O julgamento dos policiais militares acusados pela morte de Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, começou na manhã desta terça-feira (28), no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. O caso ganhou repercussão nacional após imagens de câmeras corporais indicarem que o jovem já estava rendido no momento em que foi baleado durante uma operação policial em Paraisópolis, na zona sul da capital paulista, em julho de 2025.
Dois dos quatro policiais denunciados pelo Ministério Público são julgados pelo Tribunal do Júri. Os cabos Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima respondem por homicídio qualificado, com as agravantes de motivo torpe e recurso que dificultou a defesa da vítima. Ambos permanecem presos preventivamente enquanto aguardam o desfecho do julgamento.
O que aconteceu?
Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público, uma equipe da Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam) realizava uma perseguição a suspeitos de tráfico de drogas quando quatro jovens entraram em um imóvel localizado na Rua Rudolf Lotze, em Paraisópolis.
A versão inicial apresentada pela Polícia Militar afirmava que houve confronto armado entre os policiais e os suspeitos. No entanto, as imagens registradas pelas câmeras operacionais portáteis utilizadas pelos próprios agentes passaram a fazer parte da investigação e mudaram o rumo do caso.
As gravações mostram que Igor Oliveira já estava rendido quando foi atingido pelos disparos. A análise do material levou os investigadores a afastarem, naquele momento, a hipótese de legítima defesa apresentada inicialmente pelos policiais envolvidos.

Igor morreu ainda no local. O laudo apontou ferimentos provocados por disparos no tórax e no pescoço.

Igor morreu ainda no local. O laudo apontou ferimentos provocados por disparos no tórax e no pescoço.
Quem são os policiais julgados?
Os cabos Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima são apontados pela acusação como os autores dos disparos que resultaram na morte de Igor.
Eles respondem por homicídio qualificado e permanecem presos.
Já os soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus também foram denunciados pelos mesmos fatos, mas respondem ao processo em liberdade. Conforme a acusação, eles teriam colaborado com a ação ao participar da abordagem, da rendição dos suspeitos e ao efetuarem disparos dentro do imóvel, embora não sejam apontados como responsáveis pelos tiros que atingiram a vítima.
As defesas dos policiais têm a oportunidade de apresentar suas versões durante o processo, cabendo ao Tribunal do Júri decidir sobre a responsabilidade criminal de cada acusado.
O que mostram as imagens das câmeras corporais?
As gravações feitas pelas câmeras operacionais portáteis se tornaram uma das principais provas do processo.
Nas imagens, três jovens aparecem rendidos dentro de um quarto. Em determinado momento, um dos policiais realiza disparos enquanto eles permanecem abaixados.
Logo depois, um agente pergunta a Igor se ele possuía antecedentes criminais. Após a resposta negativa, o policial determina que ele se levante. Em seguida, novos disparos são efetuados.
Também é possível ouvir policiais fazendo referência às câmeras corporais durante a ocorrência antes de novos tiros serem registrados pelo equipamento.
O conteúdo das gravações passou a integrar as investigações conduzidas pelas autoridades.
Como a investigação evoluiu?
A investigação reuniu imagens das câmeras corporais, perícias técnicas, laudos e depoimentos de testemunhas.
Com esse conjunto de provas, o Ministério Público concluiu que havia elementos suficientes para denunciar os quatro policiais militares por homicídio qualificado.
A Justiça aceitou a denúncia e determinou que os acusados fossem submetidos ao Tribunal do Júri, responsável por julgar crimes dolosos contra a vida.
O que acontece agora?
O julgamento deve se estender ao longo desta terça-feira.
Durante a sessão, acusação e defesa apresentam testemunhas, exibem provas e fazem suas sustentações aos jurados.
Ao final dos debates, os sete jurados responderão aos quesitos formulados pelo juiz e decidirão se os réus devem ser condenados ou absolvidos. Caso haja condenação, a pena será fixada pelo magistrado responsável pelo julgamento.
Qual o impacto do caso?
A morte de Igor Oliveira provocou ampla repercussão em São Paulo e reacendeu o debate sobre o uso da força em operações policiais, especialmente após a adoção das câmeras corporais pela Polícia Militar.
O caso também passou a ser citado em discussões sobre protocolos de abordagem, transparência nas ações policiais e mecanismos de controle da atividade policial, tornando-se um dos episódios de maior repercussão envolvendo gravações feitas por câmeras corporais no estado.