O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê a formação de um ciclone extratropical no Sul do Brasil nesta semana, ao mesmo tempo em que confirma a manutenção de um El Niño classificado como “muito forte” até o início de 2027. A combinação de ventos de até 90 km/h, chuvas intensas no Sul e seca severa no centro-norte acende um alerta imediato para riscos de desastres, queimadas e impactos na economia.
Ciclone deve levar ventos de até 90 km/h ao Sul
Nesta segunda-feira, as chuvas se concentram na região Sul, sobretudo no centro-sul do Rio Grande do Sul e áreas próximas à divisa com Santa Catarina, Paraná e Argentina. A mudança mais brusca, porém, está prevista para a quinta-feira, quando o ciclone extratropical começa a se organizar entre Argentina, Uruguai e o território gaúcho.
“Vai se formar um ciclone extratropical pela Argentina com Rio Grande do Sul e Uruguai, na quinta-feira (6). Depois vai deslocar-se para o Oceano Atlântico e pegar o litoral do Rio Grande do Sul no início do dia 7. Ventos fortes de 80 km/h a 90 km/h devem ocorrer em grande parte do Rio Grande do Sul”, afirma o meteorologista e consultor climático Francisco de Assis. A projeção é que o sistema ganhe força ao longo de dois dias.
A frente fria associada ao ciclone deve espalhar rajadas de vento próximas de 80 km/h para o sul de Mato Grosso do Sul, o oeste e sul do Paraná e áreas de Santa Catarina. O cenário se soma a vários dias de instabilidade no Sul, com chuva, trovoadas, rajadas e risco de granizo, sobretudo no território gaúcho, onde o Inmet já emite avisos de perigo para tempestades e ventos costeiros.
O potencial de danos é alto. Ventos entre 80 km/h e 90 km/h costumam derrubar árvores, destelhar casas, interromper o fornecimento de energia e afetar estradas e portos. No campo, culturas sensíveis a excesso de água e ventania, como hortaliças e frutas, podem sofrer prejuízos em poucas horas.
Interior seco, baixa umidade e risco de queimadas
Enquanto o Sul se prepara para a ventania, grande parte do país enfrenta o extremo oposto: tempo firme e ar muito seco. O Inmet monitora índices de umidade relativa do ar inferiores a 20% em áreas do Tocantins, sudeste do Pará, oeste da Bahia e sul do Piauí. Em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal, os avisos indicam tardes com condições críticas.
Umidade abaixo de 20% está no patamar de emergência, segundo parâmetros de saúde. A combinação de calor, ar seco e ventos moderados facilita a propagação de queimadas urbanas e rurais, piora a qualidade do ar e agrava doenças respiratórias. Autoridades de saúde reforçam orientações sobre hidratação, uso de umidificadores e restrição a atividades físicas sob sol forte.
Na região Norte, as chuvas se concentram entre Roraima, norte do Amazonas, litoral do Pará e Amapá, com trovoadas isoladas. Rondônia, Tocantins, centro-sul do Pará e parte do Acre seguem com tempo aberto, sob influência da mesma massa de ar seco. No Nordeste, a chuva se limita principalmente à faixa litorânea, com maior intensidade no litoral da Bahia, enquanto o interior permanece novamente seco.
No Centro-Oeste, apenas o sul e o sudoeste de Mato Grosso do Sul registram previsão de chuva isolada. No Sudeste, a instabilidade se restringe ao Espírito Santo, ao leste de Minas Gerais e a trechos do litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro. Nas demais áreas, o tempo segue firme, e há possibilidade de geada nas serras do sul de Minas Gerais durante as madrugadas, em contraste com o calor e o ar seco das tardes.
El Niño muito forte altera chuva e aumenta risco de desastres
O mesmo boletim que projeta a semana de contrastes no país traz o pano de fundo global: um El Niño em rápida intensificação no Pacífico Equatorial. Segundo o Painel El Niño 2026–2027, elaborado por Inmet, Inpe, Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), há mais de 90% de probabilidade de o fenômeno se manter pelo menos até o início de 2027.
Os dados apontam para um El Niño de intensidade “muito forte” entre a primavera e o verão deste ano, quando os desvios de temperatura da superfície do mar no Pacífico central e oriental devem ultrapassar 2,0°C acima da média. Esse aquecimento muda a circulação atmosférica em grande escala e reorganiza as faixas de chuva no planeta.
Para o trimestre que começou em julho e segue com agosto e setembro, a previsão indica chuvas acima da média na Região Sul e volumes abaixo do normal em grande parte do centro-norte do Brasil, incluindo áreas do Nordeste e partes das regiões Norte e Centro-Oeste. O boletim destaca pontos de seca moderada a severa em Tocantins, Pará, Amazonas, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, cenário que ameaça lavouras, pastagens e reservatórios de água.
Órgãos do governo monitoram impactos sobre agricultura, recursos hídricos, energia e transporte. Em um país que depende de hidrelétricas e exporta grandes volumes de grãos, a combinação de estiagem prolongada no centro-norte com excesso de chuva no Sul pode mexer com preços de alimentos, custos de energia e infraestrutura logística.
ONU fala em “alerta climático urgente”; Brasil reage
O quadro brasileiro se encaixa nos avisos globais da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização Meteorológica Mundial, que classificam o avanço do El Niño como um “alerta climático urgente”. A agência meteorológica da ONU projeta que o fortalecimento do fenômeno a partir deste mês eleva ainda mais as temperaturas do planeta e aumenta a frequência de eventos extremos, como ondas de calor, tempestades severas e secas intensas.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, fala em emergência climática e cobra ações concretas de governos. No Brasil, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e outras pastas dizem reforçar estruturas para enfrentar os efeitos do El Niño, com foco em combate a queimadas, manejo de água e apoio a produtores rurais. O Inmet ressalta que, apesar da coincidência temporal, não há relação direta entre a ventania prevista no Sul e o El Niño, que atua principalmente na escala de meses e estações.
Nas próximas semanas, os mapas do Inmet, alimentados por radar, satélite e dados meteorológicos de superfície, ganham importância ainda maior para gestão de risco. Governos estaduais e municipais dependem de alertas diários para decidir sobre fechamento de estradas, remoção preventiva de famílias em áreas de risco, restrições a queimadas e campanhas de saúde pública contra o ar seco.
O desafio agora é duplo: responder aos eventos extremos imediatos, como o ciclone extratropical previsto para o Sul e a baixa umidade no interior, e ao mesmo tempo planejar a convivência com um El Niño muito forte até 2027. A forma como o país se adapta nos próximos meses pode definir o tamanho dos prejuízos econômicos e humanos desta nova temporada de extremos climáticos.