O aceno público de Ronaldo Caiado a Ciro Gomes carrega um endereço claro: o Nordeste, reduto historicamente hostil a candidaturas fora do campo petista. O gesto expõe a tentativa do PSD de romper, ainda que parcialmente, a polarização que tem travado o avanço de terceiras vias no país.
Ciro Gomes, hoje no PSDB e pré-candidato ao governo do Ceará, conserva prestígio político relevante na região, sobretudo no próprio estado cearense. Esse capital ganhou peso adicional depois que Aécio Neves anunciou a desistência de concorrer à Presidência, decisão que deixou o PSDB sem rumo definido na disputa nacional e abriu espaço para que lideranças tucanas, como Tasso Jereissati, avaliem alternativas de apoio.
A estratégia do PSD
O PSD tenta capitalizar esse vácuo. A escolha de Kassab como vice na chapa de Caiado teve como função justamente fortalecer a articulação da campanha e organizar palanques estaduais, papel que ganha relevância adicional diante da sinalização de Ciro em direção ao projeto do governador goiano.
Soma-se a esse cenário a crise aberta entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, detonada pela negociação do PL cearense em torno da pré-candidatura de Ciro ao governo do Ceará. O desgaste familiar esfriou o interesse de Ciro em endossar Flávio na disputa presidencial e amplia a margem de manobra para Caiado.
O fator MBL
Nesse xadrez, ganha corpo também o nome de Renan Santos, fundador do MBL e à frente do partido Missão. Ele soma pontos junto ao eleitorado mais à direita exatamente no momento em que o racha entre o PL e a família Bolsonaro se aprofunda e desponta como opção adicional citada pelo próprio Ciro.
A equação favorece Caiado por reunir, ao menos no discurso, uma proposta de centro capaz de dialogar com uma pauta menos identificada com o bolsonarismo, sem abrir mão de disputar o eleitorado que busca alternativas à polarização entre PT e PL.
O desempenho de Caiado nas pesquisas segue modesto, mas o prestígio de Ciro no Ceará e em redutos próximos continua sendo um ativo que nenhum estrategista descarta em ano eleitoral. E Kassab, articulador experiente à frente do PSD, sabe bem disso.