “Não conheço e nunca estive com o senhor Carlos Lopes e a senhora Bruna Braz. Nunca me reuni para tratar de indicação da pessoa de Glauco André Fonseca Wamburg que, aliás, eu sequer sabia que havia sido presidente do INSS. Também nunca fiz indicação alguma para o INSS e não conheço seus diretores e ex-diretores”, afirma o senador.

Ele afirma ainda que as informações podem resultar de uma leitura equivocada de mensagens que mencionam sua eleição à presidência do Senado. “Parece se estar diante de uma confusão de informações que misturou a notícia da minha eleição para presidente do Senado, um fato nacional mencionado por um cidadão de Minas Gerais, com outros assuntos que não me dizem respeito. A referência a ir se ‘encontrar com eles’ por certo não me inclui”, diz o texto.

Impacto sobre aposentados e sobre a política

A principal consequência prática das suspeitas recai sobre quem vive de um benefício previdenciário. Se confirmada, a captura de cargos estratégicos pelo grupo investigado ajuda a entender por que tantos aposentados relatam descontos misteriosos em seus extratos, muitas vezes em favor de associações que nunca autorizaram.

O relatório da Operação Sem Desconto descreve uma engrenagem que transforma a folha de pagamento do INSS em fonte constante de arrecadação criminosa. Cada desconto indevido, ainda que de poucos reais, representa perda direta para famílias que já vivem com renda apertada. Em escala nacional, o prejuízo alcança cifras milionárias.

No campo político, o caso pressiona o discurso de integridade institucional justamente no topo do Congresso. As suspeitas sobre a participação de um presidente do Senado num episódio ligado a fraudes contra idosos e pessoas vulneráveis ampliam o desgaste da classe política e alimentam a desconfiança sobre a forma como se distribuem cargos na máquina federal.

O episódio também reabre o debate sobre a influência de entidades privadas na Previdência pública. O papel da Conafer e de outras associações que se beneficiam de convênios e autorizações de desconto em folha passa a ser visto com mais desconfiança, o que pode provocar revisões de contratos e endurecimento de regras.

O que vem pela frente

Com o relatório nas mãos, cabe agora à Procuradoria-Geral da República decidir se apresenta denúncia ao Supremo, pede o arquivamento ou solicita novas diligências. A escolha vai definir se Rodrigo Pacheco e os demais investigados se tornam réus ou se o caso perde fôlego no Judiciário.

Se a PGR optar por denunciar, o processo tende a ter repercussões imediatas sobre o ambiente político em Brasília. Um presidente do Senado sob suspeita de envolvimento, ainda que indireto, em fraudes contra beneficiários do INSS pode se tornar alvo de pressões por explicações públicas, disputas internas e tentativas de desgaste por adversários.

Independentemente do desfecho judicial, a Operação Sem Desconto já pressiona por mudanças na fiscalização do INSS. Técnicos e entidades de defesa dos aposentados cobram revisão ampla dos mecanismos de autorização de descontos, mais transparência nas parcerias com associações e filtros rigorosos para nomeações na cúpula do órgão.

As próximas semanas serão decisivas para saber se as suspeitas descritas pela Polícia Federal vão se converter em ação penal e punições ou se ficarão restritas às páginas de um inquérito volumoso. A forma como as instituições respondem ao caso tende a influenciar não apenas o futuro político de Rodrigo Pacheco, mas também a confiança de milhões de segurados na capacidade do Estado de protegê-los de fraudes.

 

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