A Polícia Federal concluiu o inquérito sobre a queda do voo 2283 da Voepass e indiciou 16 funcionários e ex-funcionários da companhia aérea. O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo, no interior de São Paulo, e provocou a morte das 62 pessoas que estavam a bordo da aeronave — 58 passageiros e quatro tripulantes.
Segundo a PF, os investigados foram indiciados por atentado contra a segurança do transporte aéreo, crime previsto no Código Penal. O relatório será encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF), que decidirá se apresenta denúncia à Justiça, solicita novas diligências ou arquiva o caso. É importante destacar que o indiciamento não representa condenação e os investigados terão direito à ampla defesa.

O que levou ao indiciamento?
De acordo com a investigação da Polícia Federal, a tragédia foi resultado de uma sucessão de falhas que envolveram aspectos técnicos, operacionais e administrativos.
O laudo pericial produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística concluiu que o ATR 72-500 perdeu o controle após enfrentar acúmulo de gelo durante o voo. A investigação também aponta que o sistema pneumático responsável pelo degelo da aeronave apresentava problemas e que procedimentos operacionais previstos pelo fabricante não teriam sido executados corretamente.
Segundo a PF, o acidente não decorreu de um único erro, mas de uma combinação de fatores que comprometeram as barreiras de segurança da operação aérea.
Falhas anteriores também entraram na investigação
Outro ponto considerado pelos investigadores envolve registros de panes em voos anteriores.
Conforme a investigação, problemas no sistema de degelo já haviam sido identificados anteriormente, mas, em alguns casos, essas falhas não teriam sido registradas adequadamente no diário técnico da aeronave. Isso teria permitido que o avião continuasse operando mesmo diante de indícios de falhas relevantes para a segurança do voo.
Além disso, o relatório aponta que um despachante operacional autorizou a decolagem mesmo diante da previsão de condições favoráveis à formação severa de gelo na rota.
Caixa-preta revelou momento de preocupação na cabine
As gravações recuperadas da caixa-preta também fizeram parte das provas reunidas pela Polícia Federal.
Em um dos registros, o comandante comenta que o sistema de degelo não estaria funcionando corretamente, reforçando a linha de investigação de que a aeronave enfrentava dificuldades técnicas pouco antes da perda de controle.
Esses elementos foram cruzados com perícias técnicas, registros operacionais e depoimentos colhidos ao longo de quase dois anos de investigação.
O que acontece agora?
Com a conclusão do inquérito policial, a decisão passa para o Ministério Público Federal.
Os procuradores poderão:
oferecer denúncia à Justiça Federal;
solicitar novas diligências;
ou pedir o arquivamento do caso.
Caso haja denúncia e ela seja aceita pela Justiça, os indiciados passarão à condição de réus e responderão ao processo criminal.
Relembre a tragédia
O voo 2283 havia decolado de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.
Durante a aproximação da capital paulista, a aeronave perdeu sustentação, entrou em uma queda em espiral e atingiu um condomínio residencial em Vinhedo.
As 62 pessoas a bordo morreram no acidente, considerado o mais grave da aviação comercial brasileira desde 2007.
O que apontou a investigação técnica?
Paralelamente ao inquérito criminal da Polícia Federal, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) conduziu a investigação técnica.
O relatório concluiu que o acidente foi provocado por uma combinação de fatores, incluindo falhas técnicas, operacionais, organizacionais e de supervisão. Segundo o órgão, a aeronave não deveria ter decolado nas condições encontradas naquele dia.
O Cenipa ressalta, porém, que sua investigação tem caráter exclusivamente preventivo e não busca atribuir responsabilidade civil ou criminal.
ENTENDA O CONTEXTO
A queda do voo 2283 da Voepass ocorreu em 9 de agosto de 2024 e chocou o país ao provocar a morte de 62 pessoas em Vinhedo (SP). Desde então, diferentes órgãos passaram a investigar o caso.
Enquanto o Cenipa analisou os fatores que contribuíram para o acidente com o objetivo de evitar novas ocorrências, a Polícia Federal conduziu a investigação criminal para apurar possíveis responsabilidades.
Agora, com o indiciamento de 16 funcionários e ex-funcionários da companhia, o caso entra em uma nova fase. Caberá ao Ministério Público Federal decidir se as provas reunidas justificam a apresentação de denúncia à Justiça. Até eventual condenação definitiva, os indiciados são considerados inocentes.