Tarcísio de Freitas usa Soninha para dividir voto ao Senado SP

Governador de SP aposta em candidatura de Soninha para enfraquecer adversárias de Lula na disputa ao Senado.
Redação NC News
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Tarcísio de Freitas aciona uma manobra paralela na disputa ao Senado em São Paulo: incentiva a candidatura avulsa de Soninha para tentar fatiar o voto moderado e enfraquecer as candidatas ligadas a Lula.

Estratégia silenciosa para isolar Tebet e Marina

Em conversas reservadas, o governador admite a interlocutores que ajudou a impulsionar o nome de Soninha, que concorre pela federação PSDB-Cidadania, fora da chapa oficial de seu grupo. A ex-vereadora circula como opção moderada para o eleitor que se incomoda com o bolsonarismo, mas não se identifica totalmente com o campo petista.

O cálculo é explícito. Segundo aliados que acompanham a montagem da chapa, Tarcísio avalia que Soninha pode disputar diretamente com Simone Tebet e Marina Silva uma fatia do eleitorado urbano, escolarizado e ambientalista, hoje concentrado nas candidatas de Lula. “O governador confidenciou a aliados ter ajudado a dar impulso a Soninha”, resume uma fonte próxima ao núcleo político do Palácio dos Bandeirantes.

Nessa leitura, Soninha entra como anteparo no centro político, sem vínculo formal com a campanha majoritária de Tarcísio. O governador considera que Marina não se mantém competitiva até o fim, mas enxerga em Tebet risco real de vitória. “Embora não acredite que Marina Silva seja competitiva até o final da campanha, considera que Simone Tebet tem chances de ser eleita e acha que Soninha tem potencial para disputar uma fatia desse eleitorado”, diz um aliado que participa das reuniões eleitorais.

Candidatos oficiais patinam nas pesquisas

O movimento ocorre porque a engrenagem original não funciona como o planejado. Os dois candidatos oficiais da coligação de Tarcísio ao Senado, André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP), seguem com baixa adesão nas pesquisas. No último levantamento Genial/Quaest, Prado aparece com 5% e Derrite com 7% das intenções de voto.

Na mesma pesquisa, Simone Tebet marca 12%, Marina Silva soma 14% e Pablo Marçal, do União Brasil, atinge 9%, mesmo estando inelegível hoje. Os números escancaram o problema: as duas vagas em jogo para o Senado por São Paulo, hoje, se encaminham para candidaturas fora do círculo direto do governador.

Enquanto Tarcísio caminha para a reeleição ao governo em cenário confortável, sua maior apreensão está no outro tabuleiro. Controlar as duas cadeiras que São Paulo renova no Senado significa reforçar sua influência em Brasília, proteger sua base no Congresso e ganhar fôlego para futuros rearranjos nacionais. A possibilidade de ver o estado entregar ao Senado duas aliadas de Lula é tratada como derrota estratégica.

Soninha como peça-chave no voto moderado

Na prática, a ideia é que Soninha retire força principalmente de Marina Silva, hoje deputada federal por São Paulo e nome com trajetória forte no campo ambiental. Aliados do governador dizem acreditar que a ex-vereadora tem condições de dialogar com um eleitor progressista, mas menos identificado com o PT.

Ex-filiada ao partido de Lula e com passagem pelas gestões de Gilberto Kassab e João Doria na prefeitura paulistana, Soninha acumula um histórico ligado a direitos humanos e causas ambientais. Ao mesmo tempo, modera o discurso e se apresenta como alternativa reformista, sem a polarização que marca a política nacional. Esse perfil interessa ao Palácio dos Bandeirantes.

O risco é evidente. Mesmo desenhada para atuar como linha auxiliar, a candidatura de Soninha pode acabar roubando votos de Prado e Derrite. Tarcísio e seus conselheiros apostam que a maior parte desse eleitorado, no entanto, não migraria para os dois bolsonaristas, e sim ficaria entre Tebet, Marina ou nomes semelhantes. Melhor, nesse cálculo, que essa parcela se divida entre três candidaturas do que se concentre em duas ligadas a Lula.

Direita fragmentada e ameaça no campo lulista

Do lado direito, o cenário também não é simples. Além de Prado e Derrite, surge a candidatura de Ricardo Salles (Novo), ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, que tenta se firmar como dissidência crítica ao PL paulista. Há ainda o fator Pablo Marçal, que busca reverter no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo a inelegibilidade imposta após espalhar fake news contra Guilherme Boulos na eleição municipal passada.

A multiplicação de nomes no mesmo campo acende alerta sobre a pulverização de votos conservadores. Mesmo assim, Tarcísio insiste na tese de que Soninha drena mais eleitores de Tebet e Marina do que da sua própria base. A aposta é que o eleitor bolsonarista “raiz” se mantenha com Prado, Derrite ou, em menor escala, Salles.

No entorno de Lula, a leitura é oposta. A presença de Soninha é vista como tentativa explícita de confundir o eleitor de centro-esquerda, enfraquecendo especialmente Marina em redutos ambientalistas da capital e da região metropolitana. A resposta esperada é a intensificação das agendas de rua, maior exposição em debates e um esforço concentrado de comunicação para colar em Tebet e Marina a imagem de candidatas viáveis, em contraste com a fragmentação do outro lado.

Disputa aberta e impacto nacional

A eleição ao Senado por São Paulo se mantém como uma das mais abertas do país. As duas cadeiras em disputa, sem nenhum senador buscando reeleição, tornam o cenário ainda mais volátil. Na prática, qualquer movimento que mude poucos pontos percentuais pode redefinir completamente o quadro.

No quartel-general de Tarcísio, a ordem agora é multiplicar frentes. A campanha acelera a captação de recursos, ajusta peças de marketing e monitora eventuais investigações que possam atingir operadores políticos ligados às candidaturas. Do outro lado, o bloco lulista tenta blindar Simone Tebet e Marina Silva de ataques cruzados e ruídos internos.

O desfecho dessa disputa tende a ir além da geografia paulista. O resultado das duas vagas do estado mais populoso do país ajuda a redesenhar o equilíbrio de forças no Senado e influencia a governabilidade do próximo ciclo presidencial. Se a tática da candidatura avulsa funcionar ou não, só o eleitorado de São Paulo, nas próximas semanas, vai definir.

 

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