Com 2 a 0 na bagagem e a vaga às quartas de final ao alcance, o Internacional se prepara para encarar um ambiente hostil contra o Corinthians, na Neo Química Arena, pelo jogo de volta das oitavas de final da Copa do Brasil. O time de Paulo Pezzolano chega em vantagem, mas entra em campo sabendo que qualquer relaxamento pode custar caro diante de um rival empurrado por casa cheia.
Vantagem sólida, mas nada garantido
O placar construído no Beira-Rio permite ao Inter perder por até um gol de diferença e ainda assim avançar. Se o Corinthians devolver o 2 a 0, a decisão vai para os pênaltis. Na prática, o time gaúcho joga por três resultados: vitória, empate ou derrota mínima.
A matemática favorece os colorados. Em 15 confrontos de mata-mata em que abriu 2 a 0 ou mais na ida, o Inter sempre voltou classificado. A estatística reforça a confiança, mas não garante sossego. O próprio Corinthians sustenta um histórico recente de viradas depois de derrotas por dois ou mais gols, em três duelos eliminatórios entre 2022 e 2023.
Nesse cenário, o clube paulista repete o discurso da crença. “Primeira coisa é acreditar, não é uma situação fácil. Vamos procurar fazer nosso melhor. Já fizemos ótimas partidas em casa. O time tem potencial para repetir, mesmo sabendo que o Inter tem uma grande equipe, bem treinada”, afirma o técnico Fernando Diniz.
Pressão máxima em Itaquera e disputa pelo controle emocional
O Corinthians prepara uma noite de alta voltagem em sua arena. Todos os ingressos estão vendidos e a expectativa é de 47 mil torcedores empurrando o time desde o aquecimento. A promessa é de pressão constante, sobretudo nos minutos iniciais, quando um gol rápido pode redesenhar o confronto.
Paulo Pezzolano sabe que o jogo passa tanto pela força mental quanto pelo posicionamento em campo. “Temos de estar muito fortes mentalmente. E se pudermos matar o jogo, matar o jogo. Encontrar o espaço e fazer um gol rápido seria ideal, mas sabemos que não vai ser fácil ter esses espaços”, diz o treinador uruguaio.
Ele projeta um Corinthians ainda mais agressivo, com aposta pesada na bola aérea, especialmente se Pedro Raul iniciar a partida. “Vamos nos preparar para este jogo que vai ser mais difícil ainda. Eles colocam muito a bola dentro da área, trabalham por dentro também. Temos que ser inteligentes sobre o que fazer no próximo jogo. Precisamos de altura dentro da área”, explica Pezzolano.
Arbitragem sob holofotes e clima político na decisão
Enquanto os técnicos afinam estratégias, o ambiente extracampo esquenta. O Corinthians reclama publicamente da arbitragem em postagens nas redes sociais e leva o tema à Confederação Brasileira de Futebol. No Beira-Rio, a leitura é de tentativa de influenciar o apito.
“O clube reclamou de arbitragem nas redes sociais e pressiona a CBF”, relata o presidente colorado Alessandro Barcellos, que classifica o movimento como “tentativa de condicionamento da arbitragem”. A crítica amplia a tensão em torno do trio de arbitragem, que entra em campo sob olhar desconfiado de ambos os lados.
Em campo, a mensagem de Pezzolano é de foco absoluto no plano de jogo. “O próximo duelo vai ser um jogo muito sofrido. Sabemos a qualidade que o Corinthians tem e precisamos ter confiança, muito aplicados no que temos que fazer. Nada está fechado ainda, temos que estar 100%”, afirma o técnico, ciente de que qualquer erro pode reacender a série.
Inteligência tática, bolas aéreas e o risco de se sentar na vantagem
O antídoto traçado pelo Inter passa por inteligência tática, compactação defensiva e resposta rápida aos momentos de pressão. A comissão técnica trabalha com a ideia de travar cruzamentos, proteger a área com jogadores altos e explorar os espaços deixados por um Corinthians obrigado a atacar.
No vestiário colorado, o discurso é de respeito à vantagem, sem acomodação. Daniel Franco, ex-lateral do Inter e hoje técnico do Pelotas, reforça o alerta. “O resultado dá confiança para o jogo da volta. Por isso, o Inter tem que fazer seu jogo, não pode ser uma equipe que vá se sentar no resultado porque é perigoso. Tem de saber a vantagem”, analisa.
Ele lembra o peso da experiência interna. “O clube tem muitos campeões no vestiário, como Abel Braga, e Pezzolano vai saber passar para os atletas que têm de manter a pegada, manter a concentração, o nível alto, a organização”, completa. Para ele, o duelo em Itaquera é um jogo de superação, que vale mais do que apenas a sobrevivência na Copa do Brasil: influencia a confiança e o rumo da temporada.
Quem ganha e quem perde com o desfecho em São Paulo
Uma classificação colorada reforça o bom momento de Pezzolano no comando do Inter, injeta recursos importantes da Copa do Brasil nos cofres do clube e consolida o time como protagonista no cenário nacional. O avanço também dá lastro esportivo à gestão de Alessandro Barcellos, que encontra na campanha um escudo político.
Para o Corinthians, a virada significaria muito mais do que seguir na competição. Representaria uma resposta imediata à pressão da torcida, validaria as apostas de Fernando Diniz e poderia redefinir o clima no elenco. Uma nova queda, porém, ampliaria questionamentos sobre o trabalho em curso e sobre o planejamento do elenco alvinegro.
O que se sabe, na véspera, é que o confronto em São Paulo oferece pouco espaço para meio-termo. Ou o Inter confirma a vantagem e transforma a vitória por 2 a 0 em classificação, ou o Corinthians escreve mais um capítulo em sua história de reações em mata-matas recentes. A noite na Neo Química Arena promete decidir não apenas quem avança, mas também o tom da temporada para dois dos maiores clubes do país.