PF liga Pacheco a reunião sobre comando do INSS; senador nega

Relatório da PF menciona encontro de Pacheco sobre INSS, mas senador nega envolvimento na reunião e indicação para o cargo.
Redação NC News
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Relatório da Polícia Federal entregue ao Supremo em 10 de julho apontou que o senador Rodrigo Pacheco se reúne, em 1º de fevereiro de 2023, com o dirigente Carlos Lopes para discutir a nomeação do presidente do INSS. O encontro ocorreu em Brasília, no dia da posse dos parlamentares, e é descrito como decisivo para blindar um esquema de fraudes em aposentadorias e pensões. Pacheco nega ter participado da reunião ou feito qualquer indicação para o órgão.

Relatório fala em reunião e cargo-chave no INSS

O documento integra a Operação Sem Desconto, que mira um esquema nacional de descontos indevidos em benefícios previdenciários. Nas conclusões, a Polícia Federal afirma que mensagens de celular obtidas na investigação indicam a articulação para o encontro entre o então presidente do Senado, do PSB de Minas Gerais, e Carlos Lopes, chefe da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer).

Segundo o relatório, o deputado federal mineiro Euclydes Pettersen organiza a reunião na data da posse dos novos congressistas. Os investigadores descrevem o movimento como parte da estratégia do grupo para assumir postos de comando no Instituto Nacional do Seguro Social, órgão responsável pela gestão de aposentadorias e pensões em todo o país.

No texto encaminhado ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, a PF escreve: “As mensagens provam que, no dia da posse dos parlamentares (01/02/2023), possivelmente utilizando os acessos proporcionados por EUCLYDES, CARLOS ROBERTO se reuniu com o Senador RODRIGO PACHECO para tratar da nomeação do Presidente do INSS. Essa nomeação de cargos-chave (Presidente, Diretor de Benefícios e Procurador-Geral) era fundamental para garantir a boa fluidez do esquema e a blindagem contra as auditorias, permitindo que a fraude em massa (Tópico 2) continuasse a gerar a receita ilícita”.

As conclusões são apresentadas ao Supremo em 10 de julho de 2026 e incluem o indiciamento de 48 pessoas por crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção ativa. Entre os citados estão Carlos Lopes, seu irmão Tiago Abraão Lopes, também dirigente da Conafer, e o próprio Euclydes Pettersen.

Nomeação no dia seguinte e avanço das fraudes

De acordo com a PF, o encontro ocorre em meio às negociações pela presidência do INSS. Na mesma sequência de mensagens, Carlos Lopes comenta a eleição das mesas da Câmara e do Senado e menciona que “Pacheco” está eleito e “indo encontrar com eles” para decidir o comando do instituto.

O relatório relaciona essa movimentação à escolha feita no dia seguinte à posse. “Verifica-se que, no dia seguinte à posse de EUCLYDES e ‘Pacheco’ (02/02/2023), GLAUCO ANDRÉ FONSECA WAMBURG foi nomeado Presidente do INSS, cargo que ocupou até 11/07/2023, quando foi substituído por ALESSANDRO STEFANUTTO”, registram os investigadores.

Para a PF, a presidência do órgão, ao lado da diretoria de benefícios e da procuradoria-geral, representa um ponto de controle essencial para o grupo que explora descontos indevidos sobre aposentadorias e pensões. O esquema, detalhado na Operação Sem Desconto, depende de acesso privilegiado a dados de segurados e de margem para autorizar ou manter retenções questionadas por beneficiários, muitas vezes sem consentimento.

O relatório sustenta que, com aliados em cargos estratégicos, a organização criminosa ganharia fôlego para continuar a fraude em massa e reduzir o risco de auditorias internas e externas. A leitura dos investigadores é que essa captura da máquina pública amplia os danos ao sistema previdenciário e dificulta a correção de irregularidades, mesmo quando as vítimas procuram o INSS.

Negativa de Pacheco e indiciamentos na cúpula da Conafer

Em nota, Rodrigo Pacheco reage às citações e nega qualquer participação na articulação. O senador afirma desconhecer os personagens centrais do relatório e diz que não discutiu nomeações ligadas ao instituto responsável pela Previdência.

“Não conheço e nunca estive com o senhor Carlos Lopes e a senhora Bruna Braz. Nunca me reuni para tratar de indicação da pessoa de Glauco André Fonseca Wamburg que, aliás, eu sequer sabia que havia sido presidente do INSS. Também nunca fiz indicação alguma para o INSS e não conheço seus diretores e ex-diretores”, afirma Pacheco.

O senador, que preside o Senado à época dos fatos e hoje segue como um dos principais quadros do PSB mineiro, sustenta que houve erro de interpretação. “Parece se estar diante de uma confusão de informações que misturou a notícia da minha eleição para presidente do Senado, um fato nacional mencionado por um cidadão de Minas Gerais, com outros assuntos que não me dizem respeito. A referência a ir se ‘encontrar com eles’ por certo não me inclui”, completa.

Carlos Lopes, apontado como peça central do esquema, está foragido desde o ano passado, segundo a PF. “Carlos Lopes foi indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro em caráter majorado e reiterado e corrupção ativa majorada. Ele está foragido desde o ano passado”, registra o relatório. Seu irmão, Tiago Abraão Lopes, também figura entre os 48 indiciados.

Euclydes Pettersen, deputado federal por Minas Gerais, é outro foco da apuração. Em 2025, ele é alvo de busca e apreensão na Operação Sem Desconto, sob suspeita de receber propina para defender interesses do grupo de fraudadores. Embora não estivesse em exercício na Câmara no momento da ação policial, aparece nas mensagens como articulador do acesso político à cúpula do Senado.

Impacto sobre o INSS, a política e os próximos passos

O caso coloca o INSS, já pressionado por filas e desconfiança, no centro de uma disputa que mistura bastidores políticos e investigação criminal. A suspeita de que a presidência do instituto pode ser usada para blindar fraudes reforça a percepção de vulnerabilidade da Previdência, que concentra bilhões de reais em pagamentos mensais a aposentados, pensionistas e pessoas com benefícios assistenciais.

A eventual participação de figuras do primeiro escalão do Congresso, ainda que negada, amplia o desgaste institucional. Para Pacheco, o avanço do inquérito abre uma frente de risco político e jurídico, com potencial para afetar sua imagem pública, seu partido e eventuais projetos eleitorais futuros. A pressão se intensifica em um ambiente em que a atuação de senadores e deputados sobre nomeações em estatais e autarquias já enfrenta questionamentos.

No Ministério Público, as conclusões da PF seguem agora para avaliação da Procuradoria-Geral da República. Caberá ao órgão decidir se apresenta denúncia ao Supremo, pede o arquivamento do caso ou solicita novas diligências. Nenhuma dessas alternativas é neutra: uma acusação formal pode redesenhar o tabuleiro político em Brasília; um arquivamento, se vier, tende a provocar reações de entidades de controle e da oposição.

As próximas decisões também podem alimentar um debate mais amplo sobre transparência em cargos de comando no serviço público, em especial em áreas sensíveis como a Previdência. A forma como a Justiça e os órgãos de controle lidarem com o caso ajudará a definir se o episódio se encerra como um ponto fora da curva ou se abre caminho para mudanças mais profundas nas regras de indicação e supervisão de dirigentes de autarquias federais.

 

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