O pré-candidato à Presidência, Renan Santos (MBL) decidiu atacar em duas frentes: as chamadas pautas-bomba aprovadas pelo Senado e o uso das emendas parlamentares. Presidente do partido Missão afirmou que as medidas votadas pelos senadores “vão destruir o orçamento” e anuncia que seu partido vai abrir, em detalhes, todas as emendas que indicou ao orçamento federal.
Crítica às pautas que pressionam o caixa público
O alvo imediato de Renan é a proposta de emenda à Constituição que cria aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde. A medida avança no Congresso em meio a alertas da equipe econômica sobre o impacto fiscal para União, Estados e municípios. Na avaliação do pré-candidato, a PEC se soma a outras votações recentes que estouram gastos e empurram a conta para o próximo governo.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Renan classifica essas medidas como sabotagem. “O Congresso Nacional, tomado pelo Centrão, acabou de aprovar duas pautas-bomba que vão destruir o orçamento do Brasil e parece que isso já é uma sabotagem com o próximo governo, porque isso não vai interferir muito no governo atual, vai interferir no próximo”, diz.
Ele se refere, além da PEC da aposentadoria especial, ao projeto que limita a 5% o percentual que a União pode reter dos repasses do Fundo de Participação dos Estados e do Fundo de Participação dos Municípios para pagamento de dívidas previdenciárias. A PEC depende de promulgação do Congresso, enquanto o projeto segue para a Câmara. A combinação das duas iniciativas tende a aumentar despesas previdenciárias e reduzir margem de manobra do Tesouro.
Direita, Centrão e o cálculo eleitoral
Renan tenta se posicionar num espaço próprio no campo da direita, em disputa com nomes mais consolidados. Ele acusa parlamentares identificados como conservadores de se aliarem à esquerda em votações que elevam gastos públicos. “Os direitistas, que querem assumir o poder no ano que vem, deviam estar preocupados com as contas públicas”, afirma.
O ataque mais direto mira o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL ao Planalto. “Senhor Flávio Bolsonaro, o senhor quer ganhar as eleições ou você só está fingindo? Porque você vota com a esquerda todas as vezes, sempre para estourar conta pública”, dispara.
Renan já vinha tentando diferenciar sua candidatura da de outros nomes de oposição ao governo. No mês anterior, afirmou que não aceita “passar pano” para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, mantém abertas pontes com outros presidenciáveis, como Ronaldo Caiado, do PSD, e Romeu Zema, do Novo, desde que, segundo ele, uma eventual aliança “faça sentido”.
As pesquisas, por ora, mostram o Missão em posição modesta. No levantamento Genial/Quaest mais recente, divulgado também em 15 de julho, Renan aparece com 3% das intenções de voto, em quarto lugar. Fica atrás de Ronaldo Caiado, com 4%, e distante de Flávio Bolsonaro, com 28%, e de Lula, com 40%, que seguem polarizando a disputa.
Emendas sob escrutínio e desafio aos rivais
No mesmo dia em que ataca o Senado, Renan escolhe apoiar uma iniciativa do Supremo Tribunal Federal que atinge diretamente os partidos. Ele elogia a decisão do ministro Flávio Dino de intimar presidentes de 21 legendas a explicarem, em até 10 dias úteis, a indicação de emendas parlamentares. Chama a medida de oportunidade para “meter o pente fino” no que considera um sistema viciado.
Em vídeo enviado a um veiculo de comunicação, ele prometeu colaboração total. “Vamos não apenas prestar contas. Vamos explicar todas as emendas e contar em detalhes como e porque nós enviamos, porque não estamos no orçamento secreto e porque o nosso partido é absolutamente à frente dos outros”, afirmou.
Renan diz que pretende “prestar todas as contas possíveis” ao Supremo, “tornando públicas as emendas do orçamento secreto”. Na sequência, transforma a resposta ao STF em arma política, ao desafiar os demais dirigentes partidários a seguirem o mesmo caminho. O recado tem endereço certo: o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, cuja entrevista sobre interferência de caciques na destinação de emendas motivou a intimação de Dino.
A crítica de Renan mira o que ele descreve como um esquema sistêmico de desvio de recursos. “É tudo roubalheira”, resume. Em sua descrição, o caminho da verba pública até a compra de votos é direto. “A base da compra de votos é emenda desviada na base, enviada pelo deputado para o seu prefeito, seu prefeito operando com construtoras, empreiteiras, isso rodando grana que depois é superfaturada usada para comprar voto de eleitor”, afirma.
Orçamento, transparência e disputa eleitoral
As duas frentes de atuação de Renan se cruzam no tema central de sua pré-campanha: responsabilidade fiscal com transparência na política. Ao criticar as pautas-bomba, ele busca falar ao eleitor preocupado com inflação, juros altos e cortes em serviços públicos. O argumento é que novas despesas obrigatórias, como a aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde, comprimem o espaço para investimentos em outras áreas e podem exigir aumento de impostos ou endividamento.
Setores ligados à saúde comunitária veem a PEC como reconhecimento ao desgaste do trabalho na linha de frente em periferias e áreas rurais. Para economistas do governo e de fora dele, no entanto, a medida abre uma porta difícil de fechar para a ampliação de regimes especiais a outras categorias, com risco de efeito cascata nas contas previdenciárias.
Ao mesmo tempo, a bandeira da transparência nas emendas o coloca em rota de colisão com a prática consolidada do chamado orçamento secreto, usado para irrigar bases eleitorais com baixa visibilidade pública. A decisão de Dino pressiona presidentes de partidos a detalhar critérios de distribuição de recursos que, por anos, ficaram restritos a acordos internos.
Renan tenta aproveitar a janela. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília e com passagem por redações como Correio Braziliense e pelo monitor de dados Arko Alerta, além de experiência na comunicação do Ministério da Fazenda, ele se apresenta como alguém que conhece por dentro o funcionamento do orçamento e da máquina pública. Ao se colocar “à frente dos outros” na abertura de informações, busca diferenciar o Missão tanto de siglas tradicionais do Centrão quanto de legendas de direita hoje maiores que o seu partido.
A estratégia tem riscos. Se as explicações prometidas não vierem com o grau de detalhe anunciado, o discurso anticorrupção pode perder força. Se Dino avançar para investigações formais sobre desvios e superfaturamento em emendas, dirigentes e parlamentares de várias siglas podem ser atingidos, o que tende a elevar a tensão com o Congresso. Por outro lado, se a pressão judicial e política resultar em mais transparência, o modelo atual de distribuição de recursos tende a mudar.
Nas próximas semanas, o relógio dos 10 dias úteis dados pelo ministro do STF começa a contar para os 21 partidos intimados. A forma como cada legenda responderá ao pedido de explicações e como o Senado lidará com o custo das pautas-bomba devem ajudar a definir o tom da campanha presidencial de 2026. Renan aposta que, num ambiente de orçamentos apertados e crescente desconfiança com a política, defender contas públicas e abrir a caixa-preta das emendas pode render mais do que prometer novos benefícios sem dizer quem paga a conta.