Fim dos trabalhadores no campo? Robôs avançam e prometem revolucionar a agricultura

Especialistas discutem como a automação pode transformar a agricultura diante da escassez de trabalhadores.
Redação NC News
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Os robôs agrícolas deixaram de ser uma tecnologia do futuro para se tornarem uma necessidade cada vez mais urgente no campo. A avaliação foi apresentada neste domingo (19), em Porto Alegre, durante o 11º Congresso Brasileiro de Agricultura de Precisão e Digital (ConBAP) e a 17ª International Conference on Precision Agriculture (ICPA), onde especialistas discutem como a automação pode ajudar a enfrentar um problema que já preocupa produtores em vários países: a falta de mão de obra.

Entre os destaques do evento, o pesquisador chinês Wen-Hao Su, da Universidade Agrícola da China, afirmou que o envelhecimento da população rural e o desinteresse dos jovens pela agricultura estão obrigando países como a China a acelerar investimentos em robótica. Segundo ele, esse é um cenário que também deve se repetir no Brasil.

O campo está envelhecendo

Na avaliação do pesquisador, o maior desafio da agricultura hoje não é apenas produzir mais, mas garantir que existam pessoas para trabalhar nas lavouras.

Ele explica que, na China, boa parte dos agricultores já tem cerca de 60 anos ou mais, enquanto as novas gerações buscam oportunidades nas cidades e demonstram pouco interesse em seguir na atividade rural.

“Se, nos próximos dez anos, não conseguirmos ampliar o uso de robôs agrícolas, provavelmente haverá uma grave falta de trabalhadores no campo”, alertou.

O diagnóstico chamou a atenção dos participantes do congresso porque reflete uma realidade que começa a aparecer em diversos países produtores de alimentos, incluindo o Brasil.

China aposta na tecnologia como estratégia nacional

Para enfrentar esse desafio, a China transformou a robótica agrícola em uma política de Estado.

Além de investir no desenvolvimento de novas máquinas, o país também reformulou cursos universitários para formar profissionais especializados em áreas como robótica, inteligência artificial, sensores, visão computacional e agricultura digital.

O objetivo é criar uma nova geração de engenheiros capazes de desenvolver tecnologias que substituam parte do trabalho manual e aumentem a produtividade das propriedades rurais.

Segundo Wen-Hao, o governo incentiva tanto a pesquisa quanto a transferência dessas tecnologias para empresas e produtores, acelerando a adoção dos equipamentos no campo.

Robô por hora: tecnologia sem compra milionária

Apesar dos avanços, o alto custo dos equipamentos ainda é um obstáculo para pequenos produtores. Para contornar esse problema, um novo modelo de negócio começa a ganhar espaço.

Em vez de comprar robôs, agricultores contratam empresas especializadas que oferecem o serviço por hora de utilização.

Na prática, funciona de forma parecida com o aluguel de máquinas agrícolas, mas com equipamentos muito mais automatizados.

Segundo o pesquisador, esse formato reduz o investimento inicial e permite que produtores de diferentes portes tenham acesso à tecnologia sem precisar fazer grandes desembolsos.

Além de diminuir custos, o sistema ajuda a aumentar a eficiência em atividades repetitivas, como pulverização, capina, monitoramento das lavouras e colheita.

Dos drones aos robôs que colhem frutas

Durante a apresentação, Wen-Hao mostrou exemplos de tecnologias que já começam a fazer parte da rotina da agricultura chinesa.

Drones equipados com câmeras conseguem identificar frutas maduras e auxiliar na colheita de maçãs, uvas e morangos. Sistemas inteligentes também analisam doenças nas plantas, identificam deficiências nutricionais e monitoram o desenvolvimento das lavouras sem que técnicos precisem percorrer toda a propriedade.

Na pecuária, robôs já alimentam peixes em tanques, acompanham o crescimento dos animais e ajustam automaticamente a quantidade de ração.

Em granjas, sensores monitoram a saúde das aves, detectam possíveis doenças e até ajudam na coleta de ovos.

A tecnologia muda o trabalho no campo

O avanço da automação também levanta uma discussão importante: o que acontece com os trabalhadores quando os robôs assumem parte das atividades?

Especialistas que participaram do congresso avaliam que funções repetitivas e que exigem grande esforço físico tendem a diminuir ao longo dos próximos anos.

Ao mesmo tempo, surgem novas oportunidades para profissionais capazes de operar, programar e fazer a manutenção desses equipamentos.

Esse movimento, porém, exige investimentos em qualificação profissional para evitar que parte da mão de obra fique de fora dessa transformação.

O desafio brasileiro

Embora o Brasil seja uma das maiores potências agrícolas do mundo, a adoção em larga escala da robótica ainda enfrenta desafios próprios.

Em regiões produtoras de grãos, como o Centro-Oeste, por exemplo, o solo costuma ficar bastante úmido após o período de chuvas. Máquinas muito pesadas podem compactar a terra, prejudicando o manejo e reduzindo a produtividade.

Para Wen-Hao, a tendência é que os robôs do futuro sejam menores, mais leves e mais eficientes, capazes de realizar o trabalho de grandes máquinas sem causar tantos impactos ao solo.

Ele compara essa evolução à dos computadores, que deixaram de ocupar salas inteiras para caber no bolso das pessoas.

O que esperar dos próximos anos

Para o pesquisador, a automação deve transformar profundamente a agricultura na próxima década. Plantio, pulverização, colheita, irrigação e monitoramento das lavouras tendem a ser cada vez mais realizados por máquinas inteligentes, capazes de operar com precisão e reduzir desperdícios.

Ao mesmo tempo, essa revolução tecnológica deve ampliar o debate sobre formação profissional, inclusão digital, regulação do trabalho e acesso às novas tecnologias, especialmente entre pequenos produtores.

Mais do que substituir trabalhadores, o desafio será preparar o campo para uma nova realidade, em que pessoas e máquinas precisarão atuar lado a lado para garantir a produção de alimentos em um cenário de crescente escassez de mão de obra.

Entenda o contexto

O envelhecimento da população rural e a dificuldade de atrair jovens para o campo já são apontados por especialistas como um dos principais desafios para a agricultura mundial. Em resposta a esse cenário, países como a China aceleram investimentos em robótica, inteligência artificial e agricultura digital. No Brasil, embora essa transformação ainda avance de forma gradual, o tema ganha força à medida que produtores buscam aumentar a produtividade e enfrentar a falta de trabalhadores sem comprometer a competitividade do agronegócio.

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