Sem Cleitinho, eleição em Minas entra em território desconhecido e amplia guerra por votos

Análise aponta que a polarização nacional dificulta alianças em Minas Gerais e torna a sucessão estadual uma das mais imprevisíveis dos últimos anos.
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A um dia do encerramento do prazo para definição das chapas que disputarão o Governo de Minas Gerais, a corrida eleitoral segue marcada por mais dúvidas do que certezas. A desistência do senador Cleitinho (Republicanos), líder isolado nas pesquisas de intenção de voto, embaralhou o cenário e obrigou partidos a refazerem seus cálculos. Mas, para especialistas, a instabilidade vai além da política estadual.

Na avaliação do mestre em Ciência Política e professor do IBMEC, Adriano Cerqueira, a indefinição vivida em Minas é reflexo direto do cenário nacional. A polarização entre os grupos liderados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo ex-presidente Jair Bolsonaro tem dificultado a formação de alianças em todo o país e, consequentemente, atrasado as definições das disputas estaduais.

Polarização nacional chega à política mineira
Para Adriano Cerqueira, embora o debate público costume resumir o momento político à divisão entre direita e esquerda, a disputa eleitoral brasileira está cada vez mais concentrada em torno de dois grupos políticos bem definidos.

“A gente tem duas marcas muito fortes na política brasileira: o lulismo e o bolsonarismo. Eu diria, inclusive, que Bolsonaro talvez seja um fenômeno popular ainda maior que o Lula, porque o Lula conta com a estrutura do PT e dos movimentos sociais, enquanto Bolsonaro tem praticamente apenas a própria liderança. Essa polarização existe e hoje organiza grande parte das escolhas eleitorais do país.”, explica

Segundo o professor, esse ambiente torna mais difícil a construção de alianças políticas. Os partidos aguardam definições das chapas presidenciais antes de fecharem acordos nos estados, especialmente em Minas Gerais, considerado um dos principais colégios eleitorais do país.

“Minas é muito importante na definição da disputa presidencial. O principal nome da oposição ainda enfrenta dificuldades para ampliar alianças e isso repercute diretamente aqui. Tenho uma forte suspeita de que a saída do Cleitinho do Republicanos seja reflexo desse movimento nacional. Enquanto não houver uma definição mais clara no cenário presidencial, essa indefinição também continuará em Minas.”, afirma

Na avaliação de Cerqueira, a tendência é que as definições ocorram apenas nos últimos dias do prazo legal para registro das candidaturas.

Desistência de Cleitinho muda a eleição, mas não define um sucessor
A retirada de Cleitinho da disputa representa a principal mudança da corrida eleitoral até o momento. Líder em todos os levantamentos divulgados nas últimas semanas, o senador deixa a eleição sem indicar um sucessor natural para seu eleitorado. Para o cientista político, a ausência do candidato altera completamente o equilíbrio da disputa.

“De um lado, é bom para os demais candidatos saber que o campeão de votos não vai mais participar. Mas isso gera uma enorme sombra de incerteza. Ele vai apoiar alguém? Se o Cleitinho declarar voto para algum candidato, esse nome ganha um grande empurrão eleitoral.”, conta

Ao mesmo tempo, Adriano Cerqueira avalia que as sucessivas mudanças de posição do senador podem ter provocado desgaste político. Depois de meses adiando uma decisão, disputando espaço dentro do Republicanos e tentando reverter a decisão da direção nacional da legenda, Cleitinho anunciou que não seria candidato ao governo. Para o professor, esse comportamento pode ter afetado a percepção do eleitor.

“Esses últimos movimentos mostraram um candidato muito incerto. Eu não sei se hoje o eleitor confia no candidato Cleitinho. Pode até gostar dele, achar interessante, mas acredito que essas idas e vindas não fizeram bem para a imagem dele. Acho que essa insegurança acabou sendo percebida pelo eleitorado.”, diz Adriano.

Mesmo assim, Cerqueira acredita que o senador continuará sendo uma das peças centrais da eleição. Segundo ele, enquanto Cleitinho não anunciar se apoiará algum candidato ou permanecerá neutro, o cenário seguirá aberto.

Marcelo Aro e Mateus Simões disputam o espaço deixado pelo senador
Com a saída de Cleitinho, outro nome que ganha força nas articulações é Marcelo Aro (PP). Embora sua candidatura ainda dependa das definições partidárias, Adriano Cerqueira avalia que o ex-secretário de Governo pode se transformar em uma das principais alternativas da direita caso consiga unir Republicanos e PL em torno de seu nome.

“O Marcelo Aro pode ser uma surpresa. Ele tem boas articulações, atua muito bem nos bastidores e pode crescer caso consiga consolidar essa coligação. Mas tudo depende das definições nacionais e do fechamento dessas alianças.”, detalha

Ao mesmo tempo, o professor observa que Mateus Simões (PSD) também tenta ocupar parte do espaço político deixado por Cleitinho. Segundo ele, integrantes do governo já demonstraram aproximação com o senador logo após a retirada da candidatura, numa tentativa de atrair seu apoio.

“A gente já ouviu movimentos do Mateus Simões demonstrando solidariedade ao Cleitinho e tentando aproximá-lo. Mas tudo depende da decisão do senador. Se ele declarar apoio, isso pode mudar bastante o cenário, porque nenhum outro candidato tinha o volume de votos que ele vinha apresentando.”, argumenta

Capital não elege governador em Minas
Além da disputa pelos apoios, os candidatos enfrentarão outro desafio considerado histórico nas eleições mineiras: conquistar o eleitorado do interior. Para Adriano Cerqueira, Minas Gerais possui uma característica diferente da maioria dos estados brasileiros. A força eleitoral de BH e da Região Metropolitana, apesar de relevante, não é suficiente para definir sozinha o resultado da eleição.

“Minas é um dos poucos estados em que ter sido prefeito da capital não dá vantagem para ser governador. A Região Metropolitana representa, no máximo, um terço do eleitorado. Isso não garante vitória para ninguém.”, explica

Na prática, essa realidade impõe dificuldades para praticamente todos os principais candidatos já confirmados.

Alexandre Kalil (PDT), ex-prefeito de Belo Horizonte, tenta superar a derrota sofrida na última disputa estadual. Gabriel Azevedo busca ampliar seu conhecimento fora da capital. Patrus Ananias (PT)  aposta na força do eleitorado alinhado ao presidente Lula, enquanto Mateus Simões (PSD)  tenta transformar a visibilidade adquirida no governo estadual em votos espalhados pelas diversas regiões mineiras.

Cerqueira afirma que o desafio é comum a todos.

“O maior desafio desses candidatos é aparecer dentro do Estado. Minas é muito fragmentada regionalmente. Uma campanha forte em Belo Horizonte não garante sucesso eleitoral. É preciso construir presença em todas as regiões.”

Com pouco tempo até o início oficial da campanha, a tendência é que as negociações partidárias e os apoios políticos ganhem ainda mais peso. Sem Cleitinho na disputa e com o cenário nacional ainda indefinido, Minas Gerais entra na reta inicial da campanha com uma eleição completamente aberta, em que alianças e movimentos de bastidores podem ser decisivos para definir quem chegará competitivo ao primeiro turno.

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