Rússia reage e nega nova acusação de interferência eleitoral nos EUA

Kremlin rejeita acusações recentes de interferência nas eleições americanas após declarações de Trump.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A Rússia voltou a negar, nesta sexta-feira (17), as acusações dos Estados Unidos de tentativa de interferência nas eleições americanas. A reação ocorreu um dia depois de o presidente Donald Trump usar um pronunciamento em rede nacional para acusar China e governo russo de tentar influenciar sobretudo a eleição presidencial de 2020, vencida por Joe Biden.

Discurso de Trump reacende disputa

O novo capítulo da crise começou na noite de ontem, 16, em Washington. Em um pronunciamento de tom dramático, Trump anuncia a abertura de cinco grupos de documentos antes sigilosos da Casa Branca. Afirma que os papéis comprovariam fraudes eleitorais que teriam lhe custado a reeleição e diz ter pedido ao diretor do FBI, Kash Patel, uma investigação específica sobre a China.

No discurso, o republicano tenta apoiar suas alegações em relatórios oficiais, embora nenhum deles aponte fraude comprovada. “Esta noite, estamos publicando uma série de avaliações anteriormente sigilosas da comunidade de inteligência dos Estados Unidos e outros relatórios que comprovam que o nosso governo há muito tempo sabe que essas máquinas são extremamente vulneráveis a ataques. Como afirma uma dessas avaliações: ‘Avaliamos que os adversários dos Estados Unidos, incluindo, no mínimo, Rússia, China, Irã e Coreia do Norte, bem como grupos não estatais, têm capacidade de comprometer a infraestrutura eleitoral dos Estados Unidos’”, afirma.

Trump voltou a relacionar sua derrota em 2020 à suposta vulnerabilidade do sistema, a mesma narrativa que alimenta, em 6 de janeiro de 2021, a invasão do Capitólio por apoiadores inconformados com a vitória de Biden. Desde então, o tema da interferência estrangeira se mistura, no debate público americano, a disputas internas sobre confiança nas urnas eletrônicas e integridade do processo.

Kremlin chama acusações de infundadas

Em Moscou, o incômodo é imediato. Questionado por jornalistas nesta sexta, o porta-voz do Kremlin rejeita com firmeza as falas de Trump e de autoridades americanas. “O porta-voz do Kremlin negou que Moscou tenha buscado influenciar o resultado das urnas, como repetido inúmeras vezes por Washington anteriormente”, registra um despacho do portal G1, ecoando a linha oficial russa.

O governo de Vladimir Putin trata o tema como um problema recorrente, que ameaça desgastar ainda mais a relação com Washington e, em última instância, o comércio, os investimentos e a cooperação em temas sensíveis, do desarmamento nuclear à guerra cibernética. A avaliação em Moscou é que qualquer admissão, ainda que parcial, abriria caminho para novas sanções econômicas e maior isolamento no Ocidente.

A resposta russa vem em bloco com a da China, citada com mais ênfase no pronunciamento de Trump e que também protesta contra a acusação. Enquanto Pequim fala em “politização” de questões técnicas, o Kremlin insiste que os Estados Unidos usam o fantasma da interferência externa como arma de disputa doméstica.

Acusações se arrastam desde 2016

O embate atual só faz sentido à luz de um histórico que já dura uma década. Em fevereiro de 2018, o Departamento de Justiça americano denuncia formalmente 13 cidadãos e três entidades russas por interferir na eleição presidencial de 2016. A acusação sustenta que a máquina de desinformação russa age para impulsionar a campanha de Trump e prejudicar a democrata Hillary Clinton.

A pressão leva à nomeação do procurador especial Robert Mueller, que comanda uma investigação de 22 meses sobre possível conluio entre a campanha republicana e Moscou. Em março de 2019, o relatório final conclui que não há provas suficientes para acusar Trump de conspiração, mas deixa em aberto a possibilidade de obstrução de Justiça.

O tema não se esgota com o fim da investigação. Em 2021, já sob Biden, a Casa Branca anuncia sanções adicionais à Rússia, que são justificadas como resposta a interferências nas eleições e a uma grande operação de ataque virtual contra agências do governo americano. As medidas atingem bancos, empresas de tecnologia e figuras próximas ao Kremlin, aprofundando o desgaste diplomático.

Em paralelo, porém, as mesmas instituições que relatam tentativas de influência estrangeira afastam a hipótese de fraude capaz de alterar o resultado de 2020. Uma avaliação pública da comunidade de inteligência afirma não ter encontrado indícios de que qualquer ator externo tenha alterado “qualquer aspecto técnico” da votação, dos registros de eleitores à apuração final.

Tribunais, auditorias eleitorais e o próprio Departamento de Justiça seguem a mesma linha e rejeitam a tese de manipulação de urnas. “A agência federal de segurança cibernética classificou a votação como ‘a mais segura da história dos Estados Unidos’”, registra outro texto do G1, citando o órgão responsável por proteger sistemas críticos.

Impasse trava diplomacia e alimenta polarização

A rejeição russa às novas acusações mantém congelado um diálogo que já vinha frágil. Washington continua a tratar Moscou como um dos principais adversários estratégicos, ao lado de China, Irã e Coreia do Norte. O Kremlin responde com discursos de vitimização e aproximação com outras potências, na tentativa de reduzir a dependência do Ocidente.

Na prática, o impasse dificulta avanços em temas de interesse mútuo, como controle de armas, cooperação espacial e coordenação em crises regionais. Cada nova rodada de acusações serve de combustível para alas mais duras nos dois lados, que se beneficiam politicamente de um ambiente de confronto.

Dentro dos Estados Unidos, o efeito é imediato no campo político. Republicanos alinhados a Trump usam o discurso de fraude e interferência externa para questionar a legitimidade de adversários democratas e defender mudanças que, na prática, podem restringir o voto. Democratas respondem acusando o ex-presidente de atacar as instituições e enfraquecer a confiança na democracia.

Agências de inteligência, autoridades eleitorais e o Departamento de Justiça ficam sob pressão crescente. De um lado, precisam mostrar transparência e firmeza ao investigar qualquer indício de ataque estrangeiro. De outro, tentam proteger informações sensíveis e preservar a credibilidade de um sistema que, até aqui, não apresentou evidências de manipulação de urnas ou de resultados.

Empresas de tecnologia ligadas à segurança cibernética e à proteção de infraestrutura crítica veem a demanda disparar. Governos estaduais investem em auditorias, backups em papel e comunicação com eleitores, numa tentativa de blindar a próxima disputa presidencial contra ataques reais e narrativas falsas.

Desconfiança persiste e contamina próximas eleições

O cenário que se desenha a partir desta sexta é de continuidade, não de solução. Trump promete novas revelações a partir dos cinco grupos de documentos liberados, mesmo sem apresentar até agora provas aceitas pelos tribunais. A Rússia reafirma que não tem nada a ver com a disputa interna americana e tenta se afastar do centro da crise.

Entre especialistas em segurança eleitoral, o consenso é que a ameaça de interferência estrangeira existe e precisa ser levada a sério, mas que o risco mais imediato é político: a erosão da confiança. Em um país em que uma parte expressiva do eleitorado duvida do resultado de 2020, qualquer novo episódio, mesmo sem provas, tende a aprofundar a fratura.

Os próximos meses devem ser marcados por novas audiências no Congresso, relatórios de inteligência e, possivelmente, sanções adicionais contra Moscou e outros adversários apontados por Washington. Diplomaticamente, a tendência é de manutenção do gelo, com encontros bilaterais raros e foco em danos colaterais em outras agendas, do comércio de energia às negociações em fóruns multilaterais.

Sem um acordo mínimo sobre os fatos básicos do passado recente, Estados Unidos e Rússia seguem presos a narrativas rivais. O custo, para além dos dois governos, recai sobre a percepção global de segurança dos processos democráticos, que entra em mais uma eleição americana sob o peso de dúvidas e suspeitas.

 

Carregar Comentários