Freio de mão puxado: Lula recua em retaliação a Trump para evitar disparada da inflação; entenda

Pressionado pelo setor empresarial e pelo risco real de explodir os preços no bolso do consumidor brasileiro, o governo federal decidiu adiar o uso da Lei de Reciprocidade Econômica para tentar um acordo de última hora com a Casa Branca.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Após a promessa de uma resposta dura e imediata contra o tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recuou. O clima de confronto direto deu lugar à cautela máxima na Esplanada dos Ministérios. A ordem que partiu diretamente do Palácio do Planalto é segurar as armas da guerra comercial. O ministro da Fazenda confirmou o recuo estratégico e pediu calma ao mercado:

“Vamos com cautela”, afirmou o ministro da Fazenda, Dario Durigan.

O recuo do governo atende a um clamor de empresários e industriais brasileiros. O diagnóstico técnico da equipe econômica revelou que o plano inicial de “dar o troco” aplicando impostos pesados sobre produtos americanos importados traria um efeito bumerangue devastador: o custo extra seria repassado ao consumidor, provocando uma forte alta na inflação e encarecendo itens do dia a dia no Brasil.

O plano do Brasil para dobrar os americanos

Em vez de partir para o ataque com sobretaxas, a diplomacia brasileira corre contra o tempo. O governo Lula abriu negociações reservadas de última hora com o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). O objetivo central é ampliar a lista de produtos brasileiros que ficarão livres do imposto de 25% até a próxima quarta-feira (22 de julho), data em que o tarifaço entra oficialmente em vigor.

Os negociadores focam em salvar dois setores cruciais que empregam milhares de pessoas no país:

  • Indústria de calçados: Fortemente dependente do mercado norte-americano e que teme demissões em massa.
  • Setor de máquinas e equipamentos: Peça-chave da indústria nacional que corre o risco de perder contratos bilionários.

Impactado limitado

De acordo com a professora de Economia do Insper, Juliana Inhasz, como o governo de Donald Trump já poupou mais de 2 mil produtos essenciais — como carne, café e medicamentos —, o impacto agregado do tarifaço na balança comercial do Brasil será limitado. Apesar disso,  deve atingir com mais força segmentos altamente dependentes do mercado americano.

Segundo a economista, o Brasil já havia diversificado seus mercados de exportação após a primeira rodada de tarifas, reduzindo a dependência dos Estados Unidos em diversas cadeias produtivas.

“No outro tarifaço a gente já tinha conseguido outros parceiros comerciais, e eles também já tinham encontrado outros caminhos”, afirma.

Juliana ressalta, no entanto, que alguns setores continuam vulneráveis. Entre eles, ela cita a indústria moveleira, especialmente na região Sul do país, que já sofreu impactos na primeira onda de restrições comerciais. “São setores muito especializados na economia americana. Não é um tipo de produção que é fácil de adaptar”, explica.

Para produtos de maior peso na pauta de exportações brasileiras, como café, soja, milho e carne, a expectativa é de um impacto mais moderado. De acordo com a professora, esses segmentos conseguiram ampliar mercados internacionais e reduzir a dependência das compras dos Estados Unidos, o que ajuda a amortecer os efeitos das novas tarifas.

Por isso, o Planalto avalia que incendiar a relação com Washington agora traria mais prejuízos do que benefícios.

Como funciona a ‘lei do revide’ que ficou na gaveta

Apesar do recuo momentâneo, o governo brasileiro faz questão de lembrar que a Lei da Reciprocidade Econômica (Lei nº 15.122), aprovada pelo Congresso em 2025, continua pronta para ser usada no “momento adequado”. Ela funciona como um escudo de soberania nacional em três situações específicas:

  • Ataques unilaterais: Quando um país impõe barreiras para tentar interferir em decisões e escolhas soberanas do Brasil.
  • Quebra de acordos: Quando um bloco econômico ignora tratados comerciais assinados, sufocando as empresas brasileiras.
  • Falsa barreira ambiental: Quando nações ricas criam exigências verdes absurdas, muito mais duras que o Código Florestal Brasileiro, apenas para barrar o nosso agronegócio de forma disfarçada.

Lula evita ligação direta para Donald Trump

Nos bastidores, havia a expectativa de que Lula telefonasse diretamente para Donald Trump para resolver o impasse. No entanto, o presidente brasileiro descartou a cartada política por enquanto.

O entendimento do Itamaraty é que o Brasil precisa esgotar todas as etapas técnicas e diplomáticas entre os ministérios antes de expor os dois chefes de Estado. A estratégia agora é o diálogo silencioso, mantendo a “lei do olho por olho” guardada na gaveta como último recurso caso os Estados Unidos se recusem a ceder.

Carregar Comentários