A União Europeia não pretende flexibilizar as exigências sanitárias para permitir a entrada de produtos de origem animal no bloco, afirmou o embaixador da Irlanda no Brasil, Martin Gallagher. O país assumiu em 1º de julho a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, função com duração de seis meses.
A declaração ocorre em meio às negociações entre o governo brasileiro e autoridades europeias para evitar a suspensão das exportações de carne brasileira, prevista para setembro.
Segundo o diplomata, as regras relacionadas ao controle do uso de antimicrobianos na produção animal são critérios técnicos adotados pelo bloco e não serão alteradas para atender a um país específico.
Brasil tenta evitar suspensão das exportações
A restrição da União Europeia está relacionada às exigências do bloco sobre o uso de antimicrobianos e à comprovação de que o sistema brasileiro atende aos padrões sanitários europeus.
A medida não decorre de um problema identificado na qualidade da carne brasileira, mas do entendimento europeu de que o país não comprovou o cumprimento das regras estabelecidas.
No início de junho, a União Europeia retirou o Brasil da lista de países considerados aptos a cumprir as normas do bloco para o controle do uso de antimicrobianos. Com isso, caso não haja uma mudança no cenário, o país ficará impedido de exportar carnes e outros produtos de origem animal para o mercado europeu a partir de 3 de setembro.
Até então, o Brasil estava autorizado a vender ao bloco carne bovina, frango e carne de cavalo, além de tripas, pescado e mel.
A possibilidade de suspensão preocupa o setor produtivo brasileiro. Na semana passada, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) aifrmou que há grandes chances de a produção nacional não conseguir se adequar às novas exigências da União Europeia dentro do prazo.
Segundo a entidade, o ciclo da pecuária bovina dificulta uma adaptação rápida às novas regras, já que a implementação das mudanças necessárias pode levar cerca de 30 meses.
Já de acordo com Gallagher, outros países sul-americanos conseguiram cumprir as exigências europeias e permaneceram habilitados a exportar. O embaixador afirmou que a União Europeia está aberta ao diálogo, mas que caberá ao Brasil implementar um sistema capaz de comprovar o atendimento aos padrões exigidos.
Recorde nas exportações, mas cenário fica desafiador
Apesar da incerteza sobre o mercado europeu, as exportações brasileiras de carne bovina registraram recorde no primeiro semestre de 2026.
Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as vendas externas somaram U$ 9,929 bilhões entre janeiro e junho, alta de 33,4% em relação ao mesmo período de 2025. Em volume, os embarques chegaram a 1,811 milhão de toneladas, crescimento de 7,3%.
A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), porém, avalia que o segundo semestre deve ser mais desafiador devido às restrições envolvendo a China e a União Europeia.
O principal impacto esperado está relacionado ao mercado chinês. Segundo a entidade, a cota de importação de carne bovina brasileira para a China em 2026, de 1,106 milhão de toneladas, teria sido preenchida até junho. Com isso, cargas acima deste limite passam a sofrer uma sobretaxa de 55%.
A China foi responsável por quase metade da receita obtida pelo Brasil com exportações de carne e subprodutos bovinos no primeiro semestre, com U$ 4,818 bilhões em compras.
Outros mercados ganham importância
Diante das incertezas envolvendo China e União Europeia, a Abrafrigo afirma que a diversificação dos destinos das exportações tornou-se mais importante.
Os Estados Unidos, segundo maior comprador da carne bovina brasileira, aumentaram as importações no primeiro semestre, enquanto países como Chile, Rússia, Arábia Saudita e Egito também ampliaram as compras.