Morte de agente ligado a Epstein na França gera suspeitas urgentes

Agente de moda ligado a Epstein é encontrado morto próximo a Paris, levantando novas dúvidas sobre o caso na França.
Redação NC News
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O agente de moda Daniel Siad, 69, citado em milhares de arquivos ligados a Jeffrey Epstein, é encontrado morto em 20 de junho em sua casa em Colombes, na região de Paris. A morte ocorre antes que ele fosse interrogado pela Justiça francesa sobre acusações de estupro e tráfico de seres humanos, e lança dúvidas sobre o rumo de uma das investigações mais sensíveis do país.

Uma morte no centro de um caso explosivo

O corpo de Siad aparece na noite de 20 de junho, em meio à reabertura das apurações francesas sobre as conexões de Epstein e abusos no setor da moda. O Ministério Público de Nanterre, responsável pelo caso, informa que “uma autópsia será realizada para determinar as causas da morte” e abre uma investigação específica sobre o que ocorreu em Colombes.

A morte encerra, de forma abrupta, a possibilidade de ouvir um personagem considerado peça-chave para entender como funcionava, em solo francês, a rede de exploração sexual associada ao financista norte-americano. Para vítimas e advogados, a ausência desse depoimento mina parte das chances de identificar, com precisão, responsabilidades de outros nomes influentes do meio.

Os investigadores especializados no combate ao tráfico de seres humanos vinham revisando computadores, registros telefônicos e cadernos de contato ligados a Epstein. Até maio, cerca de 20 possíveis vítimas haviam procurado as autoridades francesas para relatar abusos no universo da moda, muitos deles relacionados ao círculo do financista.

Acusações, negações e um dossiê com mais de mil menções

Siad se torna alvo formal da Justiça após a primeira denúncia, apresentada em 10 de fevereiro pela ex-modelo sueca Ebba P. Karlsson. Ela afirma ter sido estuprada aos 20 anos e, em seguida, explorada sexualmente pelo agente, que a teria apresentado a figuras influentes da moda internacional. Segundo Karlsson, a identificação de Siad ocorre décadas depois, quando ela examina documentos do caso Epstein tornados públicos nos Estados Unidos.

O nome do agente aparece em mais de mil registros desses arquivos, de acordo com denunciantes que se debruçam sobre o material. O volume de citações o coloca no centro do mapa de relações francesas de Epstein, ao lado de outros personagens já conhecidos do público, como o ex-dirigente da agência Elite Gérald Marie e o também agente de modelos Jean-Luc Brunel.

Siad sempre rejeita as acusações. Sua advogada, Menya Arab-Tigrine, sustenta que “o cliente sempre se declarou inocente e havia pedido para ser ouvido pelas autoridades francesas”. Ele se apresenta como cidadão sueco, embora nascido na França, e tenta se distanciar das suspeitas que o aproximam da rede de Epstein.

As denúncias envolvendo Siad citam também Gérald Marie, antigo poderoso dirigente da Elite em Paris, que nega os relatos. Mas a morte do agente fortalece, entre vítimas, a sensação de que personagens centrais escapam à luz do interrogatório judicial no momento em que a engrenagem começa a girar com mais força.

Rede de abusos na moda e vítimas sem respostas

Ebba P. Karlsson integra o coletivo Victorious Angels – WE RISE, criado ao lado da jornalista britânica Lisa Brinkworth. O grupo reúne cerca de vinte mulheres que denunciam violência sexual no universo da moda há anos. Muitas das histórias passam por intermediários que mantinham relações profissionais ou pessoais com Epstein.

Entre esses nomes aparece o francês Jean-Luc Brunel, agente de modelos e antigo associado do financista. Ele é encontrado morto em uma prisão francesa em 2022, também antes do encerramento das investigações. Três anos antes, Epstein aparece sem vida em uma cela nos Estados Unidos. A sucessão de mortes alimenta o sentimento de impunidade entre sobreviventes.

Da perspectiva de Brinkworth, a morte de Siad é mais um golpe. “Caso Brunel e agora caso Siad deixaram sobreviventes sem respostas e sem a possibilidade de ver os processos avançarem plenamente”, afirma a jornalista. A frase ecoa em depoimentos de mulheres que esperavam ver, ao menos, os principais suspeitos serem confrontados em interrogatórios detalhados.

Uma delas é a ex-modelo francesa Juliette G., hoje com 43 anos. Ela conta que foi recrutada por Siad em 2004, em Paris, para ser apresentada a Epstein em Nova York. Convocada neste junho para prestar informações adicionais à polícia judiciária, vê o impacto imediato da morte. Segundo ela, o agente poderia ajudar a esclarecer responsabilidades em uma rede “muito mais ampla”. “Um novo elo desaparece”, resume.

Críticas ao Ministério Público e pressão sobre a Justiça

A confirmação da morte expõe o Ministério Público de Paris a uma onda de críticas. Os advogados Colomba Grossi e William Bourdon, que representam denunciantes, afirmam que “a atuação das autoridades foi insuficiente diante da gravidade das acusações e do número de mulheres que se apresentaram para depor”. Para eles, a demora em interrogar suspeitos compromete a eficácia da investigação.

Essa avaliação se soma ao temor de que a Justiça francesa repita o roteiro de outros capítulos ligados ao caso Epstein: processos longos, pouco transparentes e interrompidos por mortes de acusados antes de condenações definitivas. Em um ambiente como o da moda, marcado por contratos internacionais, viagens constantes e forte assimetria de poder, essa percepção pesa sobre futuras denunciantes.

A morte de Siad também tensiona a confiança pública na capacidade do Estado de proteger vítimas e garantir que pessoas com conexões influentes sejam efetivamente responsabilizadas. Se quem conhece a engrenagem morre antes de falar, a reconstrução dos fatos depende quase só de documentos, registros eletrônicos e memórias fragmentadas, que precisam resistir ao tempo.

Investigação em aberto e futuro incerto para o caso francês

Com o corpo de Siad sob exame médico-legal, a prioridade imediata das autoridades de Nanterre é esclarecer como ele morreu. Até o momento, promotores não divulgam elementos que permitam concluir se houve crime, suicídio ou causas naturais, e reforçam que a autópsia será decisiva para orientar os próximos passos da investigação sobre a morte em si.

Paralelamente, a apuração sobre o tráfico de seres humanos e abusos ligados ao círculo de Epstein continua em curso. Investigadores insistem na análise de arquivos digitais, registros de viagens e contatos telefônicos para tentar suprir a lacuna deixada pela ausência de interrogatório do agente. A expectativa, entre vítimas e seus representantes, é que outras testemunhas sejam convocadas e que a Justiça se mostre disposta a ir além dos nomes já conhecidos.

Para as mulheres que se organizaram em coletivos como o Victorious Angels – WE RISE, o desfecho da investigação francesa pode influenciar não apenas sua própria busca por justiça, mas também o debate global sobre responsabilidade de figuras influentes na moda e a proteção de vítimas de exploração sexual. Se a França conseguir avançar mesmo sem ouvir um de seus principais suspeitos, enviará um recado de que a morte de acusados não precisa significar o fim da responsabilização. Caso contrário, um novo silêncio deve se somar à lista de frustrações que marca o rastro de Epstein em diferentes países.

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