PF detalha supostas vantagens e atuação de Jaques Wagner em favor do Banco Master

Relatórios tornados públicos pelo STF descrevem contatos frequentes entre o senador e ex-sócios do Banco Master, além de apontarem suspeitas sobre vantagens recebidas e articulações relacionadas a interesses da instituição financeira.
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A Polícia Federal (PF) detalhou, em relatórios enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF), uma série de elementos que, segundo os investigadores, demonstram uma relação de proximidade entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e os executivos ligados ao Banco Master.

Os documentos, tornados públicos nesta quinta-feira (30) pelo ministro André Mendonça, relator do caso, apontam contatos frequentes, supostas vantagens econômicas, articulações sobre pautas de interesse da instituição financeira e reuniões realizadas no gabinete do parlamentar.

Jaques Wagner foi alvo de busca e apreensão durante a nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de junho. Segundo a PF, há indícios de que o senador tenha recebido benefícios de gestores ligados ao Banco Master em possível contrapartida à atuação parlamentar em temas de interesse da instituição. A defesa afirma que ele permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

Relação de proximidade

De acordo com os investigadores, Jaques Wagner mantinha uma relação considerada “longa e duradoura” com Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master, conhecido como “Guga”. A PF afirma que essa parceria também aproximou o senador do ex-controlador da instituição, Daniel Vorcaro, criando canais de interlocução para tratar de assuntos ligados ao banco.

Mensagens analisadas pela corporação mostram encontros entre as famílias, viagens e demonstrações de amizade. Em outubro de 2023, por exemplo, Wagner e a esposa aceitaram convite para passar um fim de semana na chamada Ilha da Paixão, imóvel então controlado por Augusto Lima. Segundo a investigação, o deslocamento foi feito em uma aeronave ligada ao empresário.

Após a viagem, a esposa do senador enviou uma mensagem afirmando: “A gente ama vcs”. Augusto respondeu: “Amamos vocês!!”. Para a PF, as conversas ajudam a demonstrar o grau de confiança entre os dois núcleos familiares.

Os investigadores também mapearam 74 ligações telefônicas entre Jaques Wagner e Augusto Lima entre novembro de 2023 e maio de 2025, totalizando cerca de cinco horas e meia de conversa.

Acompanhamento de pautas no Senado

Os relatórios apontam que Augusto Lima mantinha o senador informado sobre assuntos relacionados ao Banco Master, como alterações societárias, melhora na classificação de risco da instituição, negociações envolvendo o BRB e movimentações legislativas no Congresso.

Segundo a PF, havia um padrão recorrente de envio de notícias e atualizações sobre o banco, frequentemente respondidas por Wagner com emojis de “joinha” e “mãos em oração”.

A corporação afirma ainda que o senador fazia um acompanhamento direto da chamada “Emenda Master”, proposta formalizada na PEC 62/2023, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), que previa ampliar para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Para os investigadores, Daniel Vorcaro enxergava Jaques Wagner como um aliado político dentro do Congresso Nacional em discussões consideradas estratégicas para a instituição financeira.

Presentes, jatinhos e apartamento de luxo

Outro eixo da investigação reúne supostas vantagens recebidas pelo senador.

Entre os itens apontados pela PF estão listas de presentes de fim de ano com vinhos avaliados entre R$ 2,5 mil e R$ 5,3 mil, uso de aeronaves particulares e ingressos para eventos.

Em uma lista intitulada “Lembranças de Fim de Ano”, enviada pela secretária de Augusto Lima em dezembro de 2024, Jaques Wagner aparece entre autoridades que receberiam presentes, ao lado do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, do prefeito de Salvador, Bruno Reis, do ministro Rui Costa, do ex-prefeito ACM Neto e do presidente nacional do União Brasil, Antônio de Rueda.

A investigação também identificou a compra de ingressos para um show da cantora Taylor Swift. Segundo a PF, o benefício teria atendido não apenas familiares do senador, mas também pessoas próximas à família. Os ingressos teriam custado R$ 63.339 e sido adquiridos pela empresa REAG Investimentos S.A.

Outro ponto sob investigação envolve a negociação de um apartamento no empreendimento Poème Horto, em Salvador, avaliado em R$ 2,5 milhões.

Segundo a PF, Wagner enviou a Augusto Lima informações sobre o imóvel, incluindo o número da unidade, o contato do corretor responsável e o valor da negociação. Os investigadores sustentam que operadores financeiros ligados ao grupo passaram a estruturar a aquisição utilizando fundos e empresas interpostas, em modelo semelhante ao investigado em outras operações envolvendo o Banco Master.

As tratativas, segundo a corporação, continuaram mesmo após a prisão de Daniel Vorcaro, em novembro de 2025.

Reuniões e monitoramento

Os documentos também relatam reuniões entre Jaques Wagner e Augusto Lima no gabinete do senador.

Em abril de 2024, um áudio atribuído ao parlamentar mostra a tentativa de organizar um encontro com Augusto Lima e uma pessoa identificada como “Messias”, nome que, segundo a PF, poderia fazer referência ao advogado-geral da União, Jorge Messias.

Na gravação, Wagner afirma que o gabinete seria um local “mais protegido e discreto” e orienta uma logística para que Augusto entrasse sem passar pelo procedimento de identificação.

Procurada, a Advocacia Geral da União negou qualquer participação de Jorge Messias na reunião, afirmando que “nunca esteve em reunião com o Senhor Lima no gabinete do senador Jaques Wagner”.

Antes da operação realizada em junho, Mendonça autorizou a PF a monitorar, por dez dias, a localização aproximada do celular do senador por meio das antenas das operadoras. A decisão permitiu acesso ao histórico de ligações, registros de SMS sem conteúdo, identificação dos aparelhos e conexões de internet, mas não autorizou escutas nem acesso ao conteúdo das conversas.

Ao justificar a medida, o ministro citou um episódio que, segundo ele, aumentava o risco de vazamento da investigação: no mesmo dia em que a PF apresentou os pedidos de busca e apreensão, além do monitoramento dos celulares, um dos alvos solicitou audiência com o gabinete do relator.

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