Relatório final do Cenipa revela que avião da Voepass emitiu cinco alertas antes de cair

Investigação aponta falhas da tripulação, conversas paralelas durante o voo, esquecimento do acionamento do sistema de degelo e "cultura de normalização de desvios" na companhia aérea.
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O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou nesta quinta-feira (23) o relatório final sobre a queda do voo 2283 da Voepass, que resultou na morte de 62 pessoas em Vinhedo (SP) em agosto de 2024. O documento aponta uma série de negligências e falhas operacionais que culminaram no desastre.

Segundo as investigações, a aeronave ATR 72-500 emitiu pelo menos cinco alertas críticos que não foram devidamente tratados pelos pilotos.

Os alertas emitidos pela aeronave

O relatório detalha a sequência de avisos registrados pelos sistemas do avião antes da perda de controle:

  • Detector eletrônico de gelo: Indicou condições favoráveis ao acúmulo de gelo, o que exigiria o acionamento imediato do sistema de degelo e adequação da velocidade.
  • Velocidade baixa (Cruise Speed Low): O computador alertou que o avião voava abaixo da velocidade recomendada, com aumento de arrasto físico.
  • Aviso de nível 2: Classificação dada pelo fabricante a um dos alertas de velocidade perigosamente baixa, o que pode ter levado a tripulação a subestimar o risco.
  • Monitoramento de performance (APM): Indicou forte degradação do desempenho da aeronave.
  • Alerta de estol: Aviso final sobre a perda de sustentação no ar. A resposta dos pilotos não seguiu o protocolo previsto para a emergência.

Falhas humanas e operacionais

O Cenipa concluiu que a tragédia foi causada por uma combinação de fatores, com forte peso na atuação da tripulação. O relatório destaca que os pilotos mantinham conversas sobre assuntos pessoais durante momentos críticos, o que reduziu drasticamente o nível de atenção.

Além disso, os tripulantes esqueceram de acionar o sistema de degelo, não solicitaram descida imediata aos controladores de tráfego e não declararam emergência em nenhum momento.

A investigação também diagnosticou uma “cultura de normalização de desvios” dentro da Voepass. Como alguns alertas do sistema de monitoramento apareciam com frequência na rotina da companhia, os pilotos teriam desenvolvido o hábito nocivo de tratá-los como situações corriqueiras.

Avião não deveria ter decolado

Um dos pontos mais graves do documento revela que a aeronave decolou de Cascavel (PR) com uma falha no limpador de para-brisa. Como havia previsão de chuva na rota para Guarulhos (SP), as normas de segurança proibiam o início do voo nessas condições.

O Cenipa também identificou que problemas no sistema de degelo já haviam ocorrido em voos da mesma aeronave na véspera e no próprio dia do acidente. Essas panes não foram registradas no diário técnico, impedindo os reparos pelas equipes de manutenção.

O que diz a Voepass

Em nota oficial, a companhia aérea classificou a tragédia como o episódio mais difícil de sua história e afirmou estar colaborando de forma transparente com as autoridades.

A empresa defendeu que adota procedimentos de segurança e capacitação alinhados aos padrões internacionais e ressaltou a experiência de seus pilotos, afirmando que ambos possuíam mais de 5 mil horas de voo, treinamentos em dia e não tinham qualquer restrição de saúde ou técnica que os impedisse de atuar.

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