O embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, desembarcou em Brasília no início da manhã desta segunda-feira (27). A convocação para consultas funciona como um forte sinal de protesto diplomático do governo brasileiro contra as recentes declarações do presidente argentino, Javier Milei.
Bitelli ficará à disposição do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, com quem deve se reunir até quarta-feira (29). Um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não está descartado, e ainda não há qualquer previsão para que o diplomata retorne a Buenos Aires.
A origem da escalada
A tensão diplomática atingiu seu ápice no último sábado (25), durante a convenção do Partido Liberal (PL) realizada em São Paulo. Ao lado do senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, Milei proferiu ataques diretos a autoridades brasileiras, referindo-se ao presidente Lula como “presidiário” e ao ministro Alexandre de Moraes (STF) como “lixo careca”.
Em resposta às declarações, o Itamaraty divulgou nota oficial no fim de semana condenando as agressões. A pasta classificou o episódio como infamante e destacou a gravidade e o ineditismo da situação:
“Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro.”
O ministério também lamentou que os ataques partam do líder de um país com o qual o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação, além de ser o principal sócio comercial da Argentina.
Retaliações e cobranças em Brasília
Além de chamar seu próprio embaixador de volta para avaliações, o governo brasileiro adotou outras medidas de resposta imediata:
- Convocação do representante argentino: No domingo, o embaixador da Argentina no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, foi chamado para prestar esclarecimentos. Fontes do Itamaraty apontam que o próprio chanceler Mauro Vieira fez questão de conduzir a conversa — contrariando o protocolo habitual, que delega esse tipo de reprimenda a níveis hierárquicos inferiores —, motivado pela relação de 30 anos de amizade entre os dois diplomatas.
- Segundo caso na atual gestão: Esta é a segunda vez no atual mandato que o Itamaraty utiliza o recurso extremo de convocar um embaixador de volta. A primeira ocorreu no início de 2024, quando o Brasil chamou seu representante em Israel devido a uma crise diplomática com o governo de Benjamin Netanyahu.
A expectativa agora é que Bitelli forneça um panorama detalhado ao governo sobre a viabilidade e o futuro das relações institucionais com a Casa Rosada.