Lucimar das Neves Ferreira, irmão de Leide das Neves, símbolo da tragédia do Césio-137 em Goiânia, é encontrado morto aos 53 anos em Aparecida de Goiânia. O corpo é velado e sepultado na manhã deste domingo, cercado por familiares e sobreviventes do acidente radiológico.
Família volta ao centro da dor
A morte de Lucimar atinge em cheio uma das famílias mais marcadas pelo acidente com Césio-137. Ele cresce à sombra da imagem da irmã Leide, que morre criança após brincar com o pó radioativo que brilhou no escuro e virou símbolo da tragédia.
A causa do falecimento de Lucimar não é informada. Para as vítimas e seus familiares, porém, o impacto emocional é imediato. A Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio) se mobiliza para amparar a mãe, Lourdes das Neves, que perde agora o filho depois de já ter enterrado a filha por causa da contaminação.
“A gente relembra todas as mazelas que esse acidente trouxe”, diz o presidente da AVCésio, Marcelo Santos Neves. “Agora, a gente tem que dar o máximo de apoio possível porque vai ser muito dolorido, por mais que ela já esteja calejada com essas dores de perda da filha, agora o filho”, afirma.
Um sobrevivente que vira símbolo
Lucimar tinha 14 anos quando o Césio-137 se espalha por Goiânia. Adolescente, ele vê a rotina da família virar de cabeça para baixo, a casa cercada por médicos, jornalistas e medo. Desde então, convive com exames, incertezas e uma identidade moldada pela tragédia.
Nesse período, ele se aproxima de outros sobreviventes, entre eles o próprio Marcelo Santos Neves. Os dois mantêm uma relação de longa data, atravessando juntos a fase mais crítica do acidente e o lento reconhecimento oficial das vítimas.
Marcelo recorda o cotidiano caótico daqueles dias. “Eu lembro que, na época, ele não tinha onde ficar durante o dia porque estava um tumulto danado. Eu pegava ele e levava para minha casa”, conta. “Eu tinha os meninos também da idade dele e punha eles para jogar videogame.” A lembrança humaniza uma história frequentemente reduzida a números e laudos médicos.
O dia em que o pó azul tomou Goiânia
A tragédia começa quando dois catadores de materiais recicláveis entram nas instalações abandonadas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia, em Goiânia. Lá, encontram um aparelho médico desativado, sem qualquer sinalização adequada sobre o risco. O equipamento guarda 19,26 gramas de cloreto de Césio-137, um material altamente radioativo.
Sem saber do perigo, eles levam a máquina para casa, desmontam o aparelho e vendem partes para um ferro-velho. O dono, Devair Ferreira, também ignora a natureza do objeto e acaba expondo o pó branco que brilha com uma luz azulada no escuro. O brilho encanta vizinhos, amigos e crianças. Durante dias, pequenos fragmentos circulam em mãos curiosas, vão para outras casas, atravessam quintais e bairros.
As primeiras reações surgem em poucos dias: diarreia, náuseas, tonturas, vômitos. Os sintomas se espalham antes que alguém conecte o mal-estar ao pó luminoso. Entre as primeiras vítimas estão Maria Gabriela, esposa de Devair, e a sobrinha dele, Leide das Neves Ferreira, que tem apenas 6 anos. Leide brinca com o material, ingere pequenas quantidades e recebe a maior dose de radiação entre os contaminados. Ela morre horas depois da tia.
Ao todo, 49 pessoas são levadas para tratamento no Rio de Janeiro, 21 recebem cuidados intensivos e 4 morrem em consequência direta da contaminação. Mais de 112 mil moradores de Goiânia passam por exames e algum tipo de monitoramento por possível exposição ao Césio-137.
Feridas que não cicatrizam
A morte de Lucimar não aparece como um novo caso de contaminação, mas reacende a discussão sobre os efeitos de longo prazo do acidente. Sobreviventes relatam problemas crônicos de saúde, dificuldade de acesso a atendimento especializado e sensação de abandono por parte do poder público.
O episódio volta a expor a fragilidade das políticas de reparação. Muitos atingidos dependem de pensões, tratamentos continuados e suporte psicológico. A cada morte de uma figura reconhecida da tragédia, cresce o temor de que a memória coletiva se enfraqueça e a pressão por direitos diminua.
A AVCésio, que representa vítimas e familiares, teme perder um de seus elos com a história viva do acidente. Sem rostos conhecidos como o de Lucimar, a entidade pode enfrentar mais resistência para sensibilizar autoridades, garantir verbas e manter em pauta temas como atendimento médico permanente, assistência social e preservação de áreas contaminadas.
A comunidade de Goiânia, por sua vez, volta a se ver associada ao Césio-137. Para muitos moradores, a tragédia ainda define o modo como a cidade é lembrada fora de Goiás, o que alimenta estigmas, mas também reforça a responsabilidade de não deixar o tema desaparecer.
Memória, responsabilidade e futuro
A repercussão da morte de Lucimar ultrapassa a dimensão familiar. Especialistas em saúde pública e segurança nuclear defendem que episódios como o de Goiânia sirvam de alerta permanente sobre o manejo de materiais radioativos no país.
O caso expõe falhas na destinação de equipamentos médicos desativados, na fiscalização e na comunicação de risco. O Césio-137, usado em tratamentos de radioterapia, exige protocolos rígidos de armazenagem, transporte e descarte. Qualquer descuido pode transformar um resíduo hospitalar em tragédia comunitária.
O debate sobre o Césio-137 também ganha fôlego em produtos culturais e documentários, que ajudam a levar o tema a novas gerações. Produções audiovisuais recentes, inclusive em plataformas de streaming, reconstroem o desastre, entrevistam vítimas e pressionam por respostas do Estado brasileiro.
Em Goiânia e Aparecida de Goiânia, o luto por Lucimar se mistura a uma agenda prática. Entidades cobram reforço no atendimento médico a quem ainda sofre com sequelas, ampliação do suporte psicológico a famílias como a de Lourdes das Neves e preservação de espaços de memória sobre o acidente.
O futuro imediato passa pela capacidade da AVCésio de se reorganizar, buscar novos porta-vozes e renovar a mobilização política. A morte de um de seus símbolos pode, ao mesmo tempo, enfraquecer laços e servir de impulso para que sobreviventes e apoiadores tentem impedir que o acidente com Césio-137 seja empurrado para o esquecimento.
Numa cidade que ainda carrega o peso de ter exposto mais de 112 mil pessoas à radiação, a despedida de Lucimar lembra que a contaminação radioativa não é apenas assunto de laboratório. Ela atravessa décadas na forma de traumas, doenças e histórias de vida interrompidas.