Franco Baresi, um dos maiores zagueiros da história do futebol, morre aos 66 anos na Itália. Ídolo eterno do Milan e referência da seleção italiana, ele enfrentava tratamento contra um nódulo pulmonar.
A morte é anunciada nesta sexta-feira pelo Milan, clube ao qual dedicou toda a carreira. O ex-capitão era vice-presidente honorário desde 2020 e segue descrito oficialmente como parte do “DNA” rossonero.
Luta contra o nódulo pulmonar e silêncio sobre a causa
O Milan não divulga a causa exata da morte, mas o histórico recente de saúde de Baresi ganha peso na leitura do episódio. Em agosto de 2025, ele passa por cirurgia para remover um nódulo pulmonar e inicia um tratamento de imunoterapia.
Naquele período, tenta tranquilizar os torcedores. “Queridos tifosi, vai levar um pouco de tempo para recuperar todas as minhas forças”, afirma, em mensagem após a operação. A recuperação, porém, não se completa.
O quadro se agrava rapidamente na última semana. Baresi é internado na terça-feira anterior à morte e não resiste à piora súbita do estado clínico. A despedida acontece sob forte comoção na Itália e entre fãs espalhados pelo mundo.
O clube resume o sentimento em nota oficial: “A história completa do Milan está de luto pela morte de Franco Baresi. Seu exemplo e sua integridade ficarão gravados para sempre no DNA do Clube, assim como sua icônica camisa de número 6”. Em outro trecho, reforça o vínculo coletivo com o ídolo: “As condolências que o AC Milan estende à família de Franco Baresi em um momento tão difícil são compartilhadas por todo rossonero, que sente essa perda como sua própria”.
Um clube, 719 jogos e a camisa 6 eternizada
Nascido em Travagliato, na Lombardia, Baresi constrói uma trajetória rara no futebol profissional: atua por um único clube em toda a carreira. Entre o fim da década de 1970 e a despedida, soma 719 partidas oficiais pelo Milan, marca superada apenas por Paolo Maldini.
Assume a braçadeira de capitão aos 22 anos e lidera um time que muda o patamar do futebol italiano e europeu. Conquista 6 Campeonatos Italianos e 3 títulos da Liga dos Campeões, além de duas Copas Intercontinentais e 4 Supercopas da Itália. A defesa formada ao lado de Maldini, Mauro Tassotti e Alessandro Costacurta se torna referência continental.
A relação com o Milan atravessa fases de glória e crise. Baresi permanece mesmo quando o clube cai para a Serie B, episódio que reforça sua imagem de lealdade em meio a um mercado cada vez mais volátil. Em 1997, no ano da aposentadoria, o Milan retira de circulação a camisa 6, decisão que sela oficialmente o status de lenda.
Sua última grande aparição pública liga de novo futebol e símbolo. Em fevereiro deste ano, ele carrega a tocha olímpica na cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno de Milão-Cortina, no estádio San Siro, casa onde construiu a carreira.
Líbero moderno e herói ferido da seleção italiana
Pela seleção italiana, Baresi disputa 81 partidas e participa de campanhas que moldam a memória recente do país no Mundial de Seleções. Integra o grupo campeão em 1982, ainda como reserva, e volta ao protagonismo na década seguinte.
O ponto mais dramático de sua trajetória pela Azzurra acontece em 1994. Operado no menisco durante o torneio, ele retorna em tempo recorde para jogar a final contra o Brasil, nos Estados Unidos. Comanda a defesa durante 120 minutos, em uma atuação considerada heroica, mas perde a cobrança na disputa de pênaltis que decide o título.
A combinação de técnica, leitura de jogo e liderança silenciosa ajuda a redefinir o papel do líbero no futebol moderno. Baresi antecipa jogadas, organiza a linha defensiva e controla o impedimento com precisão, mesmo sem o porte físico tradicional de um zagueiro dominante. Ganha reconhecimento individual, figura entre os melhores do mundo em premiações e entra em listas históricas de grandes jogadores.
Luto, legado e impacto além do campo
A notícia da morte provoca reação imediata no futebol italiano e internacional. O Milan se declara em lágrimas, torcedores lotam as redes com imagens da camisa 6 e da faixa de capitão, e ex-companheiros reconstroem histórias de vestiário e campo. A seleção italiana e clubes pelo país preparam minutos de silêncio e faixas em jogos oficiais, em uma corrente de tributos que tende a se espalhar pelos próximos dias.
O impacto também é institucional. Baresi, vice-presidente honorário desde 2020, serve como ponte entre gerações no Milan, aparece em eventos de base, ações de marketing e iniciativas sociais. A morte abre espaço para que o clube reorganize homenagens permanentes, como jogos comemorativos, memoriais e programas de formação que levem seu nome.
Essa dimensão simbólica se soma a um efeito esportivo-cultural mais amplo. A trajetória de um jogador que passa toda a carreira em um só clube reforça o debate sobre identidade, pertencimento e fidelização de torcedores. Em um mercado marcado por transferências milionárias e contratos curtos, o modelo representado por Baresi ganha novo peso, inclusive em estratégias de comunicação e de desenvolvimento de talentos.
A história recente de luta contra o nódulo pulmonar tende a repercutir também fora do gramado. A jornada de um ex-atleta de elite enfrentando um problema grave de saúde pode estimular campanhas de prevenção, rastreamento de câncer de pulmão e cuidado continuado com jogadores aposentados. Clubes e federações são pressionados a discutir políticas mais robustas de acompanhamento médico após o fim da carreira.
O Milan já sinaliza que pretende manter acesa a memória do ex-capitão. A curto prazo, a expectativa é de atos de luto em San Siro, com faixas, mosaicos e homenagens oficiais. A médio e longo prazo, a figura de Baresi deve seguir como referência em projetos de base, ações culturais e na construção da imagem institucional do clube.
O futebol italiano, que se apoia em seus grandes símbolos para dialogar com novas gerações, perde um de seus alicerces. A forma como lidar agora com essa ausência dirá muito sobre a capacidade do esporte de cuidar de suas lendas e transformar memória em futuro.