A Polícia Civil do Rio de Janeiro e o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) deflagraram, nesta quarta-feira (15), a Operação Hawala, que investiga uma sofisticada rede de lavagem de dinheiro suspeita de movimentar mais de R$ 100 milhões provenientes de atividades criminosas.
Segundo as investigações, a estrutura financeira prestava serviços ao Terceiro Comando Puro (TCP) e também teria sido utilizada para ocultar recursos ligados ao Comando Vermelho (CV) e ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A operação cumpre mandados de prisão e de busca e apreensão no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Foz do Iguaçu, no estado do Paraná. Até o momento, oito pessoas foram presas.
Esquema teria movimentado mais de R$ 100 milhões
A investigação começou a partir de apurações sobre a atuação do TCP no Complexo de São Carlos, conjunto de comunidades localizado na Região Central da cidade do Rio de Janeiro.
Durante as diligências, os investigadores concluíram que a mesma estrutura financeira também era utilizada por outras organizações criminosas.
Segundo a Polícia Civil, entre 2021 e 2024, o grupo movimentou mais de R$ 100 milhões por meio de dezenas de empresas de fachada distribuídas em diferentes estados.
A suspeita é de que essas empresas fossem usadas para dar aparência legal a recursos obtidos com tráfico de drogas, receptação qualificada e comércio de produtos falsificados.
Empresas de fachada e movimentações financeiras
De acordo com a investigação, o grupo utilizava diferentes mecanismos para ocultar a origem do dinheiro.
- Entre eles estavam:
- empresas de fachada;
- transferências entre pessoas jurídicas ligadas ao grupo;
- depósitos fracionados em dinheiro;
- utilização de terceiros para movimentações bancárias;
- operações incompatíveis com a renda declarada dos investigados.
As análises financeiras contaram com apoio do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) da Polícia Civil.
Investigação apura possível conexão internacional
Durante as apurações, os investigadores identificaram um núcleo de empresários de origem libanesa que, segundo a polícia, ajudaria a ampliar a circulação interestadual e internacional dos recursos.
A investigação aponta que empresas registradas em São Paulo e Minas Gerais eram utilizadas para movimentar valores entre operadores financeiros e integrantes das organizações criminosas.
Também foram identificados indícios de movimentações na chamada Tríplice Fronteira, região onde se encontram Brasil, Paraguai e Argentina, área monitorada por autoridades nacionais e internacionais por suspeitas de lavagem de dinheiro e financiamento de organizações criminosas e grupos extremistas.
Segundo a Polícia Civil, a análise das provas também busca esclarecer uma possível relação comercial entre uma empresa investigada e um indivíduo sancionado pelo Office of Foreign Assets Control (OFAC), órgão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
De acordo com os investigadores, esse indivíduo é apontado pelas autoridades norte-americanas como integrante de uma estrutura de financiamento da organização Al-Qaeda.
A polícia ressalta que essa possível ligação ainda está sendo aprofundada durante a investigação.
Contador é apontado como facilitador do esquema
As investigações também apontam que um contador teria desempenhado papel importante na estrutura financeira.
Segundo a Polícia Civil, ele seria responsável pela escrituração de empresas utilizadas no esquema e por conferir aparência de legalidade às operações.
Os investigadores afirmam que ele já havia aparecido em outras apurações relacionadas a fraudes societárias.
Operação busca sufocar financeiramente facções
Além das prisões e buscas, a Justiça determinou medidas de bloqueio de ativos financeiros, indisponibilidade de bens e participações societárias dos investigados.
Segundo a Polícia Civil e o MPRJ, o objetivo da Operação Hawala é desarticular a estrutura financeira utilizada pelas organizações criminosas e identificar outros integrantes do esquema.
As investigações continuam em cooperação com órgãos nacionais e internacionais especializados no combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.
Entenda o contexto
A lavagem de dinheiro é o processo utilizado para ocultar ou disfarçar a origem ilícita de recursos obtidos por atividades criminosas, permitindo que esse dinheiro circule na economia com aparência de legalidade.
Segundo a Polícia Civil, organizações criminosas costumam utilizar empresas de fachada, movimentações bancárias complexas e terceiros para dificultar o rastreamento dos valores.
Neste caso, as autoridades investigam uma estrutura que, de acordo com as apurações, teria atendido diferentes facções criminosas com atuação no Brasil.