Lúcio Mauro Filho revela que recebeu diagnóstico de câncer no intestino depois de enfrentar um quadro grave de Covid-19 e um longo tratamento pós-infecção. O ator conta a história pela primeira vez em entrevista ao programa Alt Tabet, do Canal UOL, e liga a descoberta ao check-up feito após as complicações respiratórias e emocionais.
Crise de pânico no retorno aos estúdios
O artista, conhecido pelo Tuco de “A Grande Família” e pela “Escolinha do Professor Raimundo”, relata que permaneceu 25 dias com teste positivo para Covid-19. Quando voltou ao trabalho, já escalado para a última temporada da “Escolinha”, passou a sentir um medo incapacitante do ambiente de gravação.
“Foi devastador. Eu com medo das pessoas, da câmera, da luz. Eu já fui me tratar e comecei a me cuidar”, diz. Ele lembra que a primeira crise de pânico veio dentro do estúdio, sob pressão para retomar as gravações. “Eu com medo das pessoas, com medo do estúdio, com medo da câmera, com medo da luz”, repete.
O impacto não foi apenas emocional. Lúcio afirma que ouviu de médicos alertas para risco de trombose e de acidente vascular cerebral. “Eu fui vencendo, fui vencendo, fui me medicando. E também veio uma questão assim, uma possibilidade de trombose, de AVC. Meu pai morreu de AVC, então tive que fazer um longo tratamento pós-covid”, conta.
Check-up revela câncer no intestino
Concluído o tratamento das sequelas da infecção, o ator decidiu investigar a própria saúde de forma mais ampla. “Eu tive uma covid que foi meio pesadinha e, por causa dela, eu tive um pânico. Quando terminou esse tratamento pós-covid, tinha que fazer um check-up pra ver se tudo melhorou. Quando eu faço esse check-up, cara, aí descobri um câncer no intestino. Eu nunca contei isso pra ninguém. Ninguém sabe”, afirma.
Ele não detalha quando recebeu o diagnóstico, nem o estágio da doença ou o tipo de tratamento que fez. Diz apenas que considerou o quadro “resolvido”, sem especificar se houve cirurgia, quimioterapia ou outro procedimento. “Quando terminou o tratamento, fiz um check-up. Aí descobri um câncer no intestino. Eu nunca contei isso para ninguém”, reforça.
No meio da recuperação, a vida pessoal sofria outro abalo. Lúcio relata que, quando se sentia livre do câncer, a mãe recebeu diagnóstico de um tumor agressivo e morreu em sete dias. Ele estava ao lado dela no hospital, durante o Carnaval. “Quando eu tô com tudo resolvido do câncer, mamãe morre de câncer, um câncer agressivo, em sete dias. Calhou da mamãe morrer nos meus braços”, diz.
Olhar de felicidade como estratégia de sobrevivência
A sequência de perdas, somada ao medo da Covid e ao histórico familiar de AVC, poderia ter paralisado a carreira. O ator, porém, conta que seguiu gravando, inclusive a novela “Quanto Mais Vida Melhor”, filmada integralmente em clima de pandemia. Paralelamente, buscou ajuda psiquiátrica e terapia para lidar com o pânico e a ansiedade.
Ele atribui a própria sobrevivência emocional a uma postura deliberada de encarar os acontecimentos com esperança. “Aconteceram muitas coisas e o que me salvou foi esse olhar de felicidade. Eu sou a prova de que o olhar com felicidade para a vida é terapêutico”, afirma. O relato mistura vulnerabilidade e certo espanto por ter atravessado, em sequência, Covid grave, risco de trombose e AVC, câncer intestinal e a morte da mãe por outro tumor.
Enquanto se reequilibra, Lúcio mantém projetos na televisão e no streaming, preserva a rotina de acompanhamento médico e usa a própria história como alerta público. Sem revelar a idade na entrevista, ele se dirige a quem o viu crescer em programas de humor e hoje já está na faixa de risco para doenças crônicas. A mensagem central é que exames de rotina não são luxo nem excesso de zelo, mas parte da sobrevivência.
Caso acende alerta para câncer colorretal silencioso
A revelação do ator abastece uma discussão urgente nos consultórios: a do câncer colorretal que avança em silêncio. O coloproctologista Danilo Munhóz lembra que, em estágios iniciais, o tumor pode não dar qualquer sinal. “O câncer colorretal pode se manifestar de diferentes formas e, em fases iniciais, inclusive não provocar nenhum sintoma”, explica.
Quando aparecem, segundo ele, os sinais mais comuns incluem sangue nas fezes, mudança persistente do hábito intestinal, dor ou desconforto abdominal, sensação de evacuação incompleta, fraqueza, anemia e perda de peso sem motivo aparente. Mudança acentuada no formato das fezes também merece investigação. “O problema é assumir que determinado sintoma é benigno sem investigá-lo”, alerta.
O especialista destaca que o SUS adota o teste imunoquímico fecal, conhecido como FIT, como exame de referência para rastrear, em pessoas assintomáticas entre 50 e 75 anos, sinais de sangue oculto nas fezes. Esse exame simples, feito em casa e analisado em laboratório, indica quem precisa seguir para colonoscopia e investigação mais detalhada.
Prevenção além da alimentação e do exercício
Munhóz insiste que prevenção não se limita a boa dieta e caminhada regular. “Prevenção não significa apenas cuidar da alimentação e praticar exercícios. Significa também fazer os exames apropriados no momento certo, porque podemos encontrar e retirar uma lesão precursora antes que ela tenha a oportunidade de se transformar em câncer”, afirma.
Entre as medidas apontadas por ele para reduzir o risco de câncer de intestino estão manter atividade física, controlar o peso, não fumar, reduzir o consumo de álcool e priorizar alimentos ricos em fibras, como frutas, verduras, legumes e grãos integrais. Outra recomendação é limitar carnes processadas, como embutidos, e o excesso de carne vermelha.
O caso de Lúcio Mauro Filho expõe, ainda, a necessidade de integrar saúde física e mental no pós-Covid. A mesma infecção que deixou sequelas respiratórias desencadeou crises de pânico e levou a um check-up que acabou flagrando o tumor. Na prática, o relato pressiona sistemas público e privado a reforçar campanhas de rastreamento e apoio psicológico, especialmente num país em que muitos adiam consultas por falta de tempo, dinheiro ou informação.
Enquanto o ator segue cuidando da própria saúde e da carreira, médicos esperam que a comoção em torno da história se traduza em agenda concreta: mais pessoas procurando exames, mais demanda por estrutura de diagnóstico precoce e mais atenção às crises emocionais que acompanham doenças graves. O impacto pleno dessa exposição ainda depende da resposta de governos, planos e profissionais — e de quantos espectadores vão transformar empatia em consulta marcada.