Um grupo que usava inteligência artificial para criar falsas vaquinhas com crianças com câncer foi alvo de operação policial deflagrada ontem, 14. Dezesseis suspeitos são presos em cinco estados após desviar doações que deveriam bancar tratamentos caros.
Golpe explora dor de famílias e abala confiança
A investigação da Polícia Civil do Rio Grande do Sul apontou que o esquema movimenta mais de R$ 1,7 milhão em contas de empresas de fachada. A fraude atingiu em cheio a confiança de quem doa online para causas sensíveis, como o tratamento de crianças com câncer, e ameaçou a credibilidade de campanhas legítimas.
Doadores acreditaram contribuir com remédios e exames, mas o dinheiro somiu em contas controladas pelo grupo. Famílias de pacientes, como a de uma menina gaúcha, descobriram que sua dor virou matéria-prima de vídeos falsos, montados com deepfake e clonagem de voz.
Como funcionava a falsa vaquinha com IA
Segundo o delegado João Vitor Herédia, da Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos (DRCPE), o grupo profissionaliza o estelionato digital ao misturar tecnologia avançada e técnicas clássicas de enganação.
“O grupo utilizava ferramentas de inteligência artificial, deepfake e clonagem de voz para alterar campanhas verdadeiras. As publicações eram feitas por páginas falsas com nomes como ‘Clube de Doadores’ e ‘Unidos pelo Amor'”, afirma Herédia.
Nessas páginas, anúncios patrocinados circulam em redes sociais com fotos de crianças carecas, tubos, leitos de hospital. Em alguns casos, os criminosos se apropriam de campanhas reais já encerradas e as ressuscitam com novos textos e vídeos manipulados.
Ao clicar no anúncio, o doador cai em sites que imitam plataformas legítimas de arrecadação, como o Vakinha. A identidade visual, os campos de preenchimento e até mensagens de agradecimento são copiados para afastar qualquer desconfiança.
Na etapa final, o sistema gera um código Pix que parece comum. O valor, porém, segue direto para contas de empresas de fachada ligadas ao núcleo financeiro do grupo, identificado pela polícia como responsável por movimentar mais de R$ 1,7 milhão no período investigado.
A menina gaúcha e os R$ 294,5 mil desviados
Entre os casos rastreados, um chama a atenção dos investigadores. A imagem de uma menina gaúcha em tratamento contra o câncer é usada sem autorização em uma campanha fraudulenta que desvia R$ 294,5 mil de doadores bem-intencionados.
Nos vídeos, a criança aparece em cenas reais de seu tratamento, mas a voz é outra. A fala é criada por inteligência artificial para parecer infantil, frágil, suplicante. “O remédio que pode me ajudar é muito caro. E a mamãe disse que a gente já vendeu tudo. Se você puder ajudar, qualquer valor já me dá mais um dia com a minha mãe. Se você puder me ajudar, clica no botãozinho aqui embaixo”, diz a mensagem falsa.
A mãe, Kelen Santos, descobre o golpe quando começa a receber mensagens de desconhecidos comemorando doações que jamais chegam. O choque logo vira revolta.
“Foi horrível. A gente perdeu o sono, eu chorei muito porque não era só questão da imagem dela. Mas eles estarem usando a nossa dor para se aproveitar, para ganhar dinheiro e principalmente pelas pessoas que estavam doando”, relata.
A família de Kelen de fato organiza uma vaquinha verdadeira no passado, para custear o tratamento da menina. A campanha legítima é encerrada depois que a meta é alcançada. O tratamento acontece e o quadro de saúde da criança melhora. Mesmo assim, a imagem dela continua circulando nas versões falsificadas, fora do controle da família.
Operação em cinco estados e crimes investigados
A ofensiva policial mira a estrutura do grupo em diferentes regiões do país. As prisões ocorrem em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e em cidades de quatro outros estados: Francisco Beltrão e Cruzeiro do Iguaçu, no Paraná; Piracicaba, em São Paulo; Dourados, em Mato Grosso do Sul; e Vitória de Santo Antão, em Pernambuco.
No total, 16 pessoas são presas no dia 14 de julho. Os suspeitos devem responder por estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. A polícia ainda não sabe quantas crianças com doenças graves aparecem nas campanhas falsificadas espalhadas pela internet.
O alvo não se limita às famílias expostas. Cada doador que acredita estar ajudando uma criança específica e tem seu dinheiro desviado também entra na lista de vítimas. Em muitos casos, essas pessoas só descobrem o golpe ao procurar diretamente a família para oferecer apoio nas redes sociais.
Plataformas e terceiro setor sob pressão
O uso de deepfake e clonagem de voz inaugura uma nova fase dos golpes com vaquinhas na internet. A fronteira entre o verdadeiro e o falso fica mais difusa, principalmente quando o apelo mexe com a ideia de salvar uma vida.
Plataformas de arrecadação digital, que sustentam boa parte do terceiro setor e de campanhas individuais, veem sua credibilidade ameaçada. Instituições sérias e famílias que dependem dessas ferramentas para bancar tratamentos, cirurgias e medicamentos correm o risco de enfrentar desconfiança crescente.
Para as famílias das crianças exploradas, o dano é duplo. Além da doença, precisam lidar com a exposição não consentida de imagens íntimas, muitas vezes em momentos de maior fragilidade. Kelen lembra da mistura de vergonha e impotência ao explicar a doadores que, na verdade, eles caíram em um golpe.
Para especialistas em direito penal, casos assim reforçam o debate sobre proteção de dados, imagem e prioridade de defesa para pessoas vulneráveis, como crianças gravemente doentes. O tema deve ganhar espaço em propostas de regulação de inteligência artificial e em normas específicas para doações digitais.
O que muda para quem doa e próximos passos da investigação
As orientações da Polícia Civil são diretas. Antes de transferir qualquer valor, o doador precisa conferir se o nome que aparece no Pix corresponde ao beneficiário real ou à instituição responsável. Em campanhas individuais, a recomendação é buscar contato direto com a família, conferir perfis oficiais e desconfiar de links que levem para sites pouco conhecidos, mesmo que se pareçam com plataformas famosas.
As plataformas de vaquinhas tendem a apertar filtros de segurança, exigindo mais comprovação de identidade e monitoramento de campanhas que envolvem doenças graves, especialmente em nome de crianças. O custo disso pode ser maior burocracia para quem organiza ações legítimas, mas também menos espaço para fraudadores.
A investigação da Polícia Civil do Rio Grande do Sul continua. A expectativa é rastrear novas contas, identificar outras crianças usadas sem consentimento e mapear o percurso completo do dinheiro desviado. Também ganha força a ideia de campanhas educativas permanentes, que ajudem o público a reconhecer sinais de fraude em meio a vídeos e áudios cada vez mais convincentes, produzidos com inteligência artificial.
No centro dessa disputa entre tecnologia e crime, famílias como a de Kelen tentam retomar o controle sobre suas histórias. A mãe ainda responde a mensagens de desconhecidos que, de boa-fé, acreditam ter ajudado a filha. A cada conversa, repete a mesma frase: o problema não está em doar, mas em quem transforma a solidariedade em negócio criminoso.