Porta dos Fundos revela ameaças e relembra tensão após atentado no Rio

Elenco do Porta dos Fundos comenta os desafios enfrentados após críticas a milícias e religião no Rio de Janeiro.
Redação NC News
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Integrantes do Porta dos Fundos relatam, que na última terça-feira, 14, que vivem ameaças de morte, intimidações e até atentado a bomba depois de piadas sobre milícia e religião. Os humoristas descrevem segurança privada, blitz policial com ameaça velada e um ataque com coquetéis molotov à sede do grupo no Rio.

Ameaças que atravessam a tela

O relato vem à tona durante o Conversa com Bial, na noite em que o coletivo comemora 15 anos de existência. Na TV, Fábio Porchat, Gregório Duvivier e João Vicente de Castro narram o que chamam de escalada de violência contra o grupo.

Porchat resume a sensação de ultrapassar o limite do debate público e entrar no campo da intimidação física. “A gente faz uma piada e a pessoa fica tão mexida com isso que joga bomba e ameaça de morte”, diz o humorista, ao lembrar esquetes sobre policiais, milicianos e temas religiosos.

As ameaças não se restringem às redes sociais. Duvivier conta que passa cerca de três meses com segurança particular, período em que a proteção se torna parte da rotina, inclusive com a filha, então com dois anos. “Foi uma época muito tensa”, afirma.

Na prática, o humorista deixa de circular sozinho, muda trajetos e horários, calcula saídas de casa. A presença constante de um profissional de segurança ao lado de uma criança escancara o impacto pessoal de um conflito que começa como disputa de narrativas e termina em medo concreto.

Blitz, recado e silêncio

João Vicente de Castro relata o episódio mais simbólico da tensão. Ele está em um carro com Ian SBF e Gabriel Totoro quando o veículo é parado em uma blitz no Rio. Segundo o ator, os três ficam retidos por cerca de duas horas.

Ao final da abordagem, um policial se aproxima e solta a frase que, para o grupo, funciona como recado: “Se eu fosse da velha guarda, você não sairia daqui hoje”. Não há prisão, não há multa, não há registro formal. Fica a ameaça velada, impossível de provar, difícil de esquecer.

Os humoristas não informam a data exata da blitz nem identificam o agente. O relato, porém, reforça a suspeita de que parte da reação às sátiras envolve policiais e milicianos citados em vídeos do canal Porta dos Fundos no YouTube.

A ambiguidade da cena explicita o lugar desconfortável em que o grupo passa a viver: um espaço em que o poder de polícia e o poder armado de milícias se confundem, e no qual a fronteira entre crítica e retaliação se torna nebulosa.

O Natal em que as bombas chegaram

O momento mais grave dessa escalada ocorre em 24 de dezembro de 2019. Na véspera de Natal, coquetéis molotov são lançados contra a sede do Porta dos Fundos, no Rio. Ninguém morre, mas as imagens do fogo em plena noite de festa correm o país.

A investigação aponta que o ataque é motivado pela reação extremista ao especial de fim de ano “A Primeira Tentação de Cristo”, que retrata Jesus em uma relação homoafetiva. O vídeo provoca indignação em grupos religiosos conservadores e vira alvo de campanhas de boicote e linchamentos virtuais.

O atentado é reivindicado por um grupo de inspiração integralista. Um dos envolvidos, Eduardo Fauzi, deixa o Brasil depois da ação e passa a ser apontado como foragido, até ser localizado na Rússia. O caso aprofunda o debate sobre o limite entre crítica religiosa e violência política.

Em editorial sobre o episódio, o Jornal de Brasília tenta delimitar essa fronteira: “Uma coisa é não gostar de uma piada, reclamar, escrever textão ou deixar de acompanhar um humorista. Outra é transformar artistas em alvo, obrigar uma criança a conviver com seguranças e criar um ambiente de medo. Isso já não tem relação com liberdade de expressão. Tem relação com intimidação”.

Liberdade de expressão sob pressão

A sequência de ameaças, blitz e bombas aponta para um cenário em que a liberdade de expressão deixa de ser tema abstrato. No Rio, onde milícias se expandem há anos, o humor que mira esses grupos passa a carregar risco adicional.

O efeito prático não recai apenas sobre Porchat, Duvivier e João Vicente. Outros roteiristas, atores e produtores observam o caso e avaliam até onde podem ir. A possibilidade de que uma piada renda escolta armada ou ameaça policial cria um ambiente propício à autocensura.

Grupos paramilitares e setores da própria estrutura de segurança pública ganham, assim, um poder informal de veto. Ao reagir com intimidação, acabam influenciando o debate público sem precisar de lei, decisão judicial ou instância regulatória.

Na outra ponta, o setor cultural perde musculatura crítica. A comédia, que tradicionalmente testa limites e expõe contradições sociais, passa a calibrar o texto não só pelo riso, mas pelo medo. Projetos são adiados, roteiros são reescritos, temas sensíveis ficam na gaveta.

O que vem depois da ameaça

Os relatos no Conversa com Bial não trazem anúncio de recuo. O elenco afirma que segue produzindo vídeos, especiais e esquetes para o canal Porta dos Fundos no YouTube e para plataformas de streaming. O humor, garantem, continua satírico e crítico.

O custo, porém, já está pago: meses de segurança particular, mudança de rotina, exposição de familiares e um atentado registrado em delegacia. O caso passa a ser referência para discussões sobre direitos civis, segurança pública e o papel das instituições no enfrentamento às milícias.

Os próximos passos dependem menos dos artistas e mais da resposta estatal. Sem investigação efetiva, punição a responsáveis e proteção clara a quem cria conteúdo crítico, a tendência é que o medo silencie projetos futuros. A pergunta que fica é se o país aceita que bombas e ameaças decidam o que pode ou não ser dito em cena.

 

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