Cinco dias após o acidente com um Porsche em Campinas, que mata dois jovens na sexta-feira (10), o corpo de Lívia Bevilacqua Batista, 20, continua retido no Instituto Médico Legal. A família espera pela liberação para poder realizar o velório e o enterro, enquanto a mãe descreve o momento como um “antiluto”.
Angústia familiar diante da espera
A demora na liberação transforma a rotina da família em um ciclo de idas e vindas a delegacias, ligações a órgãos públicos e tentativas de obter informações. A confirmação oficial de que o corpo é de Lívia sai apenas na segunda-feira (14), mas, até a noite de terça (15), não há previsão de quando o procedimento pericial termina.
A mãe, Danila Bevilacqua, fala em exaustão emocional. “A gente está passando por um período que eu ainda nem chamo de luto. É um antiluto de muito sofrimento. Porque a gente está sofrendo essa perda e a gente não tem essa vivência material dela, física, para poder enterrar ela, se despedir dela”, diz.
Ela afirma respeitar a necessidade de perícia, mas cobra clareza. “Isso para a gente está sendo muito angustiante, e sem entendermos o porquê. Respeitando os prazos, respeitando tudo que tem que ser feito, mas com muitas desinformações, muita coisa que a gente não está conseguindo identificar o que está acontecendo”, relata.
O acidente e os primeiros dias
O acidente ocorre na noite de 10 de julho de 2026, na altura do km 93 da Rodovia Francisco Von Zuben (SP-091), em Campinas. Imagens de segurança mostram o Porsche em alta velocidade antes de atingir uma árvore. O carro explode e pega fogo.
O veículo é conduzido por Arthur Rodrigues de Souza, estudante de medicina de 20 anos, morador de Albertina, no sul de Minas. Na passagem por Campinas, ele busca Lívia em casa para um jantar, segundo relata a irmã dela, Bianca Bevilacqua. Horas depois, os dois estão mortos entre as ferragens.
A notícia de um acidente com um carro de luxo nas proximidades chega antes da confirmação de quem são as vítimas. O pai de Lívia, Adilson Silvio Batista, conta que a angústia começa no momento em que a família liga o alerta. “A partir daí começou a angústia”, resume.
Ele vai ao local do acidente em busca de respostas. Entre destroços queimados, encontra objetos da filha e roupas que reconhece imediatamente. “Chegando lá tive a certeza que era minha filha pela roupa do corpo. Ela e o rapaz, os dois muito bem difíceis de identificar, mas ela, pela roupa, eu identifiquei no primeiro momento”, afirma.
Enquanto o corpo de Arthur é identificado e liberado com rapidez, sendo sepultado no domingo (12) no Cemitério Municipal de Albertina, o de Lívia permanece sob análise pericial em Campinas. No boletim de ocorrência, o nome da jovem já aparece como vítima, mas isso não basta para o IML autorizar a retirada.
Exigência pericial e investigação por homicídio culposo
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informa, em nota, que a liberação depende da identificação oficial conduzida pela Polícia Técnico-Científica. Esse procedimento segue protocolos que preveem exames papiloscópicos, odontológicos, de DNA ou outros métodos, conforme o estado do corpo.
Em acidentes com fogo intenso, como neste caso, a identificação visual feita por familiares não é considerada suficiente. Técnicos trabalham com o que restou de tecidos, arcada dentária e material genético para evitar qualquer chance de erro. Só após o laudo final o corpo pode ser entregue.
O próprio pai entrega às autoridades tudo o que é solicitado. “Toda a arcada dentária, fotos dela, filmagem, filmagem do carro, filmagem do local que ela saiu. Tudo, tudo. Tudo o que pediram e o meu DNA. Não tem mais o que fazer”, relata Adilson. Ainda assim, ele diz não receber qualquer previsão: “A gente não tem uma posição. Falam em tempo indeterminado. Não tem previsão”.
A Polícia Civil abre inquérito e passa a tratar o caso como homicídio culposo na direção de veículo automotor. A tipificação indica morte sem intenção de matar, provocada por imprudência, negligência ou imperícia do condutor. Caberá à investigação apontar se houve excesso de velocidade, manobra arriscada ou outra conduta que configure culpa.
Sofrimento prolongado e falhas de comunicação
O acidente se soma à longa lista de acidentes em rodovias hoje em São Paulo. Imagens do Porsche em chamas circulam em redes sociais e em grupos de mensagens antes de qualquer nota oficial, o que alimenta rumores e aumenta a ansiedade de famílias que buscam parentes desaparecidos.
No caso de Lívia, o que se prolonga não é só o procedimento técnico, mas um vazio de informações claras. Danila e Adilson afirmam que não recebem explicações detalhadas sobre o andamento dos exames, nem sobre prazos mínimos e máximos. A cada dia que passa sem velório, a percepção de desamparo cresce.
A SSP argumenta que a inclusão do nome de Lívia no boletim serve para qualificar a ocorrência com base no que foi colhido junto a testemunhas e familiares. Esclarece também que esse registro não substitui a confirmação científico-legal da identidade. Na prática, porém, a distinção entre esses dois níveis de reconhecimento pouco chega à família em linguagem acessível.
Especialistas em luto apontam que rituais como velório e sepultamento são parte central do processo de despedida. Quando esses atos são adiados por dias, como neste acidente de trânsito hoje em Campinas, a dor tende a se agravar. A mãe descreve exatamente essa sensação, condensada na palavra que escolheu: “antiluto”.
Consequências e debates que se abrem
Os próximos dias devem ser decisivos para o encerramento da etapa pericial e a liberação do corpo de Lívia. Em paralelo, a Polícia Civil avança na reconstituição do que ocorre na noite de 10 de julho, cruzando imagens de câmeras de segurança, relatos de testemunhas e dados sobre o trajeto do Porsche.
O inquérito pode desaguar em ações penais e cíveis que discutam responsabilidade pela condução do veículo, eventual ressarcimento de danos à família e os limites da culpa em acidentes de trânsito com jovens ao volante. Episódios assim reacendem o debate sobre direção em alta velocidade, fiscalização em vias urbanas e a diferença de impacto entre um carro de luxo potente e veículos comuns, temas presentes em discussões sobre acidentes em rodovias hoje e em outras regiões do país.
A forma como o Estado lida com a etapa mais sensível, que é a devolução do corpo às famílias, também entra em pauta. A demora no caso de Lívia expõe um gargalo que vai além da perícia: a comunicação com parentes em situação de extrema fragilidade. Enquanto a investigação busca respostas técnicas, quem espera por notícias lida com um tempo diferente, marcado por relógios que andam mais devagar.
Quando o laudo finalmente ficar pronto e o corpo for liberado, a família de Lívia terá, enfim, a possibilidade de um adeus. A pergunta que permanece é quanto desse dano emocional será possível reparar, mesmo depois de encerrados os procedimentos policiais e periciais.