Crise no Progressistas expõe racha com bolsonarismo evangélico

Conflitos internos na Federação União Progressista destacam influência do bolsonarismo entre evangélicos em estados-chave.
Redação NC News
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A Federação União Progressista, que reúne União Brasil e Progressistas, adia em Pernambuco sua decisão sobre apoios eleitorais, enquanto enfrenta disputa judicial no Ceará e pressão do bolsonarismo no meio evangélico.

Racha em Pernambuco trava apoio a Raquel Lyra

Em Pernambuco, a convenção da União Progressista, aberta nesta quarta-feira, começa com a expectativa de selar apoio à reeleição da governadora Raquel Lyra (PSD), mas esbarra na falta de consenso. O impasse gira em torno da coligação para o governo e da vaga ao Senado.

O Progressistas banca o nome do deputado federal Eduardo da Fonte para o Senado na chapa da governadora, mas a ala do União Brasil resiste à coligação. O deputado federal Fernando Filho, irmão do ex-prefeito Miguel Coelho, resume o clima de desconfiança: “A gente sempre defendeu que os dois partidos têm o direito de apresentar seus candidatos. Não é porque Miguel não é candidato que a gente acha que Eduardo da Fonte não possa ser. Os progressistas querem coligar com a governadora e nós ainda estamos na posição de não coligar”.

A nacional do União Brasil já tinha enviado recado público de que, em Pernambuco, não haveria coligação nem para o governo nem para o Senado. A leitura entre dirigentes locais é que o Palácio do Campo das Princesas subestimou o peso formal da federação e agora tenta recompor pontes, diante do risco jurídico de um apoio sem unidade interna.

O presidente da federação, Eduardo da Fonte, tenta conter a narrativa de crise. “Quando a gente chama uma convenção partidária e põe na ata que termina às 17h, não tem adiamento de nada. Abrimos os trabalhos com o presidente do PP Ciro Nogueira e Fernando Filho disse que é quem vai tratar dos encaminhamentos”, afirma, num esforço de mostrar normalidade onde a prática revela disputa bruta por espaço.

Ceará tem convenção validada e conflito judicializado

Enquanto Pernambuco adia decisões, o Ceará vive o efeito oposto: uma convenção contestada se mantém em pé. O Tribunal Regional Eleitoral do Ceará decide, por 4 votos a 2, manter válida a convenção estadual da União Progressista que declara apoio a Ciro Gomes (PSDB) para o governo local.

A federação cearense integra a coligação de Ciro, que tem Roberto Cláudio (União) como candidato a vice e Capitão Wagner (União) para o Senado. A decisão do tribunal atropela a estratégia dos diretórios estaduais do União Brasil e do Progressistas, aliados do governador Elmano de Freitas (PT), que tentam anular a convenção para liberar o apoio ao petista.

O conflito é, na prática, uma briga de comando. De um lado está Capitão Wagner, presidente estadual da federação e opositor de Elmano. De outro, os presidentes estaduais de União Brasil e Progressistas, alinhados ao Palácio da Abolição. A federação, criada em 2025 com validade até 2029, nasce para fortalecer candidaturas proporcionais, mas se transforma em palco de guerra nas disputas majoritárias.

A decisão do TRE mantém a federação no palanque de Ciro, mas alimenta um contencioso que tende a se arrastar. Diretórios derrotados falam em recorrer e avaliam contestar internamente a liderança de Wagner. No curto prazo, a mensagem aos eleitores é de confusão: os mesmos partidos que, isoladamente, caminham com Elmano, na federação ainda são obrigados a vestir o adesivo de Ciro.

Pastores progressistas sob fogo cruzado

Longe das salas de convenção, as tensões políticas ecoam nos púlpitos. Pastores e lideranças evangélicas que se alinham a pautas progressistas relatam um processo silencioso de banimento em igrejas marcadas pela ascensão do bolsonarismo.

Alexandre Gonçalves, pastor da Igreja de Deus no Brasil há mais de três décadas, descreve uma trajetória que muitos colegas reconhecem. Ele perde espaço depois de declarar que não apoiaria Jair Bolsonaro. “A partir dali perdi tudo. Colegas de pastoreio me chamavam de pastor comunista e petista, sendo que eu nunca fui nenhum dos dois”, conta. O pastor relata casos de amigos expulsos de casas pertencentes à igreja por se recusarem a apoiar o ex-presidente, obrigados a morar por um período dentro de carros com a família.

Kleber Lucas, um dos nomes mais conhecidos da música gospel, vê sua agenda encolher drasticamente após se aproximar de pautas sociais e recusar convites de templos associados ao bolsonarismo. Sua regravação de “Deus Cuida de Mim” com Caetano Veloso e a entrada como suplente na chapa da petista Benedita da Silva ampliam o rótulo de “progressista” – elogio em certos círculos, carimbo de exclusão em outros.

O caso mais simbólico é o de Ed René Kivitz, líder da Igreja Batista de Água Branca. Ele é expulso da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB) após defender uma leitura contemporânea da Bíblia e questionar interpretações usadas para condenar pessoas LGBT ao inferno. “Quem se arvora no direito de promover assassinato de reputação, linchamentos virtuais, a forma contemporânea de apedrejamento, negligencia a advertência feita por Jesus: ‘Não julguem, e não serão julgados’”, reage Kivitz, ao descrever a campanha de ataques contra seu nome.

Bolsonarismo reorganiza fronteiras da fé

A OPBB, entidade que reúne mais de 16 mil filiados, afirma que não se trata de perseguição política, mas de zelo doutrinário. “Quando um pastor deixa de acreditar no mínimo comum, por iniciativa própria ou da instituição, ele deixa a organização”, diz o presidente, Riedson Filho. Ele reconhece a pluralidade de opiniões, mas insiste em “princípios bíblicos-doutrinários comuns” que devem ser respeitados.

Na prática, o que se vê é uma reconfiguração ideológica acelerada. Questionar dogmas tradicionais ou se distanciar do bolsonarismo passa a ser confundido com heresia. O pastor Ricardo Gondim, da Igreja Betesda, fala em clima de macarthismo religioso, com cancelamentos, perda de amigos e boicotes a projetos sociais. Pastores relatam demissões de seminários, corte de mantenedores e pressão para que fiéis bloqueiem e denunciem pregadores considerados progressistas.

O efeito político dessa guinada é direto. Comunidades evangélicas, historicamente diversas, se tornam terreno fértil para discursos que equiparam divergência política a ameaça espiritual. Propostas progressistas, mesmo quando defendidas dentro da própria igreja, encontram menos espaço de circulação. Em contrapartida, lideranças alinhadas à direita radical multiplicam influência sobre bases eleitorais decisivas.

A fragilidade da União Progressista nos estados e o cerco às vozes evangélicas progressistas se alimentam mutuamente. Uma federação que tenta se equilibrar entre alianças com a direita e discurso reformista vê sua base social se estreitar num ambiente em que bolsonarismo e fundamentalismo religioso andam de mãos dadas. O resultado é uma esquerda e um centro enfraquecidos tanto nas urnas quanto nos templos.

Nas próximas semanas, União Brasil e Progressistas terão de testar o limite da própria federação: ou produzem acordos mínimos em Pernambuco e Ceará ou consolidam um arranjo em que a sigla existe no papel, mas a prática é de partidos soltos e em conflito. Nas igrejas, o dilema é semelhante. Pastores como Kleber Lucas, Alexandre Gonçalves, Kivitz e Gondim seguem apostando num evangelicalismo plural, mesmo sob ostracismo crescente. A disputa por fiéis, votos e narrativa religiosa promete atravessar toda a campanha deste ano – e, ao que tudo indica, não termina com a apuração das urnas.

Progressistas é de esquerda ou de direita?

O Progressistas atua hoje como partido de centro-direita, abrigando políticos que dialogam com o bolsonarismo em pautas conservadoras, mas também negociam com governos de perfil mais moderado, o que gera confusão sobre sua ideologia e alimenta buscas por “Progressistas esquerda ou direita” e “Progressistas apoia quem”.

Qual o impacto eleitoral da crise na União Progressista?

A indefinição da União Progressista em Pernambuco e o racha no Ceará tendem a reduzir o peso da federação nas urnas de 2026, enfraquecendo candidaturas proporcionais e majoritárias, abrindo espaço para adversários explorarem a divisão interna e dificultando a construção de um bloco coeso de centro-direita contra o bolsonarismo e a esquerda.


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