Milei endurece regras e amplia tensão com estrangeiros na Argentina

Medida autoriza barrar ou expulsar estrangeiros acusados de promover ódio contra argentinos e amplia o desgaste com o governo Lula
Redação NC News
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Javier Milei assina um decreto que permite barrar a entrada e expulsar estrangeiros acusados de promover ódio, discriminação ou violência contra argentinos, além de punir atos ofensivos aos símbolos nacionais. A medida atinge diretamente turistas, residentes estrangeiros e vizinhos do Mercosul, em meio a uma crise diplomática aberta com o Brasil.

Decreto endurece lei migratória e mira discurso de ódio

O governo argentino enquadra o texto como Decreto de Necessidade e Urgência, o DNU, instrumento que tem força de lei imediata. O texto altera a Lei de Migrações para incluir como motivo de impedimento de ingresso ou expulsão qualquer manifestação considerada hostil contra a Argentina.

Em termos práticos, a norma passa a autorizar a negativa de entrada ou a retirada compulsória de estrangeiros que, segundo as autoridades, promovam “mensagens de ódio” contra argentinos, incentivem discriminação, defendam ou estimulem violência em razão da nacionalidade ou pratiquem atos vistos como ofensivos à bandeira, ao hino e a outros símbolos nacionais.

O comunicado da Casa Rosada adota tom nacionalista. “O Governo Nacional reafirma que a defesa da Nação, de seus cidadãos e de seus símbolos não é negociável. Quem atacar a República Argentina não é bem-vindo em nosso país”, afirma a Presidência.

A decisão surge poucas horas depois de uma escalada verbal que tem Milei no centro. Em evento político em São Paulo, o presidente argentino chamou Luiz Inácio Lula da Silva de “presidiário” e se referiu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como “lixo careca”. As declarações, feitas diante de uma plateia alinhada à direita brasileira, provocam reação imediata em Brasília.

Crise com o Brasil e pressão no Mercosul

O Itamaraty convoca o embaixador argentino no Brasil para prestar esclarecimentos e chama de volta para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires. O movimento expõe o desconforto do governo Lula com o tom de Milei e sinaliza que a paciência com o aliado vizinho está no limite.

A chancelaria brasileira divulga nota classificada internamente como dura, na qual considera as falas de Milei “ríspidas, grosseiras e inaceitáveis” e as vê como interferência em assuntos internos. O chanceler Mauro Vieira fala em episódio “sem precedentes” no relacionamento recente entre os dois países.

Milei, em entrevistas a veículos argentinos, sustenta que o Brasil financia parte de uma suposta “campanha anti-Argentina” no exterior. Cita porcentuais, fala em 25% do total, mas não apresenta provas. Auxiliares de Lula tratam a acusação como delírio político e avaliam, nos bastidores, que o presidente argentino busca transformar o atrito em combustível para sua base interna.

O choque atinge um dos eixos centrais do Mercosul: a circulação facilitada de pessoas. Brasileiros, uruguaios e paraguaios entram hoje na Argentina apenas com documento de identidade válido, permanecem por até 90 dias como turistas e podem solicitar residência com menos burocracia do que cidadãos de fora do bloco. O novo decreto, ao abrir margem para restrições com base em discurso, introduz incerteza para milhões de viajantes habituais, do turismo de compras ao trabalhador de fronteira.

Especialistas veem risco de inconstitucionalidade

Juristas argentinos apontam dois flancos principais de fragilidade do decreto: a forma e o conteúdo. Na forma, questionam o uso do DNU para alterar regras migratórias em um contexto em que não há guerra, desastre natural nem emergência legislativa evidente.

“O presidente não quer esperar por esse processo e, em vez disso, exerce o poder legislativo. Isso é inconstitucional devido à ausência de circunstâncias excepcionais”, afirma o advogado constitucionalista Andrés Gil Domínguez. Ele lembra que a Constituição argentina reserva os decretos de necessidade e urgência a situações em que o Congresso não consegue deliberar em tempo hábil.

No conteúdo, a crítica recai sobre a amplitude e a subjetividade dos conceitos de “ódio” e “ofensa” aos símbolos. Especialistas alertam que a redação abre espaço para perseguição seletiva e pode afetar a liberdade de expressão de estrangeiros, inclusive residentes de longa data, jornalistas e ativistas.

O histórico recente reforça as dúvidas. Em maio de 2025, Milei já havia alterado a Lei de Migrações por meio de outro DNU, também sob questionamento judicial. Antes dele, o ex-presidente Mauricio Macri tentou acelerar a expulsão de estrangeiros envolvidos em crimes por decreto semelhante. A iniciativa acabou revogada após contestação nas cortes.

Fiscalização improvável e efeito econômico

No terreno prático, a pergunta central é como o Estado argentino pretende aplicar a medida. Para barrar a entrada de um estrangeiro por discurso de ódio, seria necessário algum tipo de monitoramento prévio de suas manifestações, inclusive nas redes sociais. O governo não detalha hoje se haverá triagem sistemática, cruzamento de dados com outros países ou denúncias individuais.

Controlar o que milhões de turistas dizem em ambientes digitais e privados exige uma máquina de vigilância que a burocracia argentina não possui. Funcionários de fronteira, responsáveis por autorizar a entrada em aeroportos e postos terrestres, operam hoje com informações básicas: antecedentes criminais, vistos e alertas específicos. Introduzir critérios subjetivos, como ofensa a símbolos nacionais, tende a gerar decisões desiguais e contestações judiciais.

No Mercosul, o impacto pode ser imediato. Cidades gêmeas na fronteira, que dependem do vai e vem diário de consumidores e trabalhadores, temem queda de movimento caso a percepção de risco jurídico se espalhe. O turismo de brasileiros na Argentina, especialmente em destinos como Buenos Aires, Bariloche e Mendoza, entra no radar de agências de viagem, preocupadas com possíveis casos de deportação midiática.

Economistas próximos ao governo admitem, em caráter reservado, que o decreto pode ter custo reputacional, mas defendem que o ganho político interno compensa. Assessores de Milei avaliam que a narrativa de “Argentina sitiada” por uma campanha estrangeira reforça o apoio de setores nacionalistas e da direita dura, que veem o presidente como alguém disposto a “enfrentar o mundo”.

Liberdade de expressão em jogo e próximos passos

Organizações de direitos humanos e entidades de juristas começam a articular ações para suspender o decreto. O caminho provável passa por recursos na Justiça federal argentina e, em paralelo, pela pressão para que o Congresso debata o tema e limite o alcance do DNU.

No plano internacional, diplomatas brasileiros acompanham o caso com cautela. Interlocutores em Brasília admitem que o governo pode recorrer a fóruns regionais, como instâncias do Mercosul, para questionar medidas que violem a livre circulação de pessoas prevista em acordos do bloco. A ordem política, por ora, é evitar escalada retórica e concentrar o desgaste em notas oficiais e gestos diplomáticos calculados.

Porta-vozes de Milei tentam reduzir o peso da crise. “Sempre houve xingamentos entre Argentina e Brasil”, afirma um deles, sugerindo que a tensão atual repete um folclore histórico de provocações entre torcidas e governos. O argumento não convence diplomatas veteranos, que veem o episódio como o mais sério atrito bilateral em muitos anos.

O futuro imediato do decreto depende de três frentes: a reação dos tribunais, a disposição do Congresso em revisá-lo e o custo político que a Argentina aceitará pagar nas relações com vizinhos e parceiros comerciais. Enquanto isso, turistas e residentes estrangeiros passam a viver com uma dúvida incômoda: o que se diz nas redes ou em um ato político pode, de agora em diante, custar o direito de entrar ou permanecer no país.

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