Deborah Secco expõe em detalhes os relacionamentos tóxicos que viveu, defende a guarda compartilhada da filha Maria Flor com o ex-marido Hugo Moura e anuncia uma guinada na carreira: o filme “Bruna Surfistinha 2” marca o fim de seus personagens sensuais.
Relatos de abuso e a busca por cura emocional
Na entrevista ao videocast “Conversa vai, conversa vem”, do jornal O Globo, a atriz descreve episódios de violência emocional e controle em antigos relacionamentos. Ela conta ter vivido manipulações que misturavam dependência afetiva, agressões verbais e físicas.
“Relacionamentos tóxicos, abusivos, aquele looping de aprisionamento, de a pessoa te manipular a ponto de se sentir dependente dela”, resume. Em seguida, menciona uma das situações mais duras que enfrentou. “Já fui trancada para não poder comer. ‘Não vai comer isso senão vai ficar gorda’”, relata.
Deborah liga essas escolhas afetivas à ausência do pai durante a infância.
“Busquei o padrão de abandono em todas as relações: amorosas, de amizade, pessoas que tinha que conquistar, batalhar, que tendiam ao abandono e não ao cuidado”, diz. Ela admite ter ultrapassado limites em nome da aceitação: “Fiz durante anos coisas que jamais faria novamente para ser aceita e ter pessoas”.
Essa percepção, segundo a atriz, surge agora com mais clareza, enquanto revisita o passado e tenta romper padrões. A experiência, afirma, influencia diretamente a forma como enxerga a criação da filha e os relacionamentos daqui para frente.

Guarda compartilhada que dói e ao mesmo tempo cura
Ao falar da maternidade, Deborah não romantiza a guarda compartilhada de Maria Flor com Hugo Moura. Ela admite que o arranjo a fere, mas também a reconcilia com a própria história familiar.
“Guarda compartilhada foi a minha maior dor. Existe metade de uma vida da minha filha da qual não participo. Isso era inaceitável”, afirma. Com o tempo, essa ausência intermitente virou aprendizado. “A paternidade do Hugo me cura, porque tive um pai que não esteve comigo”, diz.
Acompanhá-lo como pai presente e participativo faz diferença concreta para ela.
“A experiência da Maria Flor com o pai presente, um pai afeto, que se preocupa e se responsabiliza tanto quanto eu, me cura.”
Esse olhar, conta a atriz, também orienta o que deseja transmitir à filha sobre afeto e escolha.
“É bom saber que minha filha vai crescer sabendo o tipo de pessoa que tem que escolher: quem brigue por ela, quem escolha por ela, quem a ame enlouquecidamente, gaste tempo e atenção com ela.”

Fim da persona sexy: “chega ao fim e começa num outro lugar”
No campo profissional, Deborah anuncia que “Bruna Surfistinha 2” sela o fim de um ciclo em que a sensualidade foi marca central de sua imagem. Ela faz questão de separar a carreira da persona que a consagrou em diversos trabalhos. “Da atriz, não, mas dessa personagem sexy, sim. É como se não fizesse mais sentido”, afirma.
Segundo ela, a própria filmagem do novo longa expôs o desgaste desse lugar. “Durante a filmagem, agora, fui percebendo como aquilo me tocava, onde tinha que ceder e como me transformava, doía, acrescentava. Ter topado fazer esse outro filme é um grande encerramento de ciclo dessa persona que tanto me acrescentou, mas que, talvez, não faça mais sentido.”

Deborah descreve o momento como um marco de transição criativa.
“Com esse filme, ela chega ao fim e começa num outro lugar”, diz, em referência à personagem sexy que a acompanha há anos.
O plano agora, reforça, é usar sua visibilidade para iluminar outras trajetórias femininas:
“Sempre vou querer contar a história de mulheres desamparadas, que não são acolhidas e que precisam de voz”.
Reorganização de prioridades: do trabalho absoluto ao equilíbrio
A mudança profissional vem acompanhada de um ajuste profundo nas prioridades pessoais. Deborah admite que o trabalho ocupava quase todo o espaço em sua vida adulta.
“O trabalho sempre teve um peso de 96% e o resto de 4%”, resume. Ela diz ter entendido o custo emocional desse desequilíbrio. “Entendi que se colocar todas as fichas só nesse lugar, os outros não vão florescer.”
A atriz reconhece o impacto da estabilidade financeira conquistada cedo, mas insiste que só recentemente passou a deslocar as atenções.
“Tive o privilégio de conseguir estruturar minha vida financeira cedo e, com o tempo, colocar importância nos lugares que devem ter”, afirma. Hoje, descreve uma rotina mais ampla, com espaço para vínculos, descanso e formação contínua. “Hoje, Deborah quer tempo para estar com as pessoas, sozinha, ler, estudar, construir uma relação de amor verdadeira”, afirma, em terceira pessoa, quase como um manifesto íntimo.
Essa reorganização também toca a relação com o próprio corpo, por anos associado aos papéis sensuais. A atriz fala em buscar bem-estar, não performance.
“Gosto mais de trabalhar sem sentir dor nas costas, abaixar e levantar, andar de salto”, diz, numa síntese do desejo por um ambiente de trabalho menos violento com o físico e com a mente.
Impacto na indústria e próximos passos
A decisão de se afastar de personagens hipersexualizados repercute diretamente na maneira como Deborah Secco aparece em filmes e séries. Produtores que se acostumaram a recorrer à sua imagem sensual tendem a perder uma referência consolidada. Em contrapartida, diretores interessados em personagens femininas complexas e vulneráveis ganham uma intérprete disposta a ir além dos estereótipos.
Na prática, essa guinada pode estimular roteiristas a escreverem histórias centradas em mulheres desamparadas, tema que a atriz assume como bandeira. A transformação pessoal também abre espaço para uma participação mais ativa em debates sobre relacionamentos abusivos, saúde mental e modelos de família com guarda compartilhada equilibrada.
Deborah segue em cartaz na vida pública, mas agora mira um tipo diferente de protagonismo: menos ligado ao corpo como vitrine e mais à experiência como matéria-prima. Os próximos trabalhos devem servir de termômetro para medir quanto essa nova fase, hoje anunciada com convicção, vai se traduzir em mudanças duradouras na tela – e fora dela.