O governo federal anuncia um pacote de R$ 1,3 bilhão para enfrentar os efeitos do El Niño previsto para o ciclo climático 2026/2027 no Brasil.
A medida mira, sobretudo, a segurança alimentar, o risco de apagões e a pressão sobre o sistema de saúde, diante de uma combinação de seca extrema, calor e chuvas intensas.
Seca no Norte, atraso de chuvas e temporais no Sul
As projeções oficiais indicam um cenário desigual no país. Segundo o governo, o fenômeno deve provocar seca mais intensa na Região Norte, atraso das chuvas no Centro-Oeste e Sudeste e precipitações acima da média no Sul.
O diagnóstico preocupa pela soma de riscos. Na Amazônia, a estiagem tende a agravar queimadas, reduzir a navegação em rios estratégicos e comprometer o transporte de combustíveis e alimentos. No Sul, o excesso de chuva aumenta a chance de enchentes e deslizamentos em áreas urbanas e rurais.
“Segundo projeções citadas pelo governo, o fenômeno deve provocar seca mais intensa na Região Norte, aumento do risco de incêndios florestais, atraso das chuvas no Centro-Oeste e Sudeste e precipitações acima da média no Sul, com possibilidade de enchentes e deslizamentos”, afirma a avaliação técnica divulgada pela gestão federal.
O quadro climático também ameaça a produção agrícola em polos de grãos do Centro-Oeste e do Matopiba, além de colocar pressão extra sobre cidades densamente povoadas, como Rio de Janeiro e São Paulo, mais vulneráveis a ondas de calor e tempestades concentradas.
R$ 850 milhões em arroz e milho para evitar desabastecimento
O núcleo do pacote está na alimentação. Do total anunciado, R$ 850 milhões vão para a formação de estoques públicos, com a compra de 310 mil toneladas de arroz e 180 mil toneladas de milho.
O objetivo é criar um colchão de segurança para o caso de quebra de safra em regiões produtoras. A combinação de seca prolongada em áreas agrícolas e excesso de chuva em outras costuma afetar plantio, colheita e logística, com reflexos diretos nos preços ao consumidor.
“Maior parte do recurso será destinada à compra de 310 mil toneladas de arroz e 180 mil toneladas de milho para reforçar os estoques públicos diante do risco de quebra de safra”, informa a nota do governo.
A estratégia é evitar uma repetição de choques recentes de preços em itens básicos da cesta, que tiveram forte impacto sobre famílias de baixa renda e programas sociais. Com estoques reforçados, o governo ganha margem para intervir no mercado, se necessário, e garantir abastecimento em regiões mais isoladas.
Incêndios, saúde e energia entram em modo de alerta
Além da comida no prato, o plano mira outros flancos sensíveis. O pacote prevê recursos para ampliar ações de combate a incêndios florestais, fortalecer o monitoramento climático e reforçar a estrutura de saúde para emergências.
A expectativa é de aumento significativo no número de queimadas, sobretudo na Amazônia e em áreas de Cerrado, com impactos na qualidade do ar, em doenças respiratórias e na infraestrutura de transporte. O governo anuncia reforço nas operações em áreas consideradas prioritárias, com equipes adicionais e mais equipamentos.
Na saúde, a orientação é preparar o Sistema Único de Saúde para picos de demanda ligados a ondas de calor, fumaça de queimadas, enchentes e deslizamentos. A previsão é fortalecer centros de monitoramento de doenças relacionadas ao clima e ampliar a capacidade de resposta rápida em desastres.
O setor elétrico também entra no centro da estratégia. Com reservatórios sob risco de queda acentuada, sobretudo na Região Norte, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) se antecipa.
“ONS põe termelétricas de prontidão para garantir energia diante dos riscos climáticos”, informa o operador, que monitora diariamente níveis de água e a necessidade de geração adicional.
A estiagem em grandes rios amazônicos pode reduzir a geração de usinas hidrelétricas estratégicas e, ao mesmo tempo, dificultar o transporte de diesel para termelétricas isoladas, o que exige planejamento cuidadoso de estoques e logística.
Coordenação com estados e risco de custo maior na conta
Para lidar com a complexidade do fenômeno, o governo monta uma Sala de Situação do El Niño, que reúne dezenas de ministérios e órgãos federais. A função é acompanhar, em tempo real, a evolução do clima, cruzar dados de chuva, temperatura, reservatórios e queimadas e disparar alertas para estados e municípios.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) acompanha as decisões do ONS sobre o uso de termelétricas. A tendência, em cenário de seca prolongada, é maior dependência dessas usinas, mais caras e poluentes do que as hidrelétricas. Isso pode pressionar o custo da energia ao longo do período, com possível impacto nas bandeiras tarifárias.
Para o consumidor, o pacote não elimina os riscos, mas reduz a chance de colapsos simultâneos de abastecimento de alimentos, energia e serviços básicos. O sucesso da estratégia depende de execução rápida, da cooperação com governos estaduais e de respostas ajustadas à realidade de cada região.
Na Amazônia, a prioridade é garantir diesel, gás de cozinha e alimentos para cidades isoladas, mesmo com rios em níveis historicamente baixos. No Sul, o desafio passa por defesas civis estruturadas para lidar com enchentes repetidas e deslizamentos em áreas já fragilizadas.
O plano marca uma mudança de foco, com mais ênfase em prevenção do que apenas em resposta a desastres. O próximo teste virá com a chegada efetiva do período mais intenso do El Niño, quando se verá se os bilhões liberados hoje conseguem amortecer os efeitos de um clima cada vez mais extremo.