81 tornados e crise Brasil-Paraguai hoje

Cobertura ao vivo destaca fenômenos climáticos extremos e tensões diplomáticas na América do Sul.
Redação NC News
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O Brasil se aproxima de um recorde de tornados, o Hamas aceita preliminarmente um plano de desarmamento em Gaza com aval de Donald Trump, e declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra do Paraguai abrem uma crise com o país vizinho. Os três movimentos, em frentes distintas, expõem tensões do clima, da geopolítica e da história que voltam a se cruzar nesta semana.

El Niño forte, 81 tornados e risco diário no interior do país

O tornado que destrói casas e lavouras em Giruá, no noroeste do Rio Grande do Sul, não é um ponto fora da curva. Até agora, 81 tornados são oficialmente registrados no Brasil em 2026, antes mesmo do auge da temporada, que costuma se concentrar entre o fim do inverno e a primavera. O número coloca o país a poucos episódios do recorde recente de 92 tornados anotados no ano passado.

Os dados vêm da Plataforma de Registro e Observadores de Tempestades Severas (Prevots), mantida por voluntários e apoiada por instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A combinação de um El Niño forte com o fluxo de ar quente e úmido da Amazônia em direção ao Sul cria um corredor propício a tempestades severas, sobretudo no oeste do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e no sul do Mato Grosso.

O meteorologista Ernani de Lima Nascimento, pesquisador do Inpe e voluntário da Prevots, descreve o mecanismo que transforma uma nuvem em ameaça concreta. “Quando a rotação desse funil atinge a superfície, isso caracteriza um tornado, e tem a capacidade de gerar ventos extremamente intensos e causar danos muito significativos”, afirma. Essas estruturas costumam nascer em tempestades do tipo supercélula, que giram em torno do próprio eixo, alimentadas por correntes de ar que sobem com enorme velocidade.

Prever, porém, onde e quando o próximo funil toca o chão permanece quase impossível. “O que é possível prever com várias horas de antecedência são condições atmosféricas favoráveis à formação de tempestades que podem produzir tornados numa determinada região”, diz Nascimento. Na prática, o alerta específico só sai quando o radar confirma a supercélula: “Nesse caso, o máximo de antecedência que se pode dar para as cidades que estiverem no caminho daquela tempestade é de 15, 20 minutos, meia hora no máximo”.

Esse intervalo curto pressiona defesas civis municipais, agricultores e moradores de cidades pequenas, muitas vezes sem sirenes ou protocolos claros de abrigo. Na região mais vulnerável, que inclui a tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, a expansão da área ocupada e a popularização dos celulares ajudam a registrar episódios que antes passariam despercebidos. Ao mesmo tempo, pesquisadores como Nascimento enxergam na intensificação dos ventos e no deslocamento de massas de ar um sinal da influência das mudanças climáticas sobre a frequência e a força dessas tempestades.

Hamas aceita desarmamento em fases e Trump reivindica “marco importante”

A centenas de quilômetros dali, em Gaza, outro tipo de desarmamento entra em debate. Após meses de negociação, o Hamas aceita uma versão preliminar do plano de paz proposto pelo Conselho de Paz idealizado por Donald Trump para a Faixa de Gaza, território cercado onde vivem mais de 2 milhões de palestinos. O grupo, que hoje controla o enclave, sinaliza disposição para um desarmamento completo sob supervisão palestina e internacional, em troca de garantias políticas e de reconstrução.

A mudança ocorre depois da eleição de Khalil al-Hayya como novo líder do Hamas, em substituição a Yahya Sinwar, morto em meio aos combates recentes. O plano em discussão prevê um inventário detalhado das armas, seu armazenamento e a criação de mecanismos de verificação que travam o avanço das etapas caso uma das partes descumpra o combinado. Primeiro, seriam desarmados grupos menores; depois, a infraestrutura militar do próprio Hamas. Ao fim, uma nova autoridade palestina assumiria o controle das armas, apoiada por uma força internacional de estabilização.

Trump apresenta o acerto preliminar como uma vitória pessoal e dos mediadores regionais, que incluem Egito, Catar e Turquia. “Este é um marco importante na implementação do Plano de 20 Pontos de Trump. O acordo será executado em fases cuidadosamente estruturadas”, declara o ex-presidente americano. Uma reunião no Egito deve detalhar a segunda fase do cessar-fogo e o desenho da força internacional, enquanto diplomatas tentam costurar garantias concretas sobre circulação de pessoas, reconstrução e liberação de prisioneiros.

Em Gaza, a recepção é cautelosa. Anos de cercos, bombardeios e acordos que ruíram alimentam um ceticismo generalizado. Moradores temem que o desarmamento do Hamas deixe o território vulnerável sem que Israel relaxe o bloqueio ou aceite um arranjo político duradouro. Há também o risco de grupos ainda mais radicais rejeitarem o plano e passarem a confrontar tanto Israel quanto o próprio Hamas, abrindo uma nova frente de instabilidade interna.

Para a população civil, exausta, o possível desmantelamento das milícias representa ao mesmo tempo alívio e incerteza. Se funcionar, a sequência de fases pode reduzir confrontos, ampliar a ajuda humanitária e criar espaço político para um acordo mais amplo. Se falhar, tende a reforçar a percepção de que grandes iniciativas internacionais servem mais a agendas externas do que à vida cotidiana dos palestinos.

Fala de Lula sobre Guerra do Paraguai abre ferida diplomática

No Cone Sul, o passado volta ao centro da política. Em evento recente no interior de São Paulo, Lula resume a origem da Guerra do Paraguai com uma frase que repercute imediatamente em Assunção. “Um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos”, diz o presidente.

A fala, tomada como simplificação de um conflito ainda sensível, provoca reação rápida do governo paraguaio. O embaixador brasileiro em Assunção é convocado para prestar esclarecimentos, e o Congresso do país vizinho aprova manifestações de repúdio. A guerra, travada entre a pequena República do Paraguai e a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai, dura de dezembro de 1864 a março de 1870 e devasta o território paraguaio.

O historiador Francisco Doratioto, professor aposentado da Universidade de Brasília, lembra a dimensão humana da catástrofe. “90% dos homens morreram”, resume. Estimativas apontam que a população do Paraguai cai de cerca de 400 mil para menos de 190 mil pessoas ao fim da guerra. As cicatrizes demográficas, econômicas e emocionais ainda moldam a política e a memória nacional no país.

O conflito também é campo de disputa historiográfica. Durante décadas, livros didáticos brasileiros sustentam que a Inglaterra manipula o Brasil para destruir um Paraguai independente e industrializante. Doratioto contesta essa narrativa. “Onde está qualquer documento que prove que foi a Inglaterra? Não existe um documento oficial, não existe nada que mostre que o governo inglês tinha interesse em fazer uma guerra na região”, afirma o pesquisador, que baseia seus estudos em arquivos diplomáticos da época.

A fala de Lula reacende esse embate acadêmico em plena crise diplomática. De um lado, setores paraguaios veem na declaração uma minimização do trauma nacional, como se o país tivesse simplesmente “resolvido” atacar os vizinhos, sem contexto político ou disputas regionais. De outro, historiadores no Brasil cobram mais precisão de um presidente que, ao se referir a um episódio tão sensível, tem sua fala automaticamente convertida em gesto de política externa.

A tensão chega em momento em que Brasil e Paraguai negociam temas estratégicos, como energia de Itaipu, integração de infraestrutura e comércio regional. Um prolongamento da crise pode contaminar debates sobre tarifas, obras conjuntas e iniciativas de cooperação cultural. Diplomatas dos dois lados trabalham para reduzir o atrito, mas o episódio expõe como memórias de guerras do século 19 ainda pesam sobre alianças do século 21.

A soma desses três fios — o clima mais extremo no interior do Brasil, o desarme negociado em Gaza e a história reaberta no Cone Sul — projeta um cenário em que ciência, diplomacia e memória histórica se tornam centrais para lidar com riscos cada vez mais complexos. Nos próximos meses, meteorologistas testam a capacidade do país de responder a uma temporada de tempestades potencialmente recorde; negociadores no Oriente Médio medem se o plano de desarmamento do Hamas resiste à pressão da guerra; e Brasília e Assunção buscam uma saída que reconheça o peso da Guerra do Paraguai sem congelar a cooperação atual.

Por que o Brasil tem tantos tornados?

Porque o país reúne calor e umidade da Amazônia, ar frio vindo do sul e ventos intensos em baixa altitude, combinação que favorece tempestades rotativas na região Sul e Centro-Oeste.

O plano de desarmamento do Hamas já garante paz em Gaza?

Não. O Hamas aceita só uma versão preliminar, em fases, dependente de verificações e da ação de mediadores. O cessar-fogo e a reconstrução seguem incertos.

O que Lula disse que irritou o Paraguai?

Ele afirmou que “um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil”, frase vista em Assunção como simplificação de um conflito traumático e politicamente sensível.


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