Ferroviários das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM decidem em assembleia nesta segunda-feira (3) se param a partir da zero hora de terça (4). A categoria cobra garantias de emprego após a concessão dos ramais à concessionária Trivia Trens e ameaça uma greve que pode atingir centenas de milhares de passageiros na região metropolitana de São Paulo.
Greve mira concessão e falta de garantias
O Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil (STEFZCB) conduz a mobilização. A assembleia avalia a resposta do governo estadual às reivindicações apresentadas nos últimos dias. Se a proposta for rejeitada, o sindicato pretende aprovar a paralisação já para a madrugada.
O eixo central do conflito é o futuro dos empregos após a mudança de gestão. Segundo materiais divulgados pela entidade, “a principal reivindicação é a manutenção dos empregos dos ferroviários após a concessão das três linhas à Trivia Trens”. O sindicato também cobra um posicionamento formal sobre o destino dos trabalhadores que hoje atuam nos ramais.
A concessão das linhas 11, 12 e 13 à iniciativa privada se torna um novo foco de desgaste para o governo paulista, liderado por Tarcísio de Freitas. A disputa opõe o plano de ampliar privatizações no transporte sobre trilhos à tentativa de preservar direitos trabalhistas e a estabilidade de uma categoria que opera alguns dos corredores mais cheios da Grande São Paulo.
Operação sob intervenção e risco para passageiros
A tensão explode poucos dias depois de a Trivia Trens assumir integralmente os serviços. Problemas operacionais em sequência levaram o governo a acionar um freio de arrumação. Por determinação do Estado, a CPTM retoma temporariamente o comando das três linhas por até 90 dias, em um regime de gestão conjunta com a concessionária.
Na prática, a estatal volta aos trilhos justamente no momento em que seus funcionários se sentem mais ameaçados. Os ferroviários afirmam que a transição para a Trivia Trens ocorre sem clareza sobre quem será absorvido, em que condições e com quais garantias. A ausência de um plano detalhado para a mão de obra alimenta o clima de insegurança interna e impulsiona a assembleia de hoje.
As linhas em disputa atendem trechos estratégicos. A 11-Coral liga a zona leste ao Alto Tietê, a 12-Safira corta bairros populosos até Poá e a 13-Jade conecta a capital ao aeroporto de Guarulhos. Uma paralisação, ainda que parcial, tende a empurrar passageiros para outras linhas de trem, para o metrô e para o sistema de ônibus, pressionando uma rede que já opera perto do limite em horários de pico.
Impactos na economia e na política de transportes
Uma greve nesta semana pode provocar atrasos significativos em deslocamentos de trabalho e estudo, além de encarecer o dia a dia de quem depende do trem. Sem plano de contingência detalhado divulgado até agora, o governo corre para tentar evitar imagens de plataformas lotadas, filas em terminais de ônibus e trânsito mais pesado em vias de acesso à capital.
Empresas localizadas no eixo leste da região metropolitana devem sentir os efeitos primeiro. Funcionários que usam as linhas 11, 12 e 13 podem enfrentar dificuldades para chegar no horário, com impacto direto na produtividade. Motoristas de aplicativos e linhas de ônibus intermunicipais tendem a ver aumento imediato na demanda, com reflexos nas tarifas dinâmicas e na superlotação.
O episódio se soma a outras polêmicas envolvendo concessões recentes no sistema sobre trilhos paulista. A necessidade de reintegrar a CPTM à operação por 90 dias expõe fragilidades no processo de transferência para a iniciativa privada. A Trivia Trens, que deveria demonstrar eficiência logo na largada, passa a lidar com falhas públicas, resistência sindical e desconfiança de parte dos usuários.
Quem para e quem segue rodando
A eventual paralisação atinge somente as linhas originárias da antiga malha da Central do Brasil. A Linha 10-Turquesa, que segue sob operação permanente da CPTM, não entra na greve convocada pelo STEFZCB. Outras concessões recentes, como as operadas por TIC Trens e Motiva, também ficam de fora, já que seus trabalhadores são filiados a sindicatos diferentes.
A limitação geográfica, porém, não reduz o peso político da decisão. A disputa por esses três ramais se torna um teste de fôlego para o projeto de ampliação das concessões ferroviárias no Estado. A forma como o governo conduzir a crise — com negociação efetiva ou confronto — pode influenciar futuras licitações e acordos com o setor privado.
Se a greve for aprovada hoje e mantida nos próximos dias, a pressão tende a se deslocar da mesa de negociação para a opinião pública. O Palácio dos Bandeirantes será cobrado a equilibrar duas exigências contraditórias: manter a qualidade e a segurança do serviço para milhões de passageiros e, ao mesmo tempo, preservar ou compensar adequadamente os trabalhadores agora sob a sombra da nova concessionária.
Os próximos passos dependem do desfecho da assembleia desta segunda-feira. Governo, CPTM e Trivia Trens terão de decidir se ampliam as concessões feitas até aqui, se aceitam formalizar garantias de emprego ou se partem para uma queda de braço prolongada com o sindicato. A forma como essa equação será resolvida pode redefinir, por muitos anos, o modelo de transporte sobre trilhos em São Paulo.