O senador Angelo Coronel (PSD-BA), relator da reforma do Imposto de Renda no Senado e candidato à reeleição, reage hoje à divulgação de uma foto em que aparece em uma piscina na casa do advogado Willer Tomaz, em Planaltina (DF), ao lado de parlamentares e de seu filho, o deputado Diego Coronel (Republicanos-BA). A imagem, registrada em 23 de abril de 2023 e obtida pela revista Piauí, foi encontrada pela Polícia Federal no celular do senador Weverton Rocha (PDT-MA) e reacende o debate sobre a proximidade entre autoridades e figuras investigadas.
Foto vira munição em ano eleitoral
A fotografia ganha repercussão em meio à disputa eleitoral deste ano e ao protagonismo de Angelo Coronel em uma das principais agendas econômicas do Congresso. O senador tenta se manter como articulador da reforma tributária enquanto administra a crise de imagem causada pelo registro na piscina.
Na imagem, aparecem, além de Coronel e de Diego Coronel, o presidente da Câmara na época, Arthur Lira (PP-AL), o então deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), o então ministro das Comunicações Juscelino Filho (PSDB-MA) e o deputado Elmar Nascimento (União-BA), entre outros convidados. Todos participam de um encontro social na casa de Willer Tomaz, que é alvo de investigações.
O fato de a foto ter sido localizada pela Polícia Federal no celular de outro senador, Weverton Rocha, adiciona uma camada de tensão institucional ao episódio. O material integra apurações em curso e, ao vir a público, expõe redes de convivência que misturam interesses pessoais, partidários e processos sob sigilo.
“Ninguém vai para o evento pedindo a ficha policial”
Pressionado a explicar sua presença no encontro, Angelo Coronel adota um tom de naturalização das relações políticas. Em declaração a jornalistas, ele afirma estar sereno diante da divulgação da imagem e rejeita a ideia de que deveria monitorar antecedentes de anfitriões e convidados.
“Ninguém vai para o evento pedindo a ficha policial, tem folha corrida de ninguém. Senão ninguém andava nessa Bahia, nem nesse Brasil”, diz o senador, ao comentar a foto agora repercutida nacionalmente. Coronel argumenta que encontros sociais com autoridades de diferentes espectros são parte da rotina de quem atua na política há décadas.
A fala, no entanto, ganha peso particular porque o parlamentar tenta se firmar como referência em temas tributários e busca renovar o mandato. A postura de minimizar o episódio contrasta com o discurso de maior rigor ético que cresce no debate público desde as grandes operações de combate à corrupção.
Redes de poder sob holofotes
A presença simultânea de figuras centrais do Legislativo e de um então ministro do governo federal na casa de um advogado investigado ajuda a desenhar o retrato de uma elite política que compartilha espaços privados, independentemente de inquéritos em curso. Esse tipo de convivência, que por anos se mantém nos bastidores, se torna mais visível à medida que operações policiais avançam sobre aparelhos de telefone e mensagens.
No caso de Angelo Coronel, o episódio surge no momento em que ele tenta ampliar apoio tanto entre eleitores que se identificam com a esquerda quanto entre setores mais próximos à direita. A pergunta “Angelo Coronel é de esquerda ou direita?” volta a circular em redes sociais, enquanto adversários exploram a ambiguidade de suas alianças.
Os rivais também resgatam dúvidas sobre com quem o senador se alinha nacionalmente, se com o entorno do presidente Lula, se com lideranças ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro ou se com caciques regionais que atuam de forma pragmática. Ao ser projetado como relator da reforma do Imposto de Renda, Coronel tenta se colocar acima dessa polarização, mas a foto o arrasta de volta para o jogo de rótulos.
Impacto na imagem e na reforma tributária
A imagem na piscina atinge um ponto sensível da trajetória de Coronel: sua aposta em construir um perfil de técnico influente, capaz de destravar negociações complexas da reforma tributária. A divulgação mexe com a percepção de independência do relator em relação a grupos de pressão e a interesses empresariais ou partidários que orbitam o tema.
Senadores e deputados que acompanham as negociações avaliam, nos bastidores, se a repercussão pode enfraquecer a capacidade de articulação de Coronel. A reforma depende de votos de diferentes bancadas, inclusive de partidos que aparecem representados na foto. Quanto maior o desgaste público, mais difícil se torna reunir uma maioria sólida sem novas concessões.
No campo eleitoral, a foto vira instrumento para adversários locais na Bahia e em outros estados, que agora tentam associar o nome de Angelo Coronel ao de personagens investigados, a partidos rivais e a líderes nacionais controversos. O tema “Angelo Coronel apoia quem” vira disputa de narrativa, com campanhas tentando colar o senador ora em Lula, ora em Bolsonaro, conforme a conveniência regional.
Pressão por transparência e próximos passos
Organizações que defendem transparência na política usam o caso para reforçar a cobrança por critérios mais rígidos na escolha de parceiros e apoiadores. A frase de Coronel sobre não pedir ficha policial em eventos sociais é interpretada, por críticos, como sintoma de uma cultura de normalização de relações com investigados, o que, na prática, enfraquece o combate à corrupção.
A tendência, nos próximos dias, é de intensificação do escrutínio sobre as relações de Angelo Coronel com outros personagens da foto e com operadores políticos que atuam em Brasília. Cresce a expectativa por manifestações públicas dos demais presentes, como Arthur Lira, Alexandre Ramagem, Juscelino Filho e Elmar Nascimento, que até agora evitam comentar o encontro em detalhes.
No Senado, opositores avaliam a possibilidade de cobrar explicações formais sobre a presença do relator da reforma tributária em ambiente ligado a um investigado. Em paralelo, marqueteiros próximos ao senador tentam conter danos, reforçando mensagens sobre sua trajetória, seu partido e a atuação do filho, Diego Coronel, na Câmara.
A forma como Angelo Coronel atravessar essa crise ajuda a definir o fôlego de sua campanha e o peso de sua voz na tramitação da reforma do Imposto de Renda. Se a reação se limitar à ironia sobre “ficha policial”, tende a alimentar a sensação de distanciamento em relação às demandas por integridade na política. Se vier acompanhada de compromissos mais claros com transparência, o episódio pode se transformar em ponto de inflexão em sua carreira.